4º semestre – Contos Machado + texto Bosi

Alunos. Seguem um link para a obra do Machado. Nele vocês encontrarão todos os contos que leremos:

CONTOS 

Miss Dollar

A parasita azul

O alienista

A teoria do Medalhão

O segredo do bonzo

A sereníssima república

O espelho

A igreja do diabo

Segue abaixo o texto do Bosi que estudaremos juntos:

bosi-o-enigma-do-olhar

 

35 comentários sobre “4º semestre – Contos Machado + texto Bosi

  1. The path of the righteous man is beset on all sides
    By the inequities of the selfish and the tyranny of evil men.
    Blessed is he who, in the name of charity and good will,
    Shepherds the weak through the valley of darkness,
    For he is truly his brother’s keeper and the finder of lost children.
    And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger
    Those who attempt to poison and destroy my brothers.
    And you will know my name is the Lord when I lay my vengeance upon thee.

    Samuel L. Jackson. Ezekiel 25:17. In: TARANTINO, Quentin. Pulp Fiction, 1995.
    .
    .
    .
    Até quando julgareis injustamente,
    sustentado a causa dos ímpios?

    Salmo 82
    .
    .
    .
    D’autres fois, calme plat, grand miroir
    De mon désespoir.

    BAUDELAIRE
    .
    .
    .
    Alfredo Bosi nos exibe, a partir de analises profundas, uma galeria de contos em um móbile, onde os eixos são direcionados a passagem de uma moral a outra, em um movimento “machadianamente pendular: sim e não”, com todo o processo de adaptações que ela implica: “como alguém que já tenha cruzado a ponte que conduz à margem da segurança, mas ainda carrega consigo, em algum canto escuso da memória, os fantasmas da outra margem”, em uma tentativa de definir a fixação segura da máscara por meio de uma dicotomia: a face social e a face humana. Ao longo das análises fica claro que a face social é a face humana, em uma terra dividida entre cínicos e marginais — por vezes loucos — onde a escravidão é incorporada ao discurso social e na linguagem cotidiana.

    A ambiguidade da obra de Machado permite ver o mundo por uma ótica de flashes que se transpassam. Atento a expansão das novas relações econômicas e sociais, Machado procurou entender a mecânica dos homens e seu conflito. Assim, as narrativas desempenham um papel expiatório do compartimento mais íntimo do sujeito que é filho de uma sociedade em que a violência da colonização, o massacre dos índios, a torpeza da escravidão e de sua herança maldita — jamais encarada para valer — nos legaram um país com desigualdade de pesadelo e relações sociais perversas: “a pintura dos caracteres compõe zonas de luz e zonas de sombra; e o processo naturalmente simplifica-se quando pende para um dos extremos”, tendo em vista que o antagonismo não esgota as fronteiras do limite e que “há uma guerra de todos contra todos, que percorre os elos de ponta a ponta”, o particular emerge como uma estrutura da vida social, da maneira como as instituições são construídas.

    Desse modo, a máscara se traduz nas diversas situações em que as personagens dos seus textos retratam as exigências das convenções sociais, às quais os homens submetem-se numa tentativa de sobreviver e deixar para trás a miséria, a humilhação e a obscuridade. A fenda a que se refere, é o viés por onde se vislumbra o outro lado da sociedade, o outro lado da verdade que a máscara que precisamos usar não nos permite conhecer. O uso do humor, também é um traço que permeia a estrutura narrativa, exibindo a dualidade: interior, exterior; porem, “o tom é subterrâneo e por isso a sua violência contém-se, abafa-se”, inoculando veios que emergem como ideias fora do lugar.

    O que fica, é que Machado de Assis — por meio de suas narrativas — nos ensina a importância da noção de alteridade; aquela que não nos faz virar outro, mas nos permite, ao entender o outro, desconfiar de nós mesmos. Em uma sociedade apavorada por sentir dores próprias da condição humana, Machado mostra-nos que o problema — se podemos chamar alguma coisa de problema — dos sujeitos nunca é a descoberta de seu lado obscuro — isso temos todos e é o que nos faz humanos –, mas a forma como assumimos esse lado ou o imputamos aos outros. Esse é o processo incontornável de uma análise, que dá condições para que algo novo advenha.

    Curtir

  2. De acordo com Bosi, no texto “Do lado do sujeito: o enigma”, Machado de Assis, em seus contos-teoria, aborda a inconsistência do sujeito e o modo como a máscara social é capaz de sobrepor a face humana a ponto de absorve-la, apagá-la. Como exemplo, ele insere o conto “O espelho” para retratar essa inconsistência, que seria representada pelo reflexo opaco de Jacobina no espelho, uma vez que ele apenas consegue enxergar a si mesmo vestindo sua farda. Ou seja, fora de seu papel social, sua alma é inexistente.
    Por isso, conclui-se que tudo aquilo o que se apresenta como inútil à mantença de uma máscara, pode ser descartado ou modificado, assim como os sentimentos inicialmente intensos de D. Benedita, que se transformam mais tarde em indiferença.
    É importante ressaltar, também, que essa máscara necessita de um apoio, uma consistência. Portanto, o que a mantém são estímulos de fora, que provocam a sensação de satisfação pessoal que, por sua vez, provêm de uma sociedade carregada de interesses.
    Se cada pessoa é movida apenas por vaidade, interesses e prazeres (que compõem a máscara social), o que há por trás da máscara, o que é próprio de cada ser, será sempre um enigma, pois o ser humano não alcança sua pessoalidade, ou por conta de sua vaidade ou por ser impotente.
    Essa vaidade, então, sem um propósito real, geraria uma espécie de competição que faz com que se destaque a desigualdade de dotes e dons entre os homens. O sentimento da inveja, por exemplo, surge em Nicolau como uma forma de compensar essa injustiça, que produziria “loucos e marginais”, punindo assim os superiores e tendo afeição pelos “antipáticos”.
    Colocando, dessa maneira, tal desigualdade como algo natural, nota-se que a sociedade acaba por refleti-la, uma vez que o social é totalmente construído. Com isso, a luta pelo dinheiro e pelo status, assuntos tão abordados por Machado, seriam uma “segunda natureza”, que faz com que as pessoas ajam por meio da lei do mais forte.
    Esse desejo de ascensão social, por sua vez, se realiza graças à apropriação do outro, tanto nas ações quanto nas palavras, como mostra bem o conto “Evolução”, que começa tendo o discurso de “tu”, passando para “nós” e logo para “eu”. Todas essas ações cruéis, portanto, já não são naturais: são sociais, construídas socialmente e reproduzidas pelos indivíduos. Percebe-se, então, que natureza e sociedade se unem em um mesmo ser e até em uma mesma expressão: “cálculos da vida”. E não há nada mais cruel do que a posse absoluta do outro: nos contos “O caso da vara” e “Pai contra mãe”, Machado tematiza a escravidão, e mostra que o bem-estar de um funda-se na desgraça do outro (por exemplo, quando Candinho resolve seu impasse escolhendo capturar a mãe escrava fugida, Arminda, para que pudesse receber a gratificação e ficar com o filho, mesmo anteriormente já tendo optado por largá-lo).
    Por fim, questiona-se se Machado de Assis teria consciência crítica desse processo que representava, e a resposta de Alfredo Bosi foi que ele possuía dois níveis de consciência: o primeiro de extração ideológica, no qual ele apenas via passado e presente; e o segundo de extração contra-ideológica, no qual ele tenta esconder o seu “não-conformismo”.

    Curtir

  3. Alfredo Bosi retrata em sua obra crítica as facetas duais (real x social) que Machado de Assis aponta em seus “contos teorias”. Discute-se a preocupação da sociedade quanto à aparência e posição social, questão esta que Bosi, metaforicamente, coloca como “máscara social”.

    A “máscara” a que Bosi se refere é evidente no conto “A Teoria do Medalhão”. Este conto baseia-se num diálogo entre pai e filho a respeito da teoria do comportamento ideal para conquistar o sucesso e a aceitação social. Propõe-se limites, costumes, hábitos e ignorância para se atingir o desejável status. Nota-se, portanto, que essa “educação” que o pai oferece ao filho é hereditária, comportando, desta forma, uma sociedade viva de limitações, exigências e estereótipos que ela mesma reproduz.

    O mesmo ocorre no conto “O espelho”, em que o crítico também analisa as entrelinhas de Machado. Bosi aponta a “máscara social” como uma vestimenta tão poderosa no que diz respeito à ilusão que o próprio sujeito que a veste se convence de ser o que sua aparência indica. Essa conclusão é perceptível através da construção da própria narrativa, uma vez que o conto se inicia com a marcação de 3° pessoa, ou seja, o narrador onisciente expõe as exigências superficiais a que a personagem Jacobino deseja alcançar, e após convencer e fundir o leitor que a roupa, aparência e personalidade é efetivada no corpo do protagonista, a narração se desenvolve em 1° pessoa, indicando um narrador-personagem (Alferes); revelando o poder de persuasão que a “máscara social” atinge e é coercivo.

    É diante dessas análises que o autor (Alfredo Bosi) aponta sua teoria a respeito da Escola a que Machado melhor se inclui, e parte da conclusão que é no Realismo que as obras machadianas se comportam, uma vez que apresentam críticas sociais e desconstruídas a respeito do homem diante de suas imperfeições e dificuldades. Outra característica que Alfredo observa no autor Realista é do seu desapego ao “natural”; Machado, de fato, quebra a ordem natural de sobrevivência e a cronologia dos fatos. Memórias Póstumas de Brás Cubas é um exemplo da desnaturalização a que se refere Bosi, dado que a os fatos são narrados pelo narrador-personagem defunto que se dedica a contar suas memórias enquanto em vida.

    Em suma, Machado de Assis exibe – de maneira assustadoramente atual – a problemática do homem enquanto o desejo de corpo sem alma; aparência sem essência e sabedoria sem conhecimento. É através dessas antíteses e máscaras que a sociedade se esconde e que poucos reconhecem; sendo Machado uma das maiores figuras atuais que a Literatura já teve, justamente por tal percepção rara e sensível.

    Curtir

  4. O crítico literário Alfredo Bosi, seleciona alguns contos nos quais o Machado de Assis coloca em jogo a fixação segura de uma máscara, a qual é a adoção de uma identidade que supre as exigências das convenções sociais, tornando o caminho do convívio com a sociedade algo simples e que o deixa em pura ordem. Somente essa nova face ideal do homem é mostrada, o novo eu mascarado se difunde com o real, sendo a verdadeira face um grande enigma, de vaidades, ciúmes, medos, um abismo que ninguém conhece e nem se atreve em entrar. Os sentimentos, apesar de alguns serem indispensáveis, se tornam algo raso, no qual se movem de acordo com a vontade, já a essência de cada um só é encontrada na necessidade social, e é essa vontade que emerge o instinto humano, o qual persegue o prazer e o interesse.
    O sujeito não abandona essa máscara por vaidade ou pela crença na impotência, mas afinal quem se mostra verdadeiro diante a uma coletividade que oprime as diferenças? Bosi afirma que a natureza parece não ser nem mais justa, nem mais igualitária que a sociedade. Aqueles que tentam encontrar a identidade própria, ou seja são diferentes, são conhecidos como marginais ou loucos, o ideal é fixar essa máscara social mesmo criando por meio dela cínicos e traidores. A grande questão, e a marca mais realista de Machado de Assis, é que toda essa complexidade da sociedade não é percebida, ou seja, os indivíduos não sabiam que estavam nessa desigualdade, agem por puro instinto, e demonstram essa moral burguesa, que vença o mais forte.
    O interesse não abandona o homem, e o capitalismo impulsiona cada vez mais o desejo pelo status e dinheiro, a vaidade só existe por meio das diferenças sociais, cuja qual gera a construção que obriga o fracasso de alguns, ou da maioria. Portanto, a mentira rodeia as narrativas de Machado de Assis, causando uma ambiguidade sobre a verdade e a mentira, tomamos por exemplo a personagem Capitu, a verdade da sua história é um grande mistério. A palavra é o grande ponto chave, o objeto que abre a possibilidade de outra visão, ou seja, abre-se uma fenda por onde vemos o outro lado da sociedade que a máscara cega. Nos contos, o homem não toma uma atitude tipo padronizada, e essa atitude que o distingue da natureza, e ao construir um homem gentil nos faz pensar no fatalismo, misturando a sinceridade e o engano, esses feitos acontecem por meio do ponto chave, a palavra.
    Os contos de Assis, envolvem a ambiguidade e a contradição do sim e do não, o ideológico e o contra ideológico caminham em uma criação crítica do processo, lembrando que o uso do humor, em parte, permite essa dualidade interior. Para alcançar um bom status envolve toda a sociedade, a apropriação do outro é também uma maneira de conquistar a glória, o que promove a desnaturalização da desigualdade. Manter a posse do outro é uma maneira de garantir o poder, e mesmo que dos dois lados existam conflitos parecidos o melhor vencerá, “o bem-estar de uns parece fundar-se na desgraça de outros ”.

    Curtir

  5. Do lado do sujeito: um enigma
    A ideia primária de um enigma é algo a ser decifrado, explicado, descoberto, desvelado…
    Alfredo Bosi já havia citado anteriormente sobre a dupla natureza do ser humano, uma natural e outra não natural, uma biológica e outra social. Bosi então oferece um conjunto teórico-prático para uma das possíveis leitura que podem ser feitas sobre o autor e a obra de Machado de Assis, ele traça um caminho gradativo entre os contos-teoria em diferentes fases. Em uma época de profundas transformações que consequentemente influenciariam a literatura, há um questionamento do paradigmas e Machado de Assis é um precursor do que está a irromper, ele, partindo dos modelos já estabelecidos e dos questionamentos dos modelos Românticos, inicia uma transição e enquanto cria uma nova teoria, um laboratório de experimentação, um pós-romantismo seguido de um realismo, do subjetivo para o objetivo.
    Machado de Assis desnuda e desvela o homem e sua realidade e para isso utiliza das mais diversas formas que a época oferecia, a religião, o desenvolvimento das ciências, as teorias sociológicas, evolução, determinismo entre outras. Machado usa de dicotomias maiores que se dividem em outras menores enquanto dialogam entre si e assim vai compondo uma galeria de personagens entre terceira e primeira pessoa, e os quais fazem interlocução com o exterior, no extratexto, por exemplo o leitor. Machado usa dos sentimentos e emoções para explicar o homem e sua relação com o meio em que está inserido, o homem dotado de razão é o único animal capaz de abstrair-se, de construir, descontruir, de transformar e de criar realidades, e para isso utiliza de um arcabouço de ferramentas, de signos e símbolos, e este plural é porque em cada indivíduo há uma realidade e o autor apresenta a sua, por intermédio da ótica e da narrativa de seus personagens. Machado desenvolve um novo estilo, rompe paradigmas e estabelece e reconhece, fixa o Realismo. Os contos-teoria de Machado foram e são um laboratório, uma experimentação consciente, assim como vem a ser este texto, este subcapitulo de Alfredo Bosi, o qual apresenta e oferece uma chave de leitura de autor e obra, de Machado de Assis e sua atemporalidade.

    Curtir

  6. Letícia Maria de Moraes Ferreira, 4º semestre de Letras – Noturno.
    Resumo e comentário “Do lado do sujeito: o enigma”.
    Essa parte do texto começa falando sobre uma certeza machadiana que introduz a dubiedade e a veleidade na máscara social. O conto “O espelho” consegue mostrar nitidamente que a fixação da máscara usa principalmente a impotência para se estabelecer, ou seja o personagem só é completo quando usa a máscara para se impor na sociedade. Esse conto usa o narrador que analisa e expõe as sensações da personagem, a qual é marcada pela máscara social e a assume como sua identidade.
    A construção dos contos-teoria, termo que Bosi usa para caracterizar contos que retratem algo sobre a sociedade, permite notar a inveja com um sentimento que percebe a desigualdade social e notar o desejo que se tem de reparar e recompensar essa desigualdade, ou seja, a inveja é usada como uma maneira de se lidar com a desigualdade, muitas vezes social, apresentadas como ponto central no texto. A construção explicada acima é percebida principalmente no conto “Verba testamentária”. Tem-se também a natureza e a sociedade com instituições não igualitárias, nas quais a sociedade reproduz uma desigualdade natural, ou seja, criada pela natureza. Portanto, a inveja entra como um desejo de compensar essa desigualdade como um senso de justiça reparadora.
    Porém, ao longo das narrativas, Machado começa a mudar os rumos da centralidade dos textos, passa a mostrar a luta pelo dinheiro e pelo status, que Bosi usa o termo de “segunda natureza” para desenvolver esse naturalismo da sociedade em relação ao poder. Essa busca da posse passa a apresentar a desigualdade como uma construção social e, não mais, como algo natural que a sociedade reproduz, ou seja, a desigualdade passa a ser representada como produto da construção social.
    A consciência crítica apresentada por Machado passa por dois níveis em suas obras. O primeiro é o nível ideológico, o qual deixa de representar a evolução como linha reta e permite que o tempo e a história mostrem o ciclo, é um progresso burguês. O segundo nível é o contra ideológico, o qual só pode ser notada nos textos quando Machado tenta escondê-lo, um dos principais modos de perceber é reconhecer o pseudoconformismo, o qual trata com conformismo a normalidade burguesa.
    Bosi termina o texto com a seguinte frase: “A perspectiva de Machado é a da contradição que se despista, o terrorista que se finge de diplomata. É preciso olhar para a máscara e para o fundo dos olhos que o corte da máscara permite ás vezes entrever”. Essa frase resume o modo de funcionamento da máscara social e a própria narrativa nos permite chaves de leitura para ver entre essas máscaras, ou seja, ver pontos da realidade que se deseja retratar.

    Curtir

  7. Em seu capítulo teórico, Bosi analisa a dualidade presente na essência dos personagens machadianos, dividindo-a em face pública e face íntima, e também analisa as relações que as constroem. Por exemplo, no conto “O Espelho”, no qual o personagem Jacobina perde seu reflexo ao tirar a farda, e no espelho, há apenas um rastro negro ilustrando a exposição da persona íntima em fator da descaraterização do que sustentava sua face pública. Ou seja, a farda representava imponência, o poder, a bravura (face pública), e quando a personagem a retira se vê solitária, assustada e vulnerável (face íntima). Podemos ver essa mesma “máscara” no conto O medalhão; Na obra “Memórias Póstumas de Bras Cuba” e diversas outras.
    Bosi disserta sobre como essa bifurcação reflete nos conflitos sociais no qual Machado viveu. As pessoas escondiam seus aspectos obscuros e criavam uma persona social, livre de todos esses mesmos aspectos, de forma que fosse o completo oposto daquilo que verdadeiramente era. A analogia feita por Bosi, no caso a fenda, revela como essa tentativa possuía suas falhas, uma vez que, se observado de perto, através dessas fendas é possível reconhecer a face íntima. O texto também afirma que uma face existe em função da outra, dado que a face pública só existe para esconder a face íntima, e a face íntima não seria íntima se fosse a única existente – criando um paradoxo.

    Curtir

  8. Alfredo Bosi, nos mostra em “Do lado do sujeito: o enigma”, as duas faces (real e social) presentes nos personagens machadianos. Uma das faces consiste em esconder a verdadeira personalidade da personagem e mostrar o que a sociedade espera dela, servindo como uma máscara social com o intuito de esconder falhar humanas que são dadas como imorais ou que faz alguém parecer ter um ponto fraco. A face real, nada mais é a realidade daquela personagem, com medo, inveja, insegurança, egocentrismo, etc. Vemos essas duas faces nos contos “O Espelho” e em “A Teoria do Medalhão.”

    No conto “O Espelho”, Bosi aponta para a máscara social da personagem, que vem de uma narrativa em 3° pessoa e passa para a 1° pessoa, usando a estratégia do narrador-personagem para persuadir o leitor. A máscara é usada na persuasão, onde o narrador-personagem nos mostra apenas sua faceta social a tornando tão real, que quase fica imperceptível a face real.

    Já em “A Teoria do Medalhão”, que retrata um diálogo entre pai e filho, a máscara social fica evidente na fala do pai, onde ele instrui o filho a seguir as convenções sociais, para alcançar a vida confortável, com sucesso e respeito da sociedade. Vemos que essa máscara será passada de forma hereditária, com instruções para manter-se ignorante afim de manter o status quo desejado.

    Com a análise das facetas das personagens de Machado, Bosi chega a conclusão que elas que fazem Machado se encaixar na Escola Literária Realista, pois assim mostra todas as camadas da sociedade, colocando também a moral em jogo, de forma nua e crua. Vemos tal apontamentos em “Pai contra a mãe” e “O caso da vara”, onde homens brancos se vêem em um impasse, ter piedade e ajudar duas escravas ou colocar seus objetivos pessoais na frente, no fim eles se escolhem. Em “Pai contra mãe” Candinho escolhe ficar com seu filho e o prestígio de conseguir capturar uma escrava fugida a tempos, mesmo ela estando grávida, já em “Caso da vara”, Damião começa falando em proteger a escrava Lucrécia, de Sinhá Rita, no entanto, conforme o conto se desenvolve, o protagonista vê que Sinhá Rita é sua única salvação do seminário, deixando assim, Lucrécia receber os castigos de sua senhora.

    Machado de Assis é um dos maiores literatos da literatura brasileira exatamente por sua escrita e construção ds personagens e sociedade, mostrando-nos todas as problemáticas, com o equilíbrio entre o humor e a dureza da sociedade.

    Curtir

  9. Alfredo Bosi em “A máscara e a fenda” analisa de forma inteligente uma série de contos de Machado de Assis, por meio da veia social dos mesmos. O nome do capítulo apresenta aos leitores dois conceitos desenvolvidos por Bosi que fundamentam e sustentam sua análise; a máscara é explicada como uma vestimenta que permite que o indivíduo se adeque às convenções sociais e seja aceito pelo meio socialmente favorecido. Essas adequações ocorrem, principalmente, pela fala – ou falta dela: em silêncios e concordâncias oportunas, e posicionamentos que não gerem “olhares tortos” por parte da sociedade; as pessoas lançariam mão dessa máscara a fim de sobreviverem e livrarem-se de uma vida miserável. A fenda, contrapondo à máscara, é o canal que Machado encontra para apresentar o outro lado da sociedade, o qual abre margem para problematização e é inacessível e incompreensível quando se veste a máscara.
    Nos chamados “Contos-teoria”, é possível visualizar a máscara de forma precisa; “Teoria do Medalhão”, por exemplo, é um manual para o uso desse artifício. Um pai aconselha seu filho de que o sucesso na vida só virá se ele tornar-se um medalhão, ou seja, algo que se destaca e chama atenção; entretanto, para alcançar tal destaque (status social), os comportamentos devem ser sutis, de acordo com o senso comum e favoráveis à ambientação num ambiente elitista. É interessante perceber como o próprio Machado de Assis utilizou-se da dupla máscara e fenda em sua vida: a fim de ascender socialmente, começou escrevendo obras que agradassem a elite da época, e, uma vez inserido nesse meio, encontrou fendas por meio de suas obras consideradas realistas.
    Outro grande artifício machadiano, apontado por Bosi, foi o proposto no capítulo “Do lado do sujeito: o enigma”: a presença de duas faces – social e real – nas personagens. A faceta social é aquela que procura maquiar a verdadeira essência e personalidade do ser em prol de uma aparência esperada pela sociedade, ou seja, que não apresentam fraquezas ou aspectos que possam ser considerados imorais perante a sociedade, enquanto que a faceta real é aquela que pertence de fato ao indivíduo, com todos os medos, anseios e falhas que ele possa ter. No conto “O Espelho”, essa dualidade essência x aparência é colocada à luz inclusive na narração: ela começa em terceira pessoa, numa onisciência, para em determinado momento dar lugar à fala de Jacobina, em primeira pessoa; esse movimento pode ser entendido como a passagem de uma visão da aparência para a essência.
    Bosi afirma, ainda, que Machado de Assis problematiza dois fatores pertencentes ao homem que o impede de encontrar sua essência: a veleidade e a impotência. O primeiro, no contexto, seria a vontade imperfeita, ou seja, é algo que o homem busca, porém não se sabe o motivo aparente, e o segundo seria relacionado ao fracasso do ser quando se fala do modo em que o mesmo quer atingir o que deseja. Por causa desses fatores, a pessoa acaba se submetendo à máscara – aparência – e praticamente torna-se ela.
    Assim sendo, Bosi conclui que, considerando a sensibilidade de Machado em abordar essas antíteses, a escola literária na qual ele melhor se encaixa é o realismo, uma vez que os textos são carregados de críticas sociais cruas sobre o comportamento do homem perante a sociedade e diante de si próprio, mesmo que encobertas por máscaras.

    Curtir

  10. Weslley Borges C. da Silva / 4º Semestre de Letras – Noturno, RA: 10078182.

    Bosi começa o texto falando do conto “Espelho” que seria a matriz de uma certeza Machadiana em relação ao desempenho social a quem usa de uma máscara para se manter na sociedade, como uma pessoa que expõe sua essência que na verdade é a máscara tomando conta. É uma sequência de contos que estão direcionados a passagem de uma moral a outra, sempre com convicções machadianas.
    A personagem leva consigo essa máscara sem o sentimento de arrependimento ou desonestidade. A sua identidade própria é banalizada e criticada, e é com o papel de proteger o indivíduo dessa natureza que a máscara entra em ação, mas como toda boa obra machadiana, é imperceptível para a personagem a problematização (instinto, moral, lei do mais forte) de si mesmo.

    Na sequência de moral que passa de uma a outra, temos “A teoria do Medalhão”, que acontece entre o diálogo entre pai e filho e traz no conto a relação de uma sociedade burguesa, medíocre e arrogante que prega o sucesso a qualquer preço, mesmo à custa do empobrecimento da vida interior e das relações humanas. E é um manual muito bem explicado de como se tornar um “medalhão” (conquistar um destaque social), e realizando uma análise e uma relação não tão distinta, podemos relacionar o método que o pai ensina ao filho, como o método que o próprio Machado de Assis utiliza para ganhar atenção do público escrevendo o que a época queria e em sequência introduzindo suas raízes realistas. Os contos de Machado de Assis, são fundamentados na presença da ambiguidade, contradição do sim do não, do real e irreal, ele usa do humor em boa parte para não aparentar essa dualidade interior. O espaço desses acontecimentos se dá quando a 3ª e a 1ª pessoa se fundem.

    Com o decorrido, vemos que Bosi propõe a escola do realismo para Machado, uma vez que seus métodos de escrita e composição se encaixam em tal, textos com inúmeras críticas sociais cruas sobre o comportamento do homem diante da sociedade e diante de si próprio.

    Curtir

  11. Alfredo Bosi nos mostra em seu texto que os personagens Machadianos utilizam-se de duas faces, a face real e a social.

    A face social é aquela utilizada para esconder a verdadeira essência do personagem, encobrir falhas humanas, e somente mostrar o que é para o leitor enxergar. Já a face real é a realidade em que vive o personagem, com seus sentimentos humanos e falhos, conseguimos marcar bem essas faces nos contos ‘A Teoria do Medalhão’ e em ‘O Espelho’ de Machado de Assis.

    O conto ‘A Teoria do Medalhão’, é um diálogo entre pai e filho, onde o filho recebe conselhos do pai de como se tornar um medalhão, que é exatamente isso que Bosi chama de máscara social, ele vai deixar sua vontades e desejos de lado para viver como um medalhão, sem questionar nada, sem dar sua opinião sobre nada, apenas para ascender na vida social e fazer parte dessa sociedade elitista.

    Em ‘O Espelho’, também percebemos essa face social no personagem principal. Nesse conto, Machado de Assis começa a narrar em 3° pessoa e ao longo do enredo passa para 1° pessoa, utilizando da artimanha narrador-personagem para convencer o leitor de algo. É isso que Jacobina faz, se apropria tanto da mascara social que consegue convencer a todos sobre o que ele esta falando, e acaba ficando distante da sua face real. Percebemos no conto que Jacobina é a personificação de o que é ser um medalhão.

    Com sua análise, Bosi nos mostra que a escrita de Machado de Assis o leva para a Escola Literária Realista, pois Machado consegue mesclar, em sua escrita, o humor e a crítica a sociedade, mesmo que velada. Percebemos isso no conto ‘O Caso da Vara’, onde o personagem principal se ve no empasse em demonstrar empatia pela pequena Lucrécia, ou seguir com suas próprias vontades.

    Curtir

  12. A partir da leitura do referido capítulo do livro “O Enigma do Olhar” de Alfredo Bosi, destaco três de suas interpretações que, no texto teórico, emendam-se a formar um amplo retrato da obra machadiana: o caráter dúbio e veleitério das personagens, as estruturas sociais pelas quais as personagens transitam e refletem, e a própria trajetória pessoal de Machado de Assis que serviria de espelho para sua obra.
    As personagens Machadiana são marcadas pela cara-social. Cínicas, amargas, invejosas, seus conflitos encontram-se entre o eu-para-si e o eu-para-o-outro. O uso da máscara social é constante e central, qualquer personagem que fuja a isso e que de alguma forma busque fazer alguma diferença é marcada pela loucura, pelo desajustamento.
    O desnível social é outra constante machadiana. O capitalismo seria um meio de combater a natureza-madrasta. A inveja não mais que a consciência da desigualdade e seu desejo por compensa-la. Tal como a máscara social, quando não marcados pelo desejo de ascender socialmente, as personagens são marcadas pelos desejos mais básicos.
    “As palavras criam fendas pelas quais se vence à máscara.” Machado sabia disso. A máscara social foi imprescindível para sua carreira literária. Os desníveis sociais e suas fendas, pelas quais Machado soube transpassar, e sua decorrente máscara, concederam-lhe uma perspectiva de contradição. “É preciso olhar para a máscara que a fenda dos olhos permite ver.”

    Curtir

  13. Ao analisarmos os contos-teorias de Machado de Assis, sob a perspectiva de Bosi, percebe-se que as relações sociais existentes e as múltiplas interpretações que elas carregam, trazem consigo uma crítica e um apontamento das características que lhe são próprias da época e que vieram com as mudanças sociais e econômicas do século em questão. Para tanto, cabe ressaltar que as relações, que são envoltas por papéis sociais e muitas vezes exigidas e fixadas por convenções sociais, passaram a ser transpassadas por conflitos de interesse e pela desigualdade presente na sociedade. Logo, observa-se que Machado não traz de forma explícita as tensões que eram objeto de observação, porém entre as entrelinhas e entre as características psicológicas e sociais das personagens, pode-se perceber que as avarias escondem a realidade e um sentido mais profundo, marcado por um histórico político-social de iguais contradições. Portanto, o indivíduo pertencente à essa sociedade acaba que por necessidade se adaptando e adaptando sua consciência entre a moral das relações primárias e a moral triunfante, que é realista e utilitária. Assim, o indivíduo assume várias facetas em relação a sua identidade social – em benefício de sua ascensão, o que acaba por justificar o fato -, o chamado “eu” passa a ser uma unidade composta de várias “versões”, anulando muitas vezes o que o indivíduo acreditava e conhecia em favor da aceitação e do ajuste na realidade que se quer viver. A máscara que se veste parece ser uma tentativa de estabelecimento entre a face social e a face humana, sendo uma tentativa de estabelecimento de status e de poder, na qual o indivíduo aceita as instituições-imposições, não sendo autônomo. Assim, a sociedade disciplina e legitima o discurso de que o homem deve ser conduzido e integrado às crenças e as opiniões correntes. De forma que Bosi salienta a importância de entendermos o outro e desconfiarmos de nós mesmo, assumindo o nosso lado que não mostramos ao outro – A versão real talvez seja todas as facetas juntas, algo parecido com a “forma” da filosofia aristotélica-tomista-. Logo, deve-se sempre se atentar e criticar os posicionamentos que dizem que os homens são o que são e as coisas estão como devem estar e deve-se também observar os encontros de signos, que são ora reais, nas relações que ocorrem por meio da sinceridade e da realidade em si, ora enganosos. Outrossim, é preciso olhar pela fenda existente entre esses contrapontos para que se veja o outro lado da realidade presente, é preciso olhar para a marcará e para o fundo dos olhos que ela esconde.

    Curtir

  14. Em seu capítulo “A máscara e a Fenda”, Alfredo Bosi analisa diversos contos do escritor Machado de Assis e nota de maneira muito inteligente e perspicaz que na maioria deles há uma situação matriz que se caracteriza por desequilíbrios sociais e desníveis de classe. A partir desta situação matriz, Machado veste uma máscara realista da desigualdade como verdade universal e a transfere para seus personagens, criando neles duas faces: a face real (constituída pela essência das pessoas como realmente são) e a face social (a aparência que as pessoas mostram de acordo com as situações e seus interesses próprios). Essa máscara que é adotada permite aos personagens que sejam aceitos na sociedade, como tentativa de igualar os níveis sociais e beneficiar a si mesmos. Já a face real, por ser humanamente falha, possuir desejos, ciúmes, invejas, dentre outros sentimentos, é escondida, fazendo com que os personagens que a mostram sejam taxados como “marginais” e até mesmo loucos por serem como são e tentarem agir de forma diferente.
    Na construção do tópico “Do lado do sujeito: o enigma” Bosi nos traz a reflexão de que a máscara social é usada com tanta frequência que a essência passa a desaparecer, ou seja, a alma exterior é o objeto de desejo da alma interior, movida pelo prazer e pelo interesse. Sendo assim, o modo de ser de cada pessoa acaba por se tornar um enigma. Por exemplo, no conto “O Espelho”, analisado por Bosi no tópico “Contos teoria” o personagem Jacobina só é capaz de reconhecer-se e constituir-se quando junta a farda (que representa sua máscara social) com sua essência, alcançando o status necessário para sobreviver no mundo real, procurando enxergar-se a partir do reflexo visto pela sociedade e fingir essência em aparência.
    Tais características — a busca pela aceitação, o desnível social, a apropriação — são narradas por Machado quase como um ato de sobrevivência natural, e demonstram claramente a formação da sociedade brasileira. Sua obra é constituída pela ambiguidade de ver o mundo por todos os lados que possui, e o fato de o próprio Machado de Assis haver estado entre ambos os lados permite que escreva de forma tão realista.

    Curtir

  15. De acordo com Bosi, no texto “Do lado do sujeito: o enigma”, Machado de Assis, em seus chamados contos-teoria, aborda a inconsistência do sujeito e o modo como a máscara social é capaz de sobrepor a face humana a ponto de absorve-la, apagá-la. Como exemplo, ele insere o conto “O espelho” para retratar essa inconsistência, que seria representada pelo reflexo opaco de Jacobina no espelho, uma vez que ele apenas consegue enxergar a si mesmo vestindo sua farda. Ou seja, fora de seu papel social, sua alma é inexistente.
    Por isso, conclui-se que tudo aquilo o que se apresenta como inútil à mantença de uma máscara, pode ser descartado ou modificado, assim como os sentimentos inicialmente intensos de D. Benedita, que se transformam mais tarde em indiferença.
    É importante ressaltar, também, que essa máscara necessita de um apoio, uma consistência. Portanto, o que a mantém são estímulos de fora, que provocam a sensação de satisfação pessoal que, por sua vez, provêm de uma sociedade carregada de interesses.
    Se cada pessoa é movida apenas por vaidade, interesses e prazeres (que compõem a máscara social), o que há por trás da máscara, o que é próprio de cada ser, será sempre um enigma, pois o ser humano não alcança sua pessoalidade, ou por conta de sua vaidade ou por ser impotente.
    Essa vaidade, então, sem um propósito real, geraria uma espécie de competição que faz com que se destaque a desigualdade de dotes e dons entre os homens. O sentimento da inveja, por exemplo, surge em Nicolau como uma forma de compensar essa injustiça, que produziria “loucos e marginais”, punindo assim os superiores e tendo afeição pelos “antipáticos”.
    Colocando, dessa maneira, tal desigualdade como algo natural, nota-se que a sociedade acaba por refleti-la, uma vez que o social é totalmente construído. Com isso, a luta pelo dinheiro e pelo status, assuntos tão abordados por Machado, seriam uma “segunda natureza”, que faz com que as pessoas ajam por meio da lei do mais forte.
    Esse desejo de ascensão social, por sua vez, se realiza graças à apropriação do outro, tanto nas ações quanto nas palavras, como mostra bem o conto “Evolução”, que começa tendo o discurso de “tu”, passando para “nós” e logo para “eu”. Todas essas ações cruéis, portanto, já não são naturais: são sociais, construídas socialmente e reproduzidas pelos indivíduos. Percebe-se, então, que natureza e sociedade se unem em um mesmo ser e até em uma mesma expressão: “cálculos da vida”. E não há nada mais cruel do que a posse absoluta do outro: nos contos “O caso da vara” e “Pai contra mãe”, Machado tematiza a escravidão, e mostra que o bem-estar de um funda-se na desgraça do outro (por exemplo, quando Candinho resolve seu impasse escolhendo capturar a mãe escrava fugida, Arminda, para que pudesse receber a gratificação e ficar com o filho, mesmo anteriormente já tendo optado por largá-lo).
    Por fim, questiona-se se Machado de Assis teria consciência crítica desse processo que representava, e a resposta de Alfredo Bosi foi que ele possuía dois níveis de consciência: o primeiro de extração ideológica, no qual ele apenas via passado e presente; e o segundo de extração contra-ideológica, no qual ele tenta esconder o seu “não-conformismo”.

    Curtir

  16. “O espelho” é fonte de uma certeza machadiana que poderia formular assim: só há consistência no desempenho do papel social; abaixo da cena pública, a alma humana é duvidosa e fantasiosa. O que se passa no íntimo pouco tem relação com a máscara, e isto é bem ilustrado na forma esvoaçada que se forma no reflexo no conto em questão. Todo sentimento obscuro, invejoso, ciumento, medroso; tudo se esconde e o que se mostra é tal face concreta, imponente e inabalável.
    Com tal certeza exposta, Bosi decorre sobre contos machadianos onde a mascará é usada para firmar uma imagem positiva, porém com todas as incertezas e vidas imorais sendo o centro do ato, como os personagens de Machado viviam em função de tal máscara e como o que estava por trás sempre os faziam viver as falhas que arriscavam a primeira função.
    A questão levantada por Bosi, dada tal certeza presente em várias obras de Machado, é a dualidade do personagem, e como sua face íntima consiste na natureza humana, que é falha e ilusória, enquanto sua face pública cumpre, mesmo que rasa e embusteira, os conformes sociais. E tal dualidade não separa o homem de si mesmo. A ambiguidade do ser machadiano se limita a tratar dos conflitos humanos vividos por eles, mas ao fim de tudo, uma face não anula a outra; é consequente de sua natureza humana depravada e obscura criar tal máscara, escondendo suas imperfeições, mas em sua construção, a máscara revela o verdadeiro ser a todo aquele que olha profundamente. Não há como haver face pública sem que haja o que se esconder na face íntima, e a face intima, por sua vez, transparece sua depravação a cada detalhe da face pública, a máscara.
    Porém essa dualidade não se contém apenas nas obras de machado: sua escrita constrói estruturas opostas que refletem a sua intenção narrativa. Seja na prática narrativa, como o entrelaçamento das luzes de fora da casa com as luzes da vela no começo do conto “O Espelho”, ou na publicação de seus contos em folhetins, atraindo a atenção do público por conta da estética rica em elementos românticos, mas contendo sua ousadia realista que o diferenciava dos outros autores e o tornava pioneiro de tal movimento. Machado escrevia contos com críticas sociais a burguesia carioca, porém conquistava a popularidade, justamente por mesma dualidade oposta e complementar.
    Bosi conclui dizendo que a razão machadiana trata justamente dessa dicotomia, da contradição e complementação, do sim e do não, do errado e do certo, e da insurgência desses dois pólos divergentes.

    Curtir

  17. O capítulo “Do lado do sujeito: o enigma” começa citando o conto “O espelho” que, usando o termo de Allan Poe, é um conto que possui o que ele denominou de efeito único, ou seja, as partes do conto convergem para um único fim – característica essa percebida na maioria dos senão contos de Machado, senão em todos – que seria a teoria das duas almas. Bosi segue então referenciando várias outras obras que possuem a mesma característica.
    O primeiro comentário é sobre a máscara, que pode ser traduzida numa questão social ou, usando das palavras proferidas por Bosi em sua palestra “A máscara, a fenda e o duplo espelho”, na Universidade de São Paulo em 2015: “o papel que a pessoa representa, sendo ele uma imposição social”, ao que ele afirma categoricamente só ser possível reconhecer essa máscara aquele que já esteve também por baixo dela.
    Passando a citar outros contos, Bosi foca na dualidade assimétrica que compõe as personagens dos contos: natural x social, ou a primeira natureza subjugando a segunda natureza, trazendo a passagem de uma moral à outra e evidenciando a questão da razão naturalista e fatalista.
    Todos os contos citados no capítulo têm em suas personagens pessoas que vivem dentro e sob a força das circunstâncias, ao que o autor sempre coloca como “natureza”, algo maior que a própria pessoa, como quando Genoveva trai sua promessa a Deolindo e de alguma maneira Machado cria um pensamento dual, em que, por um lado o leitor toma por desleal a ação da moça e por outro reconhece sua honestidade ao revelar a traição. Nesse ponto é possível compreender a escrita provocativa de Machado.
    Machado de Assis trabalha com a ambiguidade dando ao leitor a ótica dos conflitos que compõe o homem que, por sua vez, formam a sociedade como sua imagem e semelhança. Seguindo esse contexto, a análise de Bosi vai além da obra, passando para a conclusão da escrita realista que integra Machado de Assis.
    Em suma, as obras analisadas nesse capítulo fazem referência a sociedade e podem ser, por infortúnio, equiparadas aos dias de hoje, evidenciando a perspicácia como Machado escrevia suas obras, tratando de forma por vezes humorísticas os conflitos e situações sociais.

    Curtir

  18. Em A máscara e a fenda, Bosi critica obras do escritor Machado de Assis, analisando seus personagens principais, moral, valores etc. Dando ênfase ao tópico: “Do lado do sujeito: o enigma”, ele mostra que em “O Espelho” podemos perceber uma face, ou como o título, uma máscara que esconde a verdadeira essência do personagem. Machado, ao narrar esse personagem com máscara, tem o intuito de esconder essa essência do leitor, como a vaidade, o ciúme, a inveja, que não é enxergado a olho nu. Jacobina se esconde atrás dessa máscara ao conseguir aquele status que sua família almejava, esquece-se de sua alma exterior, que era o que ele realmente amava, ao recuperá-la ele fecha essa fenda entre o que esconde e o que as pessoas viam nele.
    Assim como em a “Teoria do Medalhão”, quando o pai aconselha seu filho a se tornar um “medalhão” ou seja, alguém que conseguiu conquistar fama e riqueza, então ele passa a mostrar uma teoria de como seu filho iria conseguir tal fato, possuindo uma rotina restrita. Ou seja, o pai aconselha seu filho a adotar essa máscara que Bosi aborda em seu texto.
    Por isso, Bosi acusa Machado de ser realista, ao abordar temas tão reais, cheios de críticas sociais perante o homem e a sociedade, críticas tão reais e cruas que mesmo que atrás de máscaras, podem ser vistas se olhado de perto.

    Curtir

  19. Na Psicologia, C. G Jung afirma em sua teoria que a Persona é caracterizada por uma personalidade apresentada pelo indivíduo apresenta aos outros como real, mas que, na verdade, é uma variante às vezes muito diferente da verdadeira. Em seu livro “O Enigma do Olhar”, no capítulo “A Máscara e a Fenda”, Alfredo Bosi constrói uma crítica ao estudar profundamente as obras de Machado de Assis a partir de um aspecto semelhante a essa análise do comportamento humano.

    No trecho em que se inicia “O lado do sujeito: o enigma”, ele argumenta inicialmente sobre “O Espelho”, que, carregado de simbolismos, aborda um tema antigo que possui ligação com a alma. É através desse ponto que, ao formar este tópico, Bosi reflete sobre o papel da máscara social e como seu uso causa o desaparecimento da essência do indivíduo. A máscara (podendo ser referida também como persona) cria muitas raízes que perfuram os ossos, e, sem que seja percebido, a mentira transforma-se em verdade e a verdade transforma-se em enigma. Como exemplo, há Jacobina em “O Espelho”, um homem que de tão acostumado à imagem criada através dos outros, deixou de se reconhecer sem a farda de alferes unida ao seu corpo como uma segunda pele. Sem a farda sua essência deixava de realmente ser essência e se tornava muito fraca para que pudesse ajudá-lo a sobreviver em sociedade.

    Nas obras de Machado, a construção de duas faces: a face real (a verdadeira essência) e a face social (aquela que é forjada pelos interesses próprios e a aparência que é mostrada no exterior), transforma suas narrativas numa verdade crua e realista da desigualdade. Mesmo ao abordar temas com esse peso, o autor expressa suas críticas com habilidade, fazendo com que cresçam da maneira como são abordadas naturalmente, sem uma consciência verdadeira, apenas um ato de sobrevivência comum que sempre foi cometido — e provavelmente sempre será. É com essa visão do mundo em suas diversas convenções que ele demonstra a construção da sociedade brasileira, e, também, a construção do ser humano.

    Curtir

  20. As reflexões a partir dos contos de Machado de Assis feitas pelo autor Bosi, começam com uma breve observação, relacionadas ao espelho do homem na sociedade, associando o real e o duvidoso, o que é mostrado socialmente pelas pessoas com o que realmente é em sua essência. Bosi em suas observações ressalta que há uma negação dentro desse parâmetro para o homem mostrar-se para o outro como ele realmente é. Diante disto existe uma necessidade por aceitação social e assim é criada a segunda face do homem, outra face que mesmo não sendo verdadeira se torna tão enraizada que é facilmente tida como única.
    As observações do autor em relação aos contos de Machado de Assis giram em torno de uma perspectiva que se atenta a mostrar as ações e os sentimentos que seriam necessários para a vida social, sendo assim as relações por algum interesse são encontradas nos contos de Machado, desta forma os personagens construídos por de Machado de Assis carregam ou essas máscaras sociais para que de alguma forma se encaixem socialmente ou são transparentes e são considerados marginais ou loucos dentro de seus contos. Os personagens dos contos de machados ao mostrarem a face social revelam sua forma mais íntima a total superficialidade, sendo a aparência a essência dos personagens que não percebem que suas ações e sentimentos não são verdadeiros de fato.
    Machado de Assis em seus contos faz críticas à sociedade usando formas subliminares, mostrando como são as relações humanas sociais, em seus contos os personagens nunca são perfeitos ou heróis, sendo assim Bosi considera Machado um autor realista.

    Curtir

  21. Em “ A Mascara e a Fenda” Bosi nos apresenta uma analise dos contos de Machado de Assis através de uma perspectiva social. Seus contos são marcados pelos valores morais e a importância que a sociedade atribui ao status. A explicação para a máscara se da para tal adequação do sujeito, como forma de um regimento social.
    “Não há outro modo de sobreviver no cotidiano senão agarrando-se firme às instituições; estas, e só estas, asseguram ao frágil individuo o pleno direito a vida material e, daí, ao doce lazer que lhe permitirá até mesmo balançar-se naquelas cabriolas e fantasias.” – Bosi.
    Nos Contos- teoria, Machado, discute a experiência do homem no mundo, deixando nítido em seus contos a fixação dessa máscara, a face social que o homem finge ser. Toma se como exemplo o conto “ O Alienista”. Bacamarte, veste a máscara do homem coerente. O que não é socialmente comum, deve ser afastado da sociedade. Em a “Teoria do Medalhão”, nota se a importância do status do homem em convívio com sociedade. Um dialogo entre pai e filho, onde o pai orienta seu filho à “dançar conforme a música”, não questionar, nem problematizar.
    Ao mesmo tempo em que há crítica à essa máscara usada pela sociedade, Bosi diz que, Machado é realista e reconhece que ela é uma forma de “defesa” das circunstâncias que o homem se depara na vida, como as diferenças e níveis sociais. Desse principio cria se as “duas faces”: real X social. No capítulo de “ Do lado do sujeito: O enigma” Bosi expõe o enigma que permeia nesse modo de viver em sociedade, pois o uso da máscara, torna se tão frequente que, essência e aparência tornam se um só. Como exemplo, no conto “ O Espelho”, há o dualismo da alma. A alma interna e externa, como você é e como você é visto, a alma sempre reflete para como o sujeito é visto.
    “E prazer e interesse responderiam à pergunta: O que esta atrás da máscara? De qualquer modo, são tão matizados os graus e os momentos do mascaramento e tão várias, se não infinitas, as combinações tecidas pelo acaso, que o modo próprio de ser de cada pessoa parecerá, ainda e sempre, um enigma.” – Bosi.
    Por fim, Bosi conclui que fica marcada na obra de Machado de Assis uma vertente ideológica, em sua própria narrativa, através da ambiguidade de seus contos e uma eterna contradição: real X aparência, certo X errado.
    Bosi define que, Machado de Assis não era um conformista, que seus contos não marcam figuras estereotipadas. Era na verdade um realista, que escrevia a real percepção do homem como ele é.

    Curtir

  22. Alfredo Bosi, começa nos mostrando em “ Do lado do sujeito: o enigma”, uma visão crítica diante das produções do escritor Machado de Assis, permitindo-nos adentrar em seus contos com um olhar mais atento aos seus personagens, com suas ações causadas pelo efeito das faces,faces estas nomeadas como real x social, muito bem apresentadas nos contos machadianos.

    A primeira face é a “social”, que tem como intuito ocultar as falhas humanas, trazendo para o leitor uma visão reduzida referente a elas. A face “real” permite que a personagem seja quem realmente é, um ser humano com suas falhas juntamente com seus respectivos sentimentos.

    Há uma reflexão sobre a questão em que a “Face social” ganha uma frequência tão grande, que a essência se perde em meio a essa rotina de sempre vestir essa máscara, a “alma externa” está ligada ao status e prestígio social, e a questão que se torna o foco é a imagem que os outros fazem de nós torna-se muito mais importante do que a nossa “alma interna”, ou seja, a nossa real personalidade.

    Em um dos contos de Machado, “O Espelho” por exemplo, o recurso da face social é utilizado.
    Jacobina ao vestir sua máscara social representada pela farda, consegue transparecer o quanto a máscara ganha forças, e, através dela a própria personagem sente-se no nível social que a sociedade tanto exige, traz a transparência de que a essência existe, mas a aparência é aquela que irá proporcionar a realização de seus desejos, no caso os próprios interesses!

    Através da análise, Alfredo Bosi, insere Machado de Assis no período da Escola Literária Realista, pois sua escrita caminha entre o humor e a crítica à sociedade.
    Dentre eles, temos o conto ” O caso da vara”, nesta história podemos perceber algumas anedotas presentes no perfil do personagem Damião, que se comove com a situação da menina Lucrécia, entretanto, fica evidente que em primeiro momento ele se comoveu, mostrou seu “sentimento”, mas Machado usa do recurso da máscara social, e retrata o acontecimento em que Damião escolhe colocar seus interesses acima da opção de salvar a menina Lucrécia.
    Machado traz a Ética e a Moral, sendo realista como é não deixava de trazer a percepção nua e crua da real sociedade nas suas obras!

    Curtir

  23. Nos estudos de A mascara e a fenda – de Alfredo Bosi- encontramos diversas questões indispensáveis não só para a compreensão da vasta obra do autor Machado de Assis como também para pertinentes analises sociais e históricas. Elas revelam o papel ímpar que teve o escritor e seus escritos tanto para a sociedade do século XIX, quanto para o presente.

    Inicialmente, Bosi nos aponta as perspectivas moralistas do primeiro momento da obra machadiana. Geralmente, costuradas materialmente no enredo, essas perspectivas revelam que as questões morais estão intrínsecas às carências de um status. O que vem supri-las, nos contos, ambiciosamente, é o matrimônio- que é um dos maiores indicadores da assimetria estrutural- inserido numa sociedade onde a ingratidão e a traição são efeitos colaterais desse contrato patrimonial que é o casamento. Machado vai então justificando, nesses interesses, como a sociedade é ambígua, paradoxal, contraditória, pois se vale espontaneamente desses “recursos” como uma lei de sobrevivência social.

    Embora o meio conjugal permeie estes contos iniciais, Bosi afirma que machado nunca foi um romântico, por que, muito maior que as idealizações e as paixões, ele traz um tom fabulativo aos contos: anseia deixar uma moral, além de apresentar um herói ao estilo “vale-tudo”, longe da perfeição (como vimos em Miss Dolar). É nestes protaganistas que se envidencia o uso da “máscara social” como instrumento essecial para integrarem-se ao meio, chegando até a se convencer da naturalidade delas.

    Neste ponto de expeculação, Bosi traz uma ousada análise: o próprio Machado de Assis é um usuário da máscara social, de modo que usa-a para sobreviver no meio institucional da literatura. Ele próprio personifica as ambiguidades humanas apresentadas nos contos.

    Entretanto, há fendas pela máscara! Embora o autor discorresse e vivesse na existência de uma sociedade de classes muradas, ele perpassa essas fendas, oscilas entre as classes. Desse modo caracteriza-se o espelho (eu > sociedade < eu) dentro da própria narrativa marcada pelo ser vs o parecer, que não é uma culpa, e sim uma consequência marcada pelo que Bosi apresenta como “veleidade”- essa vontade imperfeita que atinge o âmago da vaidade e impede o homem de alcançar o que anseia (como vemos em Homem Célebre).

    Ainda nessa ótica ambígua, vemos um Machado darwinista, que evidencia o desalinhamento e a desigualdade entre o homem e a natureza. Percepção essa, que se dá através do espectro emocional (pela inveja). É, justamente nessa fase dos “contos teorias” que surgem personagens que vão colocando as máscaras sociais para “apaziguar” os conflitos e a não-aceitação social, para sobreviverem ao meio.

    Não obstante, o realismo de Machado de Assis pende entre a moral dos sentimentos e a moral triunfante, numa ambígua forma de ver o mundo, que hora é uma aceitação imobilizadora, “uma visão totalizante do mundo” (como na descrição da natureza no capitulo O delírio de Brás Cubas) e hora pendula entre a consciência critica do processo que ele representou. Isto é: embora insinuasse um fatalismo e ceticismo “das inspirações mais dispares: de Schopenhauer e de Flaubert, de Darwin e Nietzsche …”(BOSI, p. 124) Machado não era um conformista, pelas fendas da máscara instrucional e literária, ele propunha uma contra-ideologia.

    Nesse jogo entre a face ideológica e a sua oposição, Machado mostra ser um realista que não pode aceitar que a realidade é realmente essa que se põe diante de si e de nós. Sua perspectiva é, propriamente, a da contradição, entre suas franjas, fendas e faces.
    Em síntese, como o próprio autor já havia proposto no conto A Igreja do Diabo: "As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.”

    Curtir

  24. As irmãs Contraste e Ambiguidade de composição narrativa (Contos-Teoria) perpassa pelo macro-mundo dos desníveis de classe “a desigualdade é um fato universal e ao mesmo tempo uma fonte de dor e humilhação”, pelo moribundo segmento do desequilíbrio social, “espaço de diferenças gratuitas, mas fatais, já dadas ao homem desde que chega a este mundo”, em oposição ao micro-mundo do (sub)consciente do Individuum. Enfim, uma interpretação psicossocial de uma das realidades históricas brasileira.
    Inúmeros fatores analíticos são colocados em evidência por meio dos seus contos-retratos. Ao se fazer uso dos subterfúgios da hermenêutica psicossocial machadiana, encontram-se: O Parecer (a aparência, mecanismos da vida social – a máscara) em oposição A Essência [as vibrações internas, o modo próprio de existir de cada um, os contornos da subjetividade, as pinturas dos caracteres (…). Afinal, uma abordagem atomística do psicológico do sujeito-singular] as irmãs Contraste e Ambiguidade, sobretudo, aspectos da Teoria do Comportamento.
    Por conseguinte, entende-se como mais do que benéfico os traços da perspectiva machadiana para nossas reflexões atuais. Seu discurso-tom é recheado de provocações, ironia e, no lugar da cereja do bolo, humor.

    Curtir

    • Ao utilizar como referência o livro “O enigma do olhar” e, mais precisamente o subcapítulo “Do lado do sujeito: O enigma”, de autoria do nosso renomado teórico Alfredo Bosi, para que se possa fazer uma ideia do nosso maestro da literatura nacional Machado de Assis, infere-se que a situação matriz de composição narrativa (Contos-Teoria) perpassa pelo macro-mundo dos desníveis de classe “a desigualdade é um fato universal e ao mesmo tempo uma fonte de dor e humilhação”, pelo moribundo segmento do desequilíbrio social, “espaço de diferenças gratuitas, mas fatais, já dadas ao homem desde que chega a este mundo”, em oposição ao micro-mundo do (sub)consciente do Individuum. Enfim, uma interpretação psicossocial de uma das realidades históricas brasileira.
      Inúmeros fatores analíticos são colocados em evidência por meio dos seus contos-retratos. Ao se fazer uso dos subterfúgios da hermenêutica psicossocial machadiana, encontram-se: O Parecer (a aparência, mecanismos da vida social – a máscara) em oposição A Essência [as vibrações internas, o modo próprio de existir de cada um, os contornos da subjetividade, as pinturas dos caracteres (…). Afinal, uma abordagem atomística do psicológico do sujeito-singular] as irmãs Contraste e Ambiguidade, sobretudo, aspectos da Teoria do Comportamento.
      Por conseguinte, entende-se como mais do que benéfico os traços da perspectiva machadiana para nossas reflexões atuais. Seu discurso-tom é recheado de provocações, ironia e, no lugar da cereja do bolo, humor.

      Curtir

  25. Alfredo Bosi aborda em sua obra “O enigma do olhar”, uma característica extremamente marcante de Machado: a máscara com que esse veste seus principais personagens, tenham eles a ciência clara da fixação da mesma ou não.
    Bosi deixa claro a problemática “essência x aparência” que a obra machadiana carrega. Em alguns dos seus contos como “A teoria do medalhão”, fica evidente o quanto a aparência é a coisa mais importante para o pai, e a preocupação do mesmo para que o filho a enxergue da mesma maneira futuramente. É praticamente uma anulação da diferença, do singular, o personagem principal é induzido a simplesmente seguir o que é dito pelo pai para o alcance do seu sucesso, reproduzir, não pensar ou questionar, o garoto é praticamente apagado. É o que Bosi chama de fixação segura da máscara: quando as duas facetas são confrontadas – essência e aparência – a que prevalece é sempre aquela vestida pela máscara, que acaba virando a face humana, não existe mais duas realidades, a máscara toma conta do indivíduo.
    Em “o espelho” essa problemática fica ainda mais evidente: a noção da distinção da essência e aparência é completamente apagada, Jocobina já não é mais Jacobina, a máscara de alferes que costumava vestir, passou a vesti-lo: a cara social que assumia com a farda passa a ser sua cara identitária, cara essa que precisa a qualquer custo ser apreciada por terceiros pela necessidade absurda de afirmação de importância que carregava com aquele título. A máscara deixa de ser, então, apenas uma máscara: os personagens a assumem como uma verdade absoluta, sem sequer notar o uso desse disfarce. Machado evidência em sua obra a sociedade da desigualdade – não poupa recursos para ilustrar a realidade como é, sem idealizações ou eufemismos –, sociedade essa que busca a todo custo significar algo. Os personagens anseiam por um lugar no pódio, a narrativa é marcada pelo distanciamento absurdo do homem com a natureza e a aproximação do mesmo com o mundo do capital, onde as virtudes são corrompidas e a veleidade e a impotência assombra o ser humano, obrigando o mesmo a ceder ao uso da máscara; pela posse extrema de uma identidade que não existe.
    A palavra é a válvula de escape para essa faceta social, ao fugir das idealizações – entrando no mérito de Escolas Literárias, essa talvez seja a principal razão pela qual Machado é considerado, de acordo com Bosi, um autor realista: a representação fiel da sociedade e a complexidade dos problemas que trazem a sua narrativa, usufruindo de ambiguidades para que o questionamento seja sempre uma constante na leitura – da sociedade, Machado encontra através do texto fendas que permitem vencer a máscara que veste seus personagens. É por isso que em Dom Casmurro, por exemplo, a única narrativa que conhecemos é a de Bentinho: propositalmente se faz isso para que não saibamos quem era Capitu na visão de alguém senão aquele. Machado se preocupa em evidenciar os conflitos do ser não apenas com a sociedade, mas com si mesmo com essa busca de grandiosidade a todo custo, mesmo que esse seja a abdicação da sua singularidade e a conformidade em assumir a faceta social.

    Curtir

  26. Bosi discute a questão da “máscara” social encontrada nas personagens dos contos de Machado de Assis. Tal máscara seria uma metáfora para o comportamento das personagens em face da desigualdade social existente entre elas. A máscara é a identidade social, só se realiza a partir do olhar do outro, e sai vencedor aquele que não se deixa desprotegido e não deixa a máscara cair.

    Esse comportamento seria a maneira como as personagens sobrevivem na sociedade, sendo elas as pessoas “mais fracas”, menos favorecidas. Fazem uso de estratégias para enganar e convencer o outro, seguindo a lei do mais forte como meio de galgar seu caminho até o topo para a conquista do poder.

    Esse fato fica evidente no conto “Verba testamentária”, onde a personagem, Nicolau, sente inveja e rancor de tudo aquilo que cobiça. Neste conto, a máscara aparece como uma tentativa de compensar o desnível social por meio da inveja e da destruição. Mais do que uma maneira de sobreviver, a máscara é fruto de um ressentimento por parte da personagem.

    Por outro lado, mas não tão por outro lado assim, essa máscara pode ficar tão presente que acaba obscurecendo a face por baixo dela, confundindo até mesmo a pessoa que a veste. É o que acontece no conto “O espelho”, quando Jacobina se perde na imagem social que constrói ao conseguir o posto de Alferes. A partir daí, a personagem não mais consegue se reconhecer sem que seja pelo olhar de um terceiro, passando a viver então em função de sua razão social, vestindo a máscara como se fosse algo natural.

    Tal naturalidade é sempre posta em cheque, convencendo até mesmo o leitor de que as ações das personagens são justificáveis, dando a entender que a única maneira de sobreviver em uma sociedade tão desigual é por meio da máscara.

    Curtir

  27. 1 0 0 7 5 1 4 7

    Em “Do Lado do Sujeito: o enigma”, Alfredo Bosi aborda a preocupação social no contexto dos contos Machadianos. Dessa maneira, Bosi, desenvolve a questão social como se fosse constituída por uma “máscara” e dois caminhos morais possíveis que as personagens pudessem seguir, nomeadas de face social e face real.
    Sendo assim, a face real traça como característica a personagem, que não tende a ser a principal, se apresentar como realmente é, ou seja, demonstrando suas intenções com sinceridade sem utilizar recursos ou se omitir.
    Por outro lado, a faceta social se ocupa em guardar a essência e desejos profundos da personagem, até que lhe seja oportuno se revelar ou não com suas reais intenções. Sendo nesse molde, a “máscara” uma forma das personagens esconderem sentimentos considerados imorais e se projetarem no meio social para corresponderem as convenções.
    A “máscara” foi apontada no conto “Teoria do Medalhão”, que narra ás preocupações de um pai aconselhando seu filho, recomendando que “seja um medalhão”, que significa: viver com destaque, importância e aceito. Adicionando que isso aconteceria se o filho se projetasse seguindo as expectativas culturais da sociedade, espalhando que viver apagado é uma maneira de sobrevivência e adaptação importantes. A face social também pode ser embasada em “O Espelho”, conto Machadiano que apresenta a dualidade da Essência X Aparência, na qual a personagem estava tão profundamente comprometida a como se mostrava socialmente que perdeu a conexão com sua real identidade, não reconhecendo a pessoa no espelho quando essa não se trajava para a sociedade, ou seja, quando deixava sua máscara de lado.
    Formado pelo bom tom, o discurso de Machado de Assis, ao retratar em suas obras a sociedade e suas normas, se configura como um Realista, marcado pela não conformidade e personagens conflitantes, que eram posicionados em maior peso sob a face social, bem acompanhados de suas máscaras.

    Curtir

  28. O livro A máscara e a Fenda, de Alfredo Bosi fala sobre algumas das diversas obras de Machado de Assis, seus aspectos e características e, também realizada uma breve reflexão sobre o autor em questão.No terceiro capítulo da obra, “Do lado do sujeito: O enigma”, se é retomada a concepção da “mascara” e outros aspectos da mesma, a sua necessidade para a sobrevivência no meio social, a ponto onde o indivíduo e a máscara são um só, como no conto “O espelho”, e podendo ocorrer também momentos, graus de mascaramento e a variação de máscaras conforme o meio onde a personagem se encontra.
    Quem não aceita o uso da máscara pode ser visto como rude ou até mesmo tolo, ou seja, quem conseguir manter a máscara por mais tempo, de forma a não vacilar, sempre sairá vitorioso das relações sociais.Dito isso pode-se falar sobre outro aspecto também retratado nesse capítulo, as relações e a simetria presente nelas.
    A primeira delas é a relação simétrica, onde ambas as pessoas da relação são “iguais”, como por exemplo, estarem na mesma camada social, terem os mesmo objetivos e afinidades.Já na relação assimétrica ocorre o oposto, uma das pessoas está em outra camada social, não terem os mesmos objetivos e afinidades.
    Pode-se citar como exemplo dessas relações o conto “Noite de almirante”, no primeiro momento quando Deolindo e Genoveva fazem a promessa de amor há simetria, já no segundo momento do conto, quando Deolindo retorna d viagem e encontra Genoveva com outro rapaz não há simetria, pois apenas um dos lados manteve a promessa, existindo então uma relação assimétrica.
    Em relação ao Machado de Assis, o mesmo se é tido como um autor realista, pois busca retratar o social com afinco, seus jogos de sombras, suas mascaras, e o uso de personagens com sentimentos um tanto obscuros e realistas, diferentes dos presentes em diversas outras obras de outros artistas de sua época.

    Curtir

  29. Segundo Alfredo Bosi, em “O espelho”, Machado trata da questão identitária do homem. Aquilo que o constitui como tal, no conto, é incerto e volúvel, assim como as máscaras que se usam para representar o eu. A parte de dentro, então, fica à espera de estímulos e aprovações para se materializar, bem como à espera do olhar do outro para se encontrar. A identidade do sujeito equivale à máscara social que, por sua vez, só é fixada quando definida. A dificuldade que se tem para encontrar a identidade pode-se dar pela vaidade ou pela própria impotência, quando o sujeito não consegue vestir a máscara, constituindo-se para a sociedade um marginal ou um louco, destinado à derrota.
    A questão da desigualdade é bastante abordada neste texto. Nele, Bosi iguala a natureza e a sociedade caracterizando-as como não igualitárias. No conto, “Verba Testamentária”, a inveja é exposta como a percepção da desigualdade e uma tentativa de compensá-la. Ademais, Bosi ainda afirma que a superação da desigualdade natural se dá pelo uso das máscaras, tornando o sujeito cínico, mas seguro em sua subjetividade. A essa hipocrisia e transformação da moral Bosi dá o nome de aburguesamento.
    Machado de Assis por meio dos seus contos revela, de modo realista, as hipocrisias de uma sociedade que se baseava na moral do mais forte. Por outro lado, por meio de fendas, proporciona, a análise dessas realidades, dimensões que não são somente naturais, mas também sociais. A razão de Machado parece ser conduzida sobre um fio de navalha, “fugindo das propostas cortantes do não e do sim”.
    O escritor, inserido nessa sociedade, também esteve preso à ideologia do seu tempo, por isso usava do pessimismo para retratar a realidade. Mas, numa espécie de contra-ideologia, ele não se conformava com as relações sociais que se mantinham na época, principalmente, as que se embasavam na luta pelo poder.

    Curtir

  30. O enigma sobre o qual Bosi se refere corresponde ao modo próprio de ser de cada pessoa, que em decorrência dos momentos de mascaramento não deixa de ser um mistério. Desse modo, tanto os personagens, quanto as ações por eles praticadas são dúbias, possuem dois lados, por vezes opostos. Um desses exemplos é o personagem Nicolau, o invejoso, que ao mesmo tempo em que é “o retrato do invejoso clássico”, nutre tal sentimento como reflexo de sua vontade de compensar as diferenças sociais.
    Bosi também pontua a questão da desigualdade, tida na obra de Machado como “um fato universal e ao mesmo tempo uma fonte de dor e humilhação”. Ela é a responsável por produzir loucos e marginais , no caso, os indivíduos que se recusam a usar a máscara, e por produzir “cínicos, pulhas e traidores, não raro inquietos da próprio conservação”, àqueles que aceitam a máscara e por consequência ascendem socialmente. Logo, as relações sociais desses indivíduos são muitas vezes produtos de fraude e a sobrevivência daqueles que aceitam usar a máscara, os considerados “mais fortes”, está intimamente atrelada à desgraça dos outros, os que não aceitam a máscara.
    Nos contos de Machado a sociedade é um encontro de signos transparentes (aqueles que exprimem a realidade) com signos opacos (que exprimem uma realidade dissimulada pela palavra). Dessa forma, as personagens misturam sinceridade e engano em suas relações com os outros e consigo mesmas, mantendo a ambiguidade e o enigma de suas verdadeiras personalidades e de tal forma que a persona social torna-se a própria persona. A duplicidade também aparece na escrita de Machado,detentora de dois níveis de significado: o nível ideológico, pautado na visão de que os comportamentos se enraízam nos instintos de conservação, o que resulta no fatalismo; e o nível da contra-ideologia, do escárnio.

    Curtir

  31. REBECCA MORGADO DI GIORGIO

    De acordo com Bosi, no texto “Do lado do sujeito: o enigma”, Machado de Assis, em seus chamados contos-retrato, aborda a inconsistência do sujeito e o modo como a máscara social é capaz de sobrepor a face humana a ponto de absorvê-la, apagá-la. Como exemplo, ele insere o conto “O espelho” para retratar essa inconsistência, que seria representada pelo reflexo opaco de Jacobina no espelho, uma vez que ele apenas consegue enxergar a si mesmo vestindo sua farda. Ou seja, fora de seu papel social, sua alma é inexistente.
    Por isso, conclui-se que tudo aquilo o que se apresenta como inútil à mantença de uma máscara, pode ser descartado ou modificado, assim como os sentimentos inicialmente intensos de D. Benedita, que se transformam mais tarde em indiferença.
    É importante ressaltar, também, que essa máscara necessita de um apoio, uma consistência. Portanto, o que a mantém são estímulos de fora, que provocam a sensação de satisfação pessoal que, por sua vez, provêm de uma sociedade carregada de interesses.
    Se cada pessoa é movida apenas por vaidade, interesses e prazeres (que compõem a máscara social), o que há por trás da máscara, o que é próprio de cada ser, será sempre um enigma, pois o ser humano não alcança sua pessoalidade, ou por conta de sua vaidade ou por ser impotente.
    Essa vaidade, então, sem um propósito real, geraria uma espécie de competição que faz com que se destaque a desigualdade de dotes e dons entre os homens. O sentimento da inveja, por exemplo, surge em Nicolau como uma forma de compensar essa injustiça, que produziria “loucos e marginais”, punindo assim os superiores e tendo afeição pelos “antipáticos”.
    Colocando, dessa maneira, tal desigualdade como algo natural, nota-se que a sociedade acaba por refleti-la, uma vez que o social é totalmente construído. Com isso, a luta pelo dinheiro e pelo status, assuntos tão abordados por Machado, seriam uma “segunda natureza”, que faz com que as pessoas ajam por meio da lei do mais forte.
    Esse desejo de ascensão social, por sua vez, se realiza graças à apropriação do outro, tanto nas ações quanto nas palavras, como mostra bem o conto “Evolução”, que começa tendo o discurso de “tu”, passando para “nós” e logo para “eu”. Todas essas ações cruéis, portanto, já não são naturais: são sociais, construídas socialmente e reproduzidas pelos indivíduos. Percebe-se, então, que natureza e sociedade se unem em um mesmo ser e até em uma mesma expressão: “cálculos da vida”. E não há nada mais cruel do que a posse absoluta do outro: nos contos “O caso da vara” e “Pai contra mãe”, Machado tematiza a escravidão, e mostra que o bem-estar de um funda-se na desgraça do outro (por exemplo, quando Candinho resolve seu impasse escolhendo capturar a mãe escrava fugida, Arminda, para que pudesse receber a gratificação e ficar com o filho, mesmo anteriormente já tendo optado por largá-lo).
    Por fim, questiona-se se Machado de Assis teria consciência crítica desse processo que representava, e a resposta de Alfredo Bosi foi que ele possuía dois níveis de consciência: o primeiro de extração ideológica, no qual ele apenas via passado e presente; e o segundo de extração contra-ideológica, no qual ele tenta esconder o seu “não-conformismo”.

    Curtir

  32. Nome: Ariela Solon Quintanilha – Letras 4° Semestre – Matutino

    Literatura Brasileira – Realismo e Modernismo

    A máscara e a fenda – Alfredo Bosi / 1ª Atividade Avaliativa

    Alfredo Bosi inicia sua análise descrevendo sobre o modo com que Machado de Assis, enxergava a sociedade por meio do realismo. Bosi afirma que Machado nunca foi um verdadeiro romântico, mas, sim, dono de uma esperteza social para se encaixar como um escritor conhecido e criar, em alguma medida, a sua máscara social enquanto um escritor bem sucedido. Na segunda parte, é possível perceber a maneira com que Machado vê e interpreta o mundo, na tentativa de revelar o que havia nos indivíduos por de trás da máscara.
    No primeiro trecho Bosi está tentando definir o enigma, no intuito de mostrar o que afinal seria a obra machadiana de um modo geral. Na maior parte dos contos, Machado mostra que a máscara social seria a face social transformada na face humana. Um dos exemplos, é o conto “O espelho” (o que é refletido no espelho como alguma coisa embaçada, insegura, é algo interno do homem, que só se configura e se fixa quando se define a máscara social). Na estrutura narrativa do conto “O espelho” o personagem só se reconhece, a partir do olhar do outro. Esse jogo também é feito na narração, ele começa a narração em terceira pessoa e realiza passagens para primeira pessoa, e depois volta para a terceira. É como se ele definisse o que é o olhar no espelho. Ele vai dizer por que o ser humano não alcança essa identidade interna, essa pessoalidade, por duas questões; por veleidade pessoal, naquilo que vai oferecer algum status, ou porque realmente ele é fraco e não sabe ou não consegue fazê-lo. Isso impediria o homem de alcançar alguma identidade, algo que o refletisse no espelho sem precisar do olhar do outro.
    Bosi demonstra a obra machadiana como um conjunto de instituições não igualitárias. Então, a natureza é não igualitária e a sociedade a espelharia. A inveja, por exemplo, seria a percepção da desigualdade e a tentativa de compensá-la por sentimentos sem nobreza como a traição. Então, Bosi quebra um pouco da imagem marcada do Machado como alguém que está a frente da sua época, trazendo um pouco da realidade de que ele também estava preso e ao mesmo tempo são encontradas fendas, por meios das quais pode-se ver e problematizar essa sociedade. Os indivíduos que procuram a identidade social e aceitam essa máscara social, vão tornar-se como sínicos, traidores, inseguros. E todos os que tentam encontrar uma diferença individual dentro dessa sociedade seria marginalizado ou louco. Essa seria uma estrada protegida, a estrada do vencedor e o marginal, a estrada da derrota. Machado parece enxergar a desigualdade como algo natural e o homem mesmo que perversamente encontra uma maneira de superá-la por meio da fixação da máscara social. A obra machadiana mostra tanto o que se desenvolve pela face da identidade social quanto pela sua negação. Em suas obras também encontra-se os loucos e marginalizados. Poucas vezes, entretanto, os personagens estão certos dessa desigualdade, as personagens não sabem que se inserem nisso e se mostram como indivíduos exemplares, são sempre nuançadas. Machado tenta criar a própria contradição nessas personagens que não percebem que estão adotando essa máscara social e que estão sendo traidores e sínicos. Essa é a marca que Bosi vai nos mostrar, a marca mais realista do Machado nesse momento da história. Era essa percepção do mundo capitalista e como os indivíduos viviam hipocritamente. Bosi vai chamar isso de uma transformação da moral nos sentimentos que encontra-se no romantismo, o amor acima de tudo, movido pelos sentimentos mais nobres mostrando a moral como triunfante. Moral capitalista que vence sempre o mais forte. Bosi afirma ser a obra mais realista porque o realismo do século XIX na Europa tinha esse propósito e estava embutido dessa ideologia, de uma sociedade desigual onde as pessoas fingem ter a moral do sentimento enquanto o mundo está agindo a partir da moral do mais forte. Bosi mostra as incongruências na literatura de Machado e como ele está preso a essa perspectiva realista que também o joga dentro dessa ideologia. Então, Machado vai afirmar que a luta capitalista pelo dinheiro e pelo status era uma das formas de sobrevivência. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é possível entender a perspectiva que vence aquele que está apto, que é terrível e injusta.
    Segundo Bosi, Machado possui em sua obra madura uma visão totalizante que é o realismo, o ser humano é naturalmente mal, diferente do que era o ser humano anteriormente. O mais fraco sempre perderá e o vencedor é aquele que seguir os seus desejos individuais. Os homens e mulheres mencionados na literatura de Machado quando não marcados pelo desejo de construírem-se como melhores e de garantir um lugar ao sol, são marcamos pelo desejo de sobrevivência. Bosi afirma que os contos também abrem espaço para outras possibilidades de leitura que é a fenda da máscara. Uma vez que não marcam em sua maior parte figuras esteriotipadas e unidimensionais o que distanciaria humanos de natureza.
    Quando Machado compõe contos cujo os personagens demonstram afeto, honestidade, bondade, para além das suas máscaras sociais, pode-se ver criticamente um fatalismo da natureza igual ao homem. Quando ele constrói esses contos percebe-se um fatalismo e é possível questionar o fatalismo dos contos.
    Machado de Assis parece ter lido na mesma imagem no mesmo ser natureza e sociedade, até na mesma expressão quando fala em cálculo da vida. Bosi enxerga o mundo não natural e tem a ver com uma posse de coisas por extensão das pessoas.
    O mal é percebido por Machado na estrutura social a maneira de possuir o outro. Nos contos “O caso da vara” e “Pai contra mãe” a escravidão é a posse do corpo do outro, é a posse da liberdade do outro, a posse é absoluta. O social impede pela vaidade de alguns ou pelas vantagens de posse de muitos, que todos possam exercer a sua natureza, porque a natureza nesse caso não era cruel, o que era cruel era a construção do social, que se dá por meio da palavra.
    A percepção de Machado no sistema escravista também colocado no conto “pai contra mãe” faz se perceber que as relações sociais não são comparadas as naturais porque constroem-se dificuldades que segregam e prendem os indivíduos a naturalização das desigualdades. Bosi diz que o bem estar de alguns finaliza na desgraça de outros.
    Existem dois níveis na escrita de Machado, o primeiro é o nível ideológico uma visão pessimista da história e da realidade presente. Como por exemplo “Memórias Póstumas de Brás Cubas” que vê o passado e o presente e não consegue ver o futuro pois está morto. Essa ideologia está presente no final do século XIX. O segundo nível seria o contra-ideológico, Bosi percebe que Machado não é um conformista, ele não está acompanhando a história e concordando. Ele transforma em expressão a percepção da esperteza, da opressão e os deixa escondidos na narração principalmente nos contos que aborda a escravidão e nos romances.

    Curtir

  33. Para Machado, em ‘O espelho’ a alma humana é difícil de definir e sem pretensão, sendo constante somente no papel social. No conto, a farda vitoriosa, permite a fixação da máscara. Somente nota a máscara da terceira pessoa quem já foi primeira pessoa e se olhou no espelho.

    Em D. Benedita a leviandade nos profundos sentimentos de amizade e de amor são necessários à sobrevivência social dela. Neste conto fica claro a quão superficial é sua alma. Com o aparecimento da fada Veleidade, a incoerência não chega a assumir os contornos necessários à construção do tipo. Nota-se que o narrador é analítico, com psicologia do sensismo. A personagem apresenta sensações de pouca intensidade, voltados ao seu capricho. Os segredos da alma ficam pendentes no acaso.
    A diferença entre as personagens Jacobina (O espelho) e D. Benedita são: ambos querem o prazer da sociedade, que persegue o interesse, isto é o que encontramos atrás da máscara deles. Há diferentes tons para este mascaramento, muitas vezes tecidas pelo acaso, maneira própria do ser, ou seja, um enigma. Nos contos existe uma convergência singular do ser universal do instinto e do interesse
    No conto ‘Verba Testamentária’, a desigualdade é o ponto central. A personagem Nicolau, nos deixa claro as diferenças sociais que existe no homem, quando detesta o mais rico, mais belo e etc. O desfecho do conto é tal que uma simples cobiça e ódio move Nicolau, sua inveja se torna visceral, desde criança já apresenta inveja de seus companheiros. Podemos assim dizer que o conto tem seu ápice quando Nicolau cada vez mais violento e irritável apresenta em contra partida um comportamento amável e doce com a população carente, a quem distribui mimos, há um desejo de compensar as desigualdades produzidas que a sociedade legitima. Deste modo as teorias machadianas estão cheias de anomalias escondidas no cotidiano social.

    Bem como Nicolau, o invejoso, Lúcifer, no conto ‘A Igreja do Diabo’, deseja mudar a ordem do mundo’ as virtudes sejam tidas por vícios e os vícios por virtudes.’ Deste modo o diabo deseja mudar os costumes que os humanos têm, dando alternativas malditas, suas ações aparecem de forma grotescas, nos fica claro que a desigualdade é algo universal e também fonte de dor e humilhação.

    Entretanto o contraste entre o bem e o mal cria uma certa demência ou culpa aos que não querem percorre-la. A forma contraria ao modelo dominando não significa paz e felicidade. A obra de Machado comporta esta ambiguidade de um mundo ora de um lado, ora do outro. Sendo o primeiro a estrada real, cinzenta e protegida, por sua vez a outra um beco de ilusão que leva a derrota e as irrisão.

    Se associarmos o caráter com pinturas há zona de luz e de sombras, que pode pender a um dos extremos como um processo natural. Em “Anedota pecuniária” apresenta um jogo da ética, dos bons sentimentos e a cobiça pelo dinheiro incentivada pela burguesia com suas posses. Machado diverte-se em minar o fetichismo da moeda refazendo os gestos da idolatria. O conto faz inferência ao mito de Midas, tudo que Falcão toca vira ouro, inclusive pessoas. Esta adoração ao ouro pode ser encontrada nos grandes romances de Machado como em: Quincas Borba, o Palha, o Escobar em Dom Casmurro.

    É comum encontrar esta mistura de luz e sombra nos contos Machadianos, a passagem de uma moral a outra e a consciência que isto implica. De um lado temos a moral dos sentimentos e das relações primárias, de outro a triunfante, ‘realista’ e utilitária. Estas mudanças podem ter sido de influência das relações econômicas e sociais Brasileiras, por consequência temos a modernização, a laicização e o aburguesamento dos valores, Machado ao perceber estas características típicas e densas da sociedade escreve sobre elas. O avanço do capitalismo e à moral da competição, são modos de agir entre defensivos e ofensivos, comparado a natureza darwiniana, amoral e inocente, atribuindo aos instintos a luta pelo status e dinheiro, corrida feroz ao poder, ou seja, os interesses imediatistas guiam as ações do homem. Contudo Machado não se apoia nos discursos naturalistas e científicos do tempo, moldando uma linguagem fatalista de origem Eclesiástica e dos cínicos, de Maquiavel, ou também, um naturalismo moral e politico que tende a aproximar dos instintos.

    Podemos afirmar que o ponto de vista do autor (anti-romântico) é extremamente perspicaz quando descreve e narra, ao mesmo tempo que abstrata na hora de interpretar o mundo dos homens. O leitor pode desmascarar sem aderir a metafisica da negatividade que ronda a sua obra.

    A uma paixão adolescente do jovem empregador pela filha do patrão no conto ‘Uns braços.’ Salvo que o enredo articula uma paixão, por sua vez o tema não é a paixão e sim o seu ocultamento. Conquanto que D. Severina beija Inácio, quando o mesmo dorme, este beijo fica apenas no sonho, pois Inácio não sabe que está sendo beijado pela amada, e a mesma, tão pouco sabe que Inácio beija-a nos sonhos. Por esta razão a paixão sempre se mantem secreta entre os dois amantes. A máscara da inocência protege-os do marido e de ambos. O desnível de pares é mais uma vez explorado por Machado marcados pela hierarquia econômica onde o amor que sentem jamais poderia se tornar real.

    Um dos últimos contos que escreveu ‘Evolução’ o protagonista faz uma carreira solida de deputado sem ideias, ou seja, acabou roubando a ideia em uma conversa casual que tem com o narrador da história. A estrutura pronominal do conto se dá em: tu-nós-eu. Em uma viagem Benedito em uma conversa banal ouve do companheiro elogios as vias férreas. Em outro momento, ambos se encontram em Paris, local onde Benedito viaja para seu insucesso eleitoral, a ideia volta que o Brasil necessita de linhas férreas para se desenvolver, mas agora com a expressão ‘nós dizíamos’. Por fim, no terceiro encontro, Benedito como deputado ao discursar, faz uso de primeira pessoa ‘dizia eu a um amigo.’ A ‘evolução’ de Benedito foi esta de se apropriar de algo e ao final do conto ter a posse do discurso do amigo. Esta apropriação põe em jogo o projeto da autoconservação.

    Todavia estas apropriações brilhantes no interlocutor servem para nos mostrar que as formas corretes podem ser mais sutis e vampirescas como os encontrados em alguns contos tais como: ‘O enfermeiro’, ‘Pílades e Orestes’, ‘A causa secreta’, ‘O caso da vara’ e Pai contra mãe.’ A natureza humana e a sociedade são levadas ao limite mostrando toda a sua crueldade.

    Nos contos ‘O caso da vara’ e em ‘Pai contra mãe’, o mal está no sistema escravocrata do Império, o pobre para sobreviver que te ser frio, obedecer às leis e etc. A vilania e a lógica de seus atos regem os protagonistas na luta da autoconservação. Ambas as personagens são livres, mas dependentes, estando apenas um único degrau dos escravos, usa-os indiretamente pois não podem comprá-los. De modos transversais entregam os escravos a fúria do senhor.

    Com a escravidão, a classe de operários assalariados é incompatível. Por sua vez, os poucos trabalhadores assalariados apesar de receberem pouco pelo serviço se sentem superiores aos escravos, deixando explicito sua baixeza de alma, de quem saiu da condição servil.
    No conto a sobrevivência das relações pai-filho, mãe-filho, depende do empecilho do oficio de Candinho, pois, se deixa Armida livre, perdera o sustento do filho, entretanto se a captura o filho de Armida é que está em perigo. O bem-estar de um traduz-se como desgraça do outro.
    Segundo Bosi há dois níveis de consciência produzido por Machado de Assis: O primeiro, ideológica, os instintos de conservação. O segundo, de nível de extração contra ideológica, oposta à realidade moral, a contra ideologia é notada no texto de Machado, quando tenta escondê-la. O pseudoconformista, no discurso burguês.

    O tom da violência é abafado, Machado consegue por outros meios desmascarar esta ideologia. Sem remorsos as histórias nos contam os enganos e autoenganos dos crimes que se fazem necessários, testando o pensamento conformista que sege a ordem social e da ordem natural, ambas ao se unirem formam a melhor ordem possível do mundo. Por sua vez a análise dos contos-teorias aponta o contrário: enquanto prática das relações sociais correntes, é produto da fraude que o poder exerceu para instalar-se e perpetuar-se. E a dicotomia selvagem de fracos e fortes reproduz-se no contraste civilizado de poderosos e carentes.

    Machado certamente não é revolucionário, mas tampouco é conformista, o narrador não narrar o sofrimento e crueza deste sistema. A razão machadiana ao mesmo tempo que denuncia camufla e mal encobrem fraturas reais da sociedade. Sua perspectiva em outras palavras é a contradição do terrorista que se finge diplomata. Contudo é necessário olhar para a máscara e no fundo dos olhos para assim entrever.

    Curtir

  34. No texto “A Máscara e a Fenda”, Alfredo Bosi analisa os contos de Machado de Assis abordando a dualidade do ser humano retratada nas personagens machadianas, de forma que a máscara a qual se refere é a máscara social, que, ao sobrepor a essência da personalidade de cada um, pode chegar até a apaga-la. Como exemplo, a personagem Jacobina do conto “O Espelho”, que ao ver seu reflexo sem a farda não consegue enxergar nada além de um borrão, uma vez que sem o seu papel social à mostra – sua máscara –, sua essência já não é mais existente.

    A dualidade presente na construção das personagens de Machado de Assis vai além do indivíduo, estando presente nas relações interpessoais, o que dá abertura para a análise que Bosi faz à crítica à desigualdade social existente nos contos machadianos.

    Tendo a máscara sido colocada sobre qualquer vestígio de individualidade do ser, se torna mais fácil para que estímulos externos – tais como vaidade, prazeres e o ávido desejo pela ascensão social – se tornem seus pilares de sustentação, uma vez que apenas os indivíduos que aceitam a máscara, e estão dispostos a ter sua essência completamente camuflada, tem uma chance de ascender socialmente, o que está profundamente atrelado com o declínio social de quem não veste a máscara, gerando, então, a criação dos loucos e marginais, que, por sua vez, tem uma certa individualidade e, por isso, estão à margem da sociedade.

    A dualidade dos contos vai além dos personagens, sendo a sociedade em si uma mistura de signos transparentes, que exprimem a realidade, e signos opacos, que exprimem uma realidade modificada pela palavra, de forma que a ambiguidade presente nos contos não provém apenas das personagens.

    Curtir

Deixar mensagem para Raítsa Coimbra Gabriel Cancelar resposta