São Bernardo – Graciliano Ramos

Para uma reflexão crítica do romance São Bernardo, do Graciliano Ramos, vamos ler o artigo da professora Ana Paula Pacheco intitulado “A subjetividade do Lobisomen”. O objetivo da leitura é compreender o título do artigo e pensar que aspectos do romance discutidos pela professora você achou mais importantes.

4 comentários sobre “São Bernardo – Graciliano Ramos

  1. O artigo se intitula “A subjetividade do Lobisomen” porque a autora busca analisar “a trajetória social de Paulo Honório, narrador-protagonista de São Bernardo, e busca interpretar o sentido da conjunção entre lirismo, dinheiro e melancolia no livro.” Sendo assim, o “lobisomem” é o Paulo Honório. 

    O primeiro aspecto que me chamou muita atenção no artigo foi o de que o suicídio de Madalena opera como uma certa vingança sobre o Paulo Honório. Não sei se vingança seria o termo mais adequado, uma vez que um suicídio vai muito além de um ato que busca atacar um outro. Porém uso essa palavra porque é com a morte de Madalena que o protagonista sente a primeira perda da posse do capital. Ou seja, a mulher serve como mais uma das posses capitalistas de Paulo, e perdê-la faz com que ele deixe de ser o opressor para ser o oprimido (por mais que a opressão primeira tenha sido causada pelo personagem principal) 

    Outro aspecto muito interessante é a interpretação da autora de que Paulo Honório passou por uma metamorfose durante o livro. Eu tendo a concordar com ela, e para tanto, eu trago outro trecho do livro:  

    “Quando dei acordo de mim, a vela estava apagado o luar, que eu não tinha visto nascer, entrava pela janela. A porta continuava a ranger, o nordeste atirava  para dentro da sacristia folhas secas, que farfalhavam no chão de ladrilhos brancos e pretos. O relógio tinha parado, mas julgo que dormi horas. Galos cantaram, a lua deitou-se, o vento se cansou de gritar à toa e a luz da madrugada veio brincar com as imagens do oratório.”  

    Como contexto, o trecho narra instantes depois da última conversa do casal. Sendo assim, a partir da análise de Pacheco, é possível ler que a imagem da lua serve para demarcar essa transformação de homem para lobo. 

    Portanto, assim como Kafka representou um homem se transformar em um inseto, de forma mais implícita, Graciliano representou a metamorfose de um ser humano em um bicho. Porém, em São Bernardo, o fenômeno é mais destruidor às pessoas em redor. 

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  2. Entendo a subjetividade do lobisomem por meio da seguinte passagem, encontrada ao fim da página 6, último parágrafo:

    “A tenebrosa mentalidade do mando rural, por um lado, e a sanha do dinheiro moderno, por outro, concorrem igualmente para a formação do éthos do novo dono, compondo uma mímica ideológica tão heteróclita quanto contemporânea naqueles anos 1920-1930. Essa mímica, bem como a incorporação de uma ampla gama de práticas sociais violentas, aprendida aos de cima, são temas centrais do livro, cujo andamento interpreta o sentido profundo das oportunidades abertas por aquele novo período histórico. Antes de ser proprietário, Paulo Honório fazia parte do setor da sociedade brasileira deixado ao deus-dará do bom coração (mãe Margarida e seu Ribeiro), do trabalho informal o mais degradante (no eito), da de pendência dos ricos. Todavia – e sem que se trate da figura do imigrante, para quem, no país pós-Abolição, a ascensão era possível – Paulo Honório vai ao topo.”

    Que também segue, mais adiante, da seguinte forma:

    “[…] uma promessa invertida, pois se realiza de modo sombrio naquele que consegue – traindo a cada passo sua origem e negando ponto por ponto a ideia mesma de democracia – “colocar-se acima de sua classe”.”

    Posta a questão do éthos – conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento – do personagem sendo formado, fica claro que retrata a transformação violenta que o personagem decide abraçar para que cada vez mais suba socialmente. Nesse sentido, o personagem comum (homem) que provou dos golpes da vida enquanto era fraco, torna-se um lobo por não mais uma questão de sobrevivência, pois já havia sobrevivido, mas por hierarquia condizente com o modo de vida de sua época.

    Quanto aos aspectos que considero relevantes para o sentido do texto, deixo os seguintes trechos:

    “A formação pessoal violenta é socialmente “vencedora”.”, encontrado no último parágrafo da página 7;

    “Os negócios exigem cálculo e brutalidade – dos quais nem a própria mãe de criação escapa –, como as primeiras economias exigiram resistência às humilhações e às brutalidades dos de cima. Nesse sentido, diga-se de passagem, a sorte do homem pobre em São Bernardo já não deve nada ao imaginário popular da malandragem.”, final do último parágrafo da página 8 para a página 9;

    “Não deve ser coincidência o fato de o criminoso pagar pena quando é pobre e usar as letras para desabafar os outros crimes, depois de rico.”, última frase que antecede o primeiro parágrafo da página 10;

    “Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes. […] Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobisomem”, trecho do livro citado na metade da página 14.

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  3. O título “A subjetividade do Lobisomen” é uma metáfora à imagem de homem lobo, ou um homem selvagem, sendo o homem racional em oposição com a fera irracional. Torna-se um contraste de Paulo Honório, que era da classe trabalhadora e explorou as poucas oportunidades que teve, além de forçá-las; um homem que usava da violência e exploração para crescer. A partir de muitas atitudes destrutivas, Paulo já conseguia se ver como uma fera. Sendo confirmado em:

    “Afinal, as oportunidades, que ele soube aproveitar e a partir das quais impôs violentamente aos outros um “eu” não compuseram um homem, como até ele é capaz de ver. O que resta é nada, ou menos que nada, assombração – o empreendedor em dia com a modernização conservadora retrocede no espelho a lobisomem”.

    Um dos aspectos que achei importante foi a visão que Paulo tinha de Madalena, que era como uma propriedade, mas então com o suicídio de Madalena serviu como um acontecimento fantasma e a decadência de Paulo foi inevitável.

    “Um pouco adiante, porém, Madalena se suicida; a insubmissão – que as metáforas passivas, “mosca-morta”, “boneca”, não logravam pacificar – ganha proporções inesperadas, e embora ela não seja propriamente comunista, como Paulo Honório a imagina, seu gesto final vira do avesso o mundo do proprietário.”

    Outro aspecto foi a melancolia de Paulo que veio com a perda de tudo, mas sem arrependimentos e então a conclusão de ter se tornado um lobisomem.

    “A incessante conversão desse “eu” – o trabalhador do eito, o caixeiro-viajante do sertão, o agiota, o proprietário, o ladrão, o assassino, o empreendedor, o decadente, o escritor –, que nunca esteve inteiramente sob seu domínio, embora jamais se reduzisse a um ledo engano, encontra parada na metamorfose derradeira, o lobisomem, regida pelo irracionalismo que toma o lugar do cálculo. (Permanecendo entretanto a pergunta sobre o sentido de uma subjetividade-coisa que se vê, reconhecendo-se, numa imagem anacrônica, a de um lobisomem.)”

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  4. O texto leva esse nome pois traz uma observação de como Paulo Honório forma-se como um ser meio homem e meio lobo, logo, não é necessariamente colocado como um ser mitológico, mas sim uma reflexão de quem ele é. Curiosamente é complicado dizer que ele é um algo, como um ponto único no caso, já que ele é muitas coisas; teve um trecho na página 79 (14 no pdf) que dá um pontapé nessa discussão de quem ele é:

    “A incessante conversão desse “eu” – o trabalhador do eito, o caixeiro-viajante do sertão, o agiota, o proprietário, o ladrão, o assassino, o empreendedor, o decadente, o escritor –, que nunca esteve inteiramente sob seu domínio, embora jamais sereduzisse a um ledo engano, encontra parada na metamorfose derradeira, o lobisomem, regida pelo irracionalismo que toma o lugar do cálculo. (Permanecendo entretanto a pergunta sobre o sentido de uma subjetividade-coisa que se vê, reconhecendo-se, numa imagem anacrônica, a de um lobisomem.)”

    Daí sai um pensamento, de como descrever nosso Narrador-Personagem que protagoniza o livro? e acho um pouco cômico a lista que me veio (ou pelo menos parte dela): Vira-lata, Sarnento, Bicho, Cão, Cachorro, Lobo, Homem. Especialmente se ele é um “Lobisomem”, cada um destes termos pode refletir alguma faceta de Paulo Honório em algum momento no livro. Aí tem outro trecho que faz essa comparação (apesar de dentro do contexto dar foco a comparação ao machado):

    “No caso de Paulo Honório, e da sua perspectiva sobre a própria história, a luta encarniçada que começa entre os de baixo lembra os cachorros observados por Brás Cubas, brigando até a morte por um osso. Não creio ser exagerada a imagem se considerarmos seu modo de encarar a luta social como disputa acirrada e sem limites, em que o cálculo e o irracionalismo são os sucedâneos do discernimento. Mas depois de ascender e de trair sua classe de origem, reproduzindo os mecanismos de opressão social, Paulo Honório não será mais apenas aquele que empilhou ossos, e sim o lobo, de cuja fome, enigmaticamente, nem ele próprio escapará no final.” (esse trecho tá logo na transição do cápitulo, na pág. 79, ou 11 no pdf)

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