literatura comparada

A rã

O homem estava sentado sobre uma lata na beira de uma garça. O rio Amazonas passava ao lado. Mas eu queria insistir no caso da rã. Não seja este um ensaio sobre orgulho de rã. Porque me contou aquela uma que ela comandava o rio Amazonas.
Falava, em tom de sério, que o rio passava nas margens dela. Ora, o que se sabe, pelo bom senso, é que são as rãs que vivem nas margens dos rios. Mas aquela rã contou que estava estabelecida ali desde o começo do mundo. Bem antes do rio fazer leito e passar. E que, portanto, ela tinha a importância de chegar primeiro. Que ela era por todos os motivos primordial. E quem se faz primordial tem o condão das primazias.
Portanto era o rio Amazonas que passava por ela. Então, a partir desse raciocínio, ela a rã, tinha mais importância. Sendo que a importância de uma coisa ou de um ser não é tirada pelo tamanho ou volume do ser mas pela permanência do ser no lugar. Pela primazia. Por esse viés do primordial é possível dizer então que a pedra é mais importante que o homem. Por esse viés, com certeza, a rã não é uma criatura orgulhosa. Dou federação a ela. Assim como dou federação à garça quem teve um homem sentado na beira dela. As garças têm primazia.

Manoel de Barros – Memórias inventadas -A segunda infância.

AS MULTIDÕES

Não é dado a todo o mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte. E somente ele pode fazer, às expensas do gênero humano, uma festa de vitalidade, a quem urna fada insuflou em seu berço o gosto da fantasia e da máscara, o ódio ao domicílio e a paixão por viagens.

Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis pelo poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio de uma multidão ocupadíssima.

O poeta goza desse incomparável privilégio que é o de ser ele mesmo e um outro. Como essas almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, no personagem de qualquer um. Só para ele tudo está vago; e se certos lugares lhe parecem fechados é que, a seu ver, não valem a pena ser visitados.

O passeador solitário e pensativo goza de uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa a massa conhece os prazeres febris dos quais serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso. ensimesmado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias, todas as misérias que as circunstâncias lhe apresentem.

Isto que os homens denominam amor é bem pequeno, bem restrito, bem frágil comparado a esta inefável orgia, a esta solta prostituição da alma que se dá inteiramente, poesia e caridade, ao imprevisto que se apresenta, ao desconhecido que passa.

É bom ensinar, às vezes, aos felizes deste mundo, pelo menos para humilhar um instante o seu orgulho, que existem bondades superiores às deles, maiores e mais refinadas, Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os sacerdotes missionários exilados no fim do mundo conhecem, sem dúvida, alguma coisa dessas misteriosas bebedeiras; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem rir, algumas vezes, dos que se queixam de suas fortunas tão agitadas e de suas vidas tão castas.

Charles Baudelaire, Pequenos poemas em prosa.

XVIII CONVITE À VIAGEM

Existe um país soberbo, um país idílico, dizem, chamado Cocagne que eu sonho visitar com uma velha amiga. País singular, nascido nas brumas de nosso Norte e que poderia se chamar o Oriente do Ocidente, a China da Europa, tanto pela sua calorosa e caprichosa fantasia quanto por ela, paciente e persistentemente ser ilustrada por sábias e delicadas vegetações.

Um verdadeiro país de Cocagne, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde o luxo se compraz em se ver em ordem, ou a vida é livre e doce de se respirar; de onde a desordem, a turbulência e o imprevisto são excluídos; onde a bondade está casada com o silêncio; onde a própria cozinha é poética, rica e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo, meu anjo.

Conheces essa doença febricitante que se apossa de nós nas gélidas misérias, essa nostalgia de um país que ignoramos, essa angústia vinda da curiosidade? É um lugar que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É lá que se precisa ir viver, é lá que se precisa ir morrer.

Sim, é lá que se precisa ir respirar, sonhar e esticar as horas para o infinito. Um músico escreveu o Convite à Valsa, quem comporá o Convite à friagem, que se possa oferecer à mulher amada ou à irmã preferida?

Sim, é nessa atmosfera que seria bom viver — lá onde as horas mais lentas contêm mais pensamentos, onde os relógios marcam a felicidade com a mais profunda e a mais significativa solenidade.

Sobre as telas brilhantes ou sobre os couros dourados, de sombria riqueza, vivem, discretamente, as pinturas beatas, calmas e profundas como as almas dos arriscas que as criaram, Os sóis poentes que cobrem tão ricamente a sala de jantar ou o sabão são amenizados pelos belos tecidos ou por altas janelas trabalhadas divididas pelas esquadrias de chumbo em numerosos compartimentos, Os móveis são vastos, curiosos, bizarros, armados de fechaduras com segredos, como as almas refinadas. Os metais, os espelhos, os tecidos, a ourivesaria e a faiança tocam para os olhos uma sinfonia muda e misteriosa; e de todas as coisas, de todos os cantos, das frestas das gavetas e das pregas dos tecidos emerge um perfume singular, um retorne de Sumatra, que é como a alma do apartamento.

Um verdadeiro país de Cocagne, digo-te, onde tudo é rico, limpo e luminoso como uma consciência pura, como uma magnífica bateria de cozinha, como urna esplêndida ourivesaria, como uma joalheria multicor! Os tesouros do mundo inteiro afluem, como na casa de um homem trabalhador que bem os merece. País singular, superior aos outros, como a Arte é em relação à Natureza reformada pelo sonho, onde é corrigida, embelezada e refundida.

Que eles procurem, que pesquisem mais, que recuem sem cessar os limites de sua felicidade, estes alquimistas da horticultura! Que proponham o preço de sessenta e de cem florins na solução de seus ambiciosos problemas! Eu encontrei minha tulipa negra e minha dália azul!

Flor incomparável, tulipa reencontrada, dália alegórica, está lá, não é?, nesse belo país tão calmo e tão sonhador que seria preciso ir viver e florescer Não estarias enquadrada em tua analogia e não poderias mirar-te, para falar com os místicos, em tua própria correspondência?

Sonhos! Sempre sonhos! E quanto mais ambiciosa e delicada é a alma, mais os sonhos se afastam do possível. Cada homem leva em si sua dose de ópio natural, incessantemente secretada e renovada, e, do nascimento até a morte, quantas horas temos nós de alegria positiva e de ações bem-sucedidas e decididas? Viveremos nós, por acaso, passaremos nós alguma vez nesse quadro que meu espírito pintou, esse quadro que se parece contigo?

Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem, esses perfumes, essas flores miraculosas, és tu. Es tu, ainda, esses grandes rios, esses canais tranqüilos. Esses enormes navios que os singram carregados de riquezas e de onde provêm os cantos monótonos das manobras, são estes meus pensamentos que dormem ou rolam sobre teu seio. Tu os conduzes docemente em direção ao mar que é infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma; e quando, fatigados pelas vagas e saciados dos produtos do Oriente, eles retornam ao porto natal, são ainda meus pensamentos enriquecidos que voltam do infinito para ti.

teoria literária

  1. Leia o conto “Viagem a Petrópolis” e construa um comentário em que você faça uma reflexão sobre a narrativa a partir das discussões feitas em aula sobre conceitos de narrador, personagem, ambiente e espaço. Você deverá utilizar pelo menos duas referências teóricas de sua preferência.

Leia o poema “A porca” e estabeleça um comentário sobre o texto a partir das reflexões realizadas em sala sobre conceitos teóricos como poesia, poema e sujeito lírico. Utilize pelo menos uma referência teórica na composição de sua resposta.

POEMAS – TEORIA LITERÁRIA

Poema 1

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  – 312.

Poema 2

SONETO DO GATO MORTO


Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e a morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.


Vinícius de Moraes, Florença, novembro de 1963

Poema 3

a mulher é uma construção

a mulher é uma construção
deve ser

a mulher basicamente é pra ser
um conjunto habitacional
tudo igual
tudo rebocado
só muda a cor

particularmente sou uma mulher
de tijolos à vista
nas reuniões sociais tendo a ser
a mais mal vestida

digo que sou jornalista

(a mulher é uma construção
com buracos demais

vaza

a revista nova é o ministério
dos assuntos cloacais
perdão
não se fala em merda na revista nova)

você é mulher
e se de repente acorda binária e azul
e passa o dia ligando e desligando a luz?
(você gosta de ser brasileira?
de se chamar virginia woolf?)

a mulher é uma construção
maquiagem é camuflagem

toda mulher tem um amigo gay
como é bom ter amigos

todos os amigos têm um amigo gay
que tem uma mulher
que o chama de fred astaire

neste ponto, já é tarde
as psicólogas do café freud
se olham e sorriem

nada vai mudar –

nada nunca vai mudar –

a mulher é uma construção

Um útero é do tamanho de um punho, Angélica Freitas, 2012

De viuvinha a Carminha: o romance folhetinesco e a tradição das novelas no Brasil.

Olá, alunos.

Ao longo dessa semana, eu pedi que vocês lessem a novela “A viuvinha”, de José de Alencar. Para alicerçar nossa discussão sobre esse texto, é importante que a gente entenda qual era o papel de narrativas como essa e muitas outras que surgem nesse período é bastante importante para o desenvolvimento de vários outros tipos de narrativas que foram e são populares no Brasil, como as radionovelas, as fotonovelas e as telenovelas. 

Para isso, separei um artigo curto e simples que conta a história do folhetim e de seus desdobramentos, escrito pela professora Maria Imaculada Cavalcante, da UFG. 

Peço que vocês leiam o texto e expliquem de que maneira podemos relacionar as discussões trazidas pelo texto teórico com o conto lido. Discutiremos suas explicações (que devem ser trazidas por escrito para entrega) na próxima aula! 

Boa leitura!