ATIVIDADE MODERNISMO – 19/08

Na aula de hoje, leremos o texto de Ferreira Gullart intitulado “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”. O objetivo de leitura é compreender de que maneira Gullart percebe a poesia de Augusto dos Anjos no conjunto geral da poesia brasileira. O que há de particular nesse poeta? Além disso, depois da leitura do texto teórico, eu gostaria que vocês relessem o poema que separaram para a aula passada e pensassem de que maneira as reflexões de Gullart mudaram a sua compreensão sobre ele.

14 comentários sobre “ATIVIDADE MODERNISMO – 19/08

  1. O poema escolhido foi “Deus-Verme”. A principio, minha percepção sobre o soneto era de uma abordagem simbolista, devido a forma com que o poeta se relaciona com as diversas formas e atitudes de Deus, como: “Na superabundância ou na miséria,
    Verme – é o seu nome obscuro de batismo.” e no trecho: “Almoça a podridão das drupas agras, Janta hidrópicos, rói vísceras magras”. Augusto dos Anjos caracteriza a figura divina como fúnebre e nefasta, realçando os traços verminosos presentes nas atitudes e trejeitos de Deus. Gullart, em seu texto, reforça a influência do parnasianismo e do simbolismo sob a obra de Augusto dos Anjos, caracterizando-o como um dos “poetas da morte”, por vezes retratando a podridão, os vermes, (como presente especialmente no poema “Deus-Verme”), luto e as superstições. O autor fala sobre a morte e em especial, sobre sua própria morte, mórbida e fétida. Suas inspirações se pautaram em poetas parnasianos, como Olavo Bilac e Euclides da Cunha, em meados dos anos 1900. Tais inspirações renderam a Augusto dos Anjos uma característica na escrita de contínuo martírio, o que possibilita novas interpretações de seus poemas. Após a leitura do texto teórico de Gullart, é possível perceber como o soneto “Deus-Verme” ressalta a impotência humana perante as grandiosidades do universo que a cerca e como o corpo humano é insignificante e comparável aos vermes. Inicialmente visto como um poema que aborda uma temática religiosa, após a leitura do texto de Ferreira Gullart, entende-se que o Deus abordado é o próprio verme, que se incumbe de roer, almoçar e jantar as vísceras, defuntos e a podridão dos corpos, resistindo à passagem do tempo e perpetuando-se eternamente.

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  2. Augusto dos Anjos começou a criar sua expressão poética em um momento da linha do tempo literária brasileira em que o parnasianismo e o simbolismo estavam em alta na poesia, e embora ambas as tendências tenham influenciado o autor, ele não se afiliou de fato a nenhuma delas. Augusto possuía uma visão de mundo completamente diferente daquela que os parnasianos e simbolistas tinham, sendo assim Gullart explica no texto que embora o autor tenha herdado algumas características desses dois estilos, ele as supera. 

    Há em Augusto dos Anjos uma ruptura com a “escrita pela escrita”, com a futilidade literária que predominava a época, ele não escrevia para agradar, embelezando a realidade e romantizando o que não era romanizável, pelo contrário, a realidade era transmitida nua e crua, de formas até mesmo rudes com intuito de não se desprender do vivido e não disfarçar o “feio” com palavras bonitas. Essa particularidade do autor o diferencia de todos os autores da época e o torna, segundo Gullart, o precursor do que viria a ser a poesia brasileira futuramente, Augusto faz com que a poesia passe a falar da vida real, do que é comum. 

    O poema “O martírio do artista” nos permite vislumbrar o que Gullart traz logo no início do texto, quando diz que se por um lado o capitalismo significa progresso, por outro é um agravante da miséria. Augusto viveu isso em primeira mão, quando sua família que descendia de senhores de terras, tendo em posse dois importantes engenhos, acaba perdendo tudo devido às transformações econômicas e sociais pelas quais o Brasil passou por volta de 1900. E provavelmente por ter vivido essa decadência de sua família, o luto e as doenças tão jovem e tão de perto, é que Augusto é tão real e duro em seus escritos, tratando de temas considerados “esquisitos” à época. A arte em dado momento passou a ser uma vertente do mercado de trabalho, o que faz com que o artista, nesse caso o escritor, sinta-se pressionado a escrever, a produzir, ainda que esteja em meio a um bloqueio ou que não consiga exprimir o que deseja em palavras. Minha visão não mudou tanto assim nesse sentido, pois por meio de experiências pessoais tendo muitos amigos que vivem de algum tipo de arte, vejo isso acontecendo com mais frequência do que gostaria, existe tanta cobrança para que se crie algo, para que se esteja sempre produzindo, que por vezes o artista se quer consegue pensar em criar algo pois antes o que era uma paixão acabou se tornando uma atividade laboral na qual não existe mais vontade em exercer, e isso graças ao capitalismo que exige de nós, que estejamos sempre em ação, sempre em movimento, não há descanso. E aquilo que era prazeroso passa a ser sinonimo de pesadelo, como diz Augusto no início do poema: “Arte ingrata!”.

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  3. O poema “Solitário”, de Augusto dos Anjos, é bem sombrio e cheio de uma sensação de solidão. No texto do Ferreira Gullar, “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”, ele explica como a poesia de Augusto dos Anjos é diferente dentro da literatura brasileira.

    Gullar vê Augusto dos Anjos como um poeta único, que mistura temas como a ciência e a morte em sua poesia, trazendo uma visão muito particular da vida, que é ao mesmo tempo existencialista e ligada à sua experiência no Nordeste.

    No poema “Solitário”, essa diferença aparece na maneira como Augusto dos Anjos usa imagens fortes e sombrias para expressar o sentimento de isolamento e angústia. Por exemplo, a comparação do frio com o corte de uma faca em uma carniçaria mostra uma visão bem crua e até violenta da vida. Gullar destaca que essa visão é uma característica do poeta, que vê o corpo e a existência como algo que mais machuca do que conforta.

    Com a leitura do texto de Gullar, percebe-se que o poema “Solitário” não é apenas sobre tristeza e solidão, mas também sobre uma reflexão profunda sobre a vida e a morte, quase como se o poeta estivesse analisando tudo de forma científica. Isso pode mudar a forma como se vê o poema, entendendo que o isolamento do eu lírico é mais do que um sentimento, é uma visão crítica e filosófica da existência.

    Ao reler o poema, penso em como essa perspectiva de Gullar faz a poesia de Augusto dos Anjos parecer mais do que apenas triste, mas também uma forma de questionar a vida e a inevitável decadência do corpo humano.

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  4. O poema escolhido do livro Eu, de Augusto dos Anjos, foi “Vozes da Morte”. Antes da leitura teórica, minha visão sobre o poema era mais resumida ao fato de ser um dos mais simples de entender e conseguir lê-lo sem muitas idas ao dicionário para compreender sua história. Depois de ler o livro ao todo, percebi um fascínio do autor pela morte, no qual é tema da maioria dos seus poemas. Após a leitura do texto de Ferreira Gullart, pude entender a história de Augusto dos Anjos, como o evolucionismo entrou em sua vida e como os autores que o inspiraram estão presentes em sua escrita. 

    No poema escolhido se percebe fragmentos de Haeckel com “a noção da morte como fato material”, que se apresenta em muitos trechos do soneto, já nos primeiros versos “Agora, sim! Vamos morrer, reunidos, / Tamarindo de minha desventura”, e muito de Schopenhauer que influencia na arte de Augusto da ideia de Homem Absoluto com o “aniquilamento da vontade de viver” em “Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! / E a podridão, meu velho! E essa futura / Ultrafatalidade de ossatura, / A que nos acharemos reduzidos!”. 

    Também está presente a visão de sermos mais do que a morte, que somos parte da natureza, “Não morrerão, porém, tuas sementes!”, e que continuaremos existindo de alguma forma como algo maior e conectado com o mundo, o que se apresenta no último terceto “Depois da morte, inda teremos filhos!”.

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  5. O texto teórico de Gullar esclarece as influências que Augusto dos Anjos teve em sua vida para sua obra peculiar e rica, o autor vem de contexto familiar dolorido de muitas perdas ainda pequeno, e também de decadência econômica na sua família e no próprio país. Com muitas mudanças em sua volta, o autor tem estilo melancólico, pessimista, e ao mesmo também muito evolucionista por sua formação acadêmica. Em seus poemas nós deparamos com linguagem cientificista, e com uma reflexão profunda sobre o mistério da nossa existência. Suas obras tem influência dos autores anteriores do pré-modernismo como Olavo Bilac, por isso o parnasianismo e o simbolismo são traços de sua poesia, mas ele se destaca em seu estilo único em usar exemplos vividos da natureza com vulgaridade assim como a verme, o olhar da lagartixa, e termos científico.

                   A poesia do Augusto dos Anjos é fruto da descoberta dolorosa do mundo real, no poema “Debaixo do Tamarindo”, o eu lírico lembra o tempo que sentava com seu pai de baixo da árvore e ali  guardavam memória, Augusto tem nostalgia desse tempo e cita o carvalho que fazia parte da fazenda de sua família assim como de seu sobrenome. Ele faz simbiose entre a natureza e o ciclo da vida usando os dois estranhos termos “inexorabilíssimo” e “paleontologia”. Mesmo compreendendo que a morte um ciclo normal da vida, depois de sua morte ele deseja que sua alma se juntará a sombra do tamarindo e ficará lá eternamente, aqui ele tem um pensamento místico  e talvez acha que a alma do seu pai habita no mesmo lugar.

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  6. “A um carneiro morto” é um poema carregado de simbologias, traço herdado do simbolismo por Augusto dos Anjos, segundo Ferreira Gullart. Expressões como “Misericordíosissimo”, “maldição de Pio Décimo”, “tua lã aquece o mundo inteiro”, “Teus olhos – fonte de perdão”, “Perdão” (iniciado por maiúscula) e “Dia do Juízo” remetem a simbologia do carneiro na fé cristã: sacrifício sagrado, devoção e perdão. Além disso, o tema pode até ser considerado “antipoético”, desagradável, já que aproxima a linguagem da experiência concreta, nesse caso: a morte de um carneiro. Isso pode ser comprovado com os seguintes versos: “Quando a faca rangeu no teu pescoço,/Ao monstro que espremeu teu sangue grosso/Teus olhos – fonte de perdão – perdoaram!”.
    Embora haja uma preocupação estética (com a forma) do autor: versos decassílabos, rimas interpoladas e paralelas, etc., uma característica marcante do soneto é sua linguagem viva com verbos no modo imperativo, exclamações e presença do prosaico.
    Talvez, o poema também possa ser interpretado como uma critica a cultura cristã de sacrificar o carneiro, já que em muitas passagens bíblicas , o carneiro é requerido, até mesmo por Deus, como forma de oferenda. Porém, lendo com maior atenção, a critica dele parece ser direcionada aos que vendem sua carne por dinheiro, já que sua lã “aquece o mundo inteiro”, conforme o segundo quarteto explicita.

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  7. Em seu texto, Gullar fala com atenção sobre a pronfundidade da poesia de Augusto, ressaltando como o autor reflete em suas obras uma visão de mundo marcada pelo sofrimento, angústia, morte com um estilo bem singular influenciado pelo simbolismo. No poema ”O Morcego”, podemos ver essa visão, que carrega para a obra simbolismos que remetem a ao medo, morte e desespero. O animal, nesse poema, não é apenas um animal que causa desconforto, mas também a representação física dos temores profundos do ser humano, um reflexo dos medos e da angústia psícologica do autor.

    Fazendo um reflexão à partir do que foi dito por Gullar, podemos compreender que a obra não deve ser vista apenas como uma expressão do macabro, mas sim como uma reflexão profunda da condição humana, uma reflexão sobre sobre a mortalidade, dos medos que assombram o ser humano e sua angústia existencial.

    Ao fazer a interepretação da obra de Augusto com essa perspectiva, percebemos um novo significado que pode ser dado à ela e inseri-la no contexto social e cultural vivido pelo ator, que ressoa com questões universais parecidas com as passadas por ele. Sua obras, incluindo a escolhida por mim, são uma forma de expressão da experiência humana do medo e da mortalidade, no caso escolhido foi utilizado a imagem de um morcego, um símbolo da presença inevitável da morte, a qual é uma força inescapável.

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  8. No texto “Augusto dos anjos ou Vida e Morte Nordestina” Ferreira Gullart percebe a obra de Augusto dos Anjos como uma expressão singular da realidade nordestina, visto que o poeta viveu uma vida de decadência, doença e luto e também foi marcado pelas transformações sociais e políticas do Nordeste, impactando assim, na sua forma de ver o mundo. Segundo Gullart, Augusto dos Anjos rompeu com as convenções da época, sua poesia é caracterizada por um vocabulário inovador, com um tom sombrio, ao trazer os aspectos brutais da vida. Os temas de morte e sofrimento refletem a sua visão pessimista e existencialista, visto que o autor enxerga a morte como um fato material e a vida como um processo químico.

    O poema escolhido do livro de Augusto do Anjos foi ”A um carneiro morto”. Esse titulo chamou muito a minha atenção pela curiosidade em saber o que o carneiro irá representar para o autor. Em primeiro momento, achei o poema bem impactante. Nele o autor traz a figura do cordeiro e o que ele representa. Algumas palavras utilizadas no poema são por vezes, desconfortáveis ”Ao monstro que espremeu teu sangue grosso”. Há no poema uma certa ironia. Enquanto carneiro perdoa, o sistema que o explora ”Que te vender as carnes por dinheiro” permanece impune e sem entender a verdadeira compreensão do perdão. Através de alguns versos, também é possível notar como o perdão é utilizado como justiça moral, sem refletir a realidade de quem concede e o recebe .

    Oh! tu que no Perdão eu symboliso,
    Si fosses Deus, no Dia de Juizo,
    Talvez perdoasses os que te mataram!

    De modo geral, através da leitura do texto teórico de Gullart, a compreensão do simbolismo na poesia de Augusto dos Anjos fica ainda mais evidente. É possível notar as suas crítica a religiosidade e ao materialismo . Gullart oferece uma visão mais ampla das intenções de Augusto dos Anjos com sua poesia que impactou diretamente no estilo de escrita da época.

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  9. O poeta Augusto dos Anjos e seus poemas são resultados do tempo que viveu, dos espaços em que esteve e dos acontecimentos que sofreu nos poucos 30 anos de vida que teve. Logo no começo do texto, Ferreira Gullart traz o contexto de vida do paraibano e como ela foi afetada pelas mortes de parentes próximos e principalmente pela mudança econômica que o país passava no final do século XIX. A família de Augusto era dona de engenhos de açúcar e viu a chegada da indústria no Brasil como o fim de uma vida abastada, saindo de donos de duas propriedades grandes para uma casa na Rua Direita, na cidade.

    Na faculdade de Direito, Augusto teve contato com vários filósofos e pensadores que mudaram sua forma de pensar e principalmente de ver o mundo e toda a sua situação, assim ele começou a usar termos extremamente cientificistas, começa a ver a morte como processo químico e assim se torna um poeta sem uma definição específica em um momento que o Simbolismo e o Parnasianismo dominavam a poesia no país, ele é influenciado por esses dois estilos mas em nenhum momento se colocou neles. Augusto dos Anjos é um poeta único nesse contexto que Ferreira vai apresentando no texto, ele tem sua linguagem própria, ele tem sua escrita própria e sua estrutura própria.

    Para a escolha do poema eu fiquei entre dois poemas: “Asa de Corvo” e “Uma Noite no Cairo”. Semana passada eu teria falado do segundo poema, o principal que me chamou a atenção para ele é como a construção do ambiente foi feita, como o poeta foi montando esse local, com a presença de letras maiúsculas no meio dos versos, temos a impressão de todos esses objetos terem vida própria e Ferreira mostra que eles fez isso outras vezes e no texto traz o exemplo da lagartixa e os muros velhos do Nordeste.

    Hoje eu penso mais no primeiro poema que citei. Ao saber do contexto de vida de Augusto, que viveu com a presença da morte, do luto, da decadência da sua riqueza a ideia do Corvo encaixa em tudo isso, pesquisando o Simbolismo dessa ave temos: a escuridão, a morte, a solidão, o azar e o mau presságio. E vemos que o eu lirico se coloca muito próximo ao bicho “(…)É meu Destino viver junto a essa asa,(…)”. Na primeira estrofe ele cita esse mau agouro que cobre o telhado da casa e mostra a desilusão com toda a situação financeira e termina com, na última estrofe trazendo a Morte como uma costureira funerária (que é colocada por ele com várias outras funções em outros poemas) e aqui faz uma última camisa para o homem.

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  10. A partir da leitura de Gullart sobre que Augusto do Anjos, pode perceber várias características singulares. Por exemplo a discussão sobre o EU e todo o sofrimento do mundo em que ele está presente, por isso que muitas vezes há imagens chocantes em relação ao eu, pois antes de AA poucos foram os que ousaram escrver sobre a natureza humana de forma tão crua. Além disso, os versos tensos, aliteraçao presente e o um olhar para além de observador mas de experiencia, de vivência. O que traz originalidade para AA segundo Ferreira Gullart é a necessidade não se prender ao vivido e não disfarça-lo com delicadezas. No poema “Budimo moderno” além de algumas características já citadas, podemos notar algo que está presente em muitos dos seus poemas: a noção da morte como fato material da vida. Importante destacar também o grande uso de palavras-símbolo, com maiúscula.

    Gabriela de Campos

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  11. O texto “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”, de Ferreira Gullart, contextualiza a produção de Augusto dos Anjos e traz a realidade histórica em que o poeta estava inserido. O nordeste brasileiro passava por uma crise latifundiária ocasionada pelas mudanças econômicas da época. Augusto dos Anjos, além dos problemas financeiros com a família, também tinha o pai doente e acamado. Devido a estes problemas, é possível observar que a linguagem de Augusto tem amostras de angústia, melancolia e sofrimento.

    É o que nota-se no poema “Psicologia de um vencido”, escolhido por mim, no seguinte verso:

    “Eu, filho de carbono e do amoníaco, Monstro da escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênese da infância, A influência má dos signos do Zodíaco”.

    Neste poema, além da perspectiva profunda e intensa em relação à visão de mundo do eu lírico, também é possível ver influências de conceitos como o evolucionismo e cientificismo presentes na época, em determinadas palavras como “hipocondríaco” e “cardíaco”.

    O texto de Ferreira contribuiu para um melhor entendimento do pensamento de Augusto dos Anjos, principalmente da sua relação com a morte, tão presente em alguns poemas.

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  12. A partir da leitura do texto teórico é possível esclarecer a poesia de Augusto dos Anjos. Logo no início da obra Ferreira Gullar trata de aspectos pessoais do autor, expondo questões relacionadas a infância e adolescência a do poeta, ambas trágicas e repletas de perdas, sejam elas materiais ou não. A relação com a morte, a falta e praticidade e distanciamento está presente desde antes de seu primeiro contato com o ambiente universitário ou com as referências filosóficas, no entendo a tecnicidade foi mais aprofundado a partir de estudos e aperfeiçoamento. No poema “vozes da morte” é possível compreender a proximidade que o autor tem com a temática fúnebre, não coberta de dor e lastimas mas sim de uma forma quase íntima e passiva em um diálogo com quem parece ser um amigo próximo, com o qual ele quase aparenta comemorar o fato de passarem por esse momento unidos. É possível reconhecer o uso de termos científicos, característica que ainda permeava a literatura brasileira e bastante presente nas obras do autor, assim como o materialismo, que se exemplifica nos versos “Tu, com o envelhecimento da nervura
    Eu, com o envelhecimento dos tecidos!” ou “E a podridão, meu velho! E essa futura
    Ultrafatalidade de ossatura,” nos quais a morte, como dito por Gullar, a morte é reduzida a um fato material ou processo químico.

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  13. Antes da leitura de Ferreira Gullar acerca de Augusto dos Anjos, minha percepção sobre o poeta era, apenas, a de que Augusto, bem como Fernando Pessoa e outros poetas, eram pessoas tristes por saberem demais, e que tentavam, por meio de sua poesia, liberar toda essa tristeza. Ainda tenho o mesmo pensamento, porém, com um adicional: Gullar deu-me as causas e explicações para tal angústia, mostrando, também, que há um labor, uma nova produção no meio de todo o pessimismo e melancolia de Augusto dos Anjos.  

    Em Eterna Mágoa, vemos as duas partes do poeta: a filosófica e a científica. Um eu-lírico doente de tristeza, que não escapa desse mal do mundo e, para além disso, descrente de tudo – vejamos o niilismo. 

    ‘‘Não crê em nada, pois, nada há que traga 
    Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.’’ 

    Ao final, percebe-se o cientificismo. Não há reino dos céus, apenas o duro e simples retorno ao pó; para de baixo da terra, na companhia dos vermes.  

    ‘‘Transpõe a vida do seu corpo inerme; 
    E quando esse homem se transforma em verme 
    É essa mágoa que o acompanha ainda!’’ 

    Ferreira Gullar nos aponta um poeta que não fazia parnasianismo e nem simbolismo; e que, apesar das coisas penderem para outro lado, Augusto se consagraria como um poeta pré-modernista. ‘‘A poesia que pode ser compreendida e sentida como a de um contemporâneo’’ (Gullar, 2016). Em 1904, em Pau d’Arco, na Paraíba, Augusto dos Anjos já nos escrevia de uma tal mágoa, a eterna mágoa, esse mal do século XXI.  

    Não só sobre isso se vale o poeta – a filosofia e o cientificismo -, e sim sobre o seu trabalho para com a língua e a literatura brasileira do século XX e XXI. Gullar nos fala de como Augusto consegue conduzir a expressão verbal; uma capacidade incrível de pegar questões filosóficas e científicas em voga e transformar em matéria poética. 
     

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  14. De primeiro momento meu poema escolhido foi “Morcego”, pelo fato de, de alguma forma, assemelhar-se ao “Corvo” de Edgar Allan Poe (sendo uma das minhas últimas leituras, a sua obra). Tal qual o corvo, um morcego é uma ave noturna, preta e que traz uma simbologia curiosa de mau agouro. De acordo com Gullar Augusto dos Anjos rompe com uma visão meramente “literária” da poesia, porque expressa a realidade banal e bruta, descobre e nos mostra de forma dolorosa o mundo real, afinal, era o mundo que o cercava diante da miséria nordestina. Em “O morcego” a realidade, ou a Consciência Humana, o cerca sob a forma de um morcego que adentra seu quarto e o assombra, característica que ressalta Gulllar em seu texto no momento em que explica que “observamos que a utilização dos fatos comuns e das coisas materiais para exprimir sentimentos e ideias é uma das características da poesia moderna.” reforçando seu ponto de vista anteriormente já mencionado na página 26 o qual explora o fato de que Augusto dos Anjos possui uma complexidade na condução da expressão verbal, assim como a ruptura com a concepção literária acadêmica, situando-o como precursor da poesia surgida no Brasil após o movimento de 1922.

    Me chamou muito a atenção também o poema “Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos” uma vez que evidencia uma dor imensurável e que reflete o âmago da tristeza de uma família que passa por uma situação como essa. É mais uma vez a realidade impactante escancarada em detrimento à delicadeza poética. A riqueza na expressão verbal também é expressa neste poema e ao mesmo tempo um questionamento sobre o existencialismo humano. Essa descida ao inferno, que a ele não é possível ignorar, para uma redenção da poesia é um traço marcante e fantástico em sua escrita “gótica” e “teatral”, como propõe Gullar.

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