(2º Semestre) Literatura Colonial – QUESTÕES AVALIATIVAS

Olá, alunos!

Seguem abaixo as duas perguntas sobre o “Auto de São Lourenço”, de Anchieta e o texto crítico de Bosi “Anchieta ou as flechas opostas do sagrado”. Peço que respondam até o dia 17/09. Bons estudos!

Thais

  1. A partir da leitura do segundo ato da peça, comente a afirmação de Alfredo Bosi sobre a literatura de Anchieta.

“A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi, mas uma terceira esfera simbólica, uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível.”

(BOSI, Alfredo.”Anchieta ou as flechas opostas do sagrado”, in Dialética da colonização. São Paulo: Cia das Letras, 2010)

  1. Comente como o mal é considerado por Anchieta na peça. Considere em seu comentário as reflexões feitas a partir da leitura de “Colônia, culto e cultura”.

47 comentários sobre “(2º Semestre) Literatura Colonial – QUESTÕES AVALIATIVAS

  1. Raul Corrêa

    Letras / UNITAU

    RA: 1 0 0 7 9 1 5 5

    /// 1 (primeiro ato)

    Alfredo Bosi destaca que a cristandade e as crenças indígenas se fundem em um sincretismo religioso e formam não uma representação cristã e nem uma representação indígena do sagrado, mas sim uma terceira e inédita forma religiosa.

    Ainda tratando da fusão dos mundos cristão-europeu e indígena-americano, na obra de Anchieta a língua torna-se um meio de assim introduzir o pensamento cristão, novos vocábulos na língua tupi e, quando não havia uma tradução satisfatória, uma nova palavra era inventada e assim ensinada aos índios. Assim, o Tupã indígena tornou-se o Deus cristão e outros vocábulos foram, por equivalência ou próxima semelhança, sendo estabelecidos.

    Além da fusão das línguas, houve também o choque de culturas distantes, não somente fisicamente, mas temporalmente. No Auto da festa de São Lourenço, Anchieta coloca em uma mesma peça demônios com nomes indígenas (Guaixará, Aimbirê, Saravaia, Tataurana, Urubu, Jaguaruçu, Caborê), dois personagens do antigo império romano (o imperador Décio e seu colega Valeriano) e elementos da cultura cristã (S. Sebastião – padroeiro do Rio de Janeiro – e S. Lourenço – que viera a se tornar o padroeiro da aldeia – e um Anjo da Guarda).

    Além dos personagens e da língua, o auto de Anchieta está repleto da dança e dos ritos indígenas. Embora que alguns elementos da cultura nativa fossem combatidos pelos jesuítas, outros eram inclusos nos autos como o canto, a música e a dança, visto que era de muito agrado dos indígenas. Anchieta utilizou-se dessas manifestações culturais para atingir o subjetivismo indígena e assim fazer com que eles entendessem melhor a mensagem cristã de salvação.

    A simplicidade dos diálogos, os elementos da cultura indígenas, o cenário, as personagens, seu modo de falar e o público alvo tornam a obra teatral de Anchieta singular.

    Importante também lembrar de que uma cosmo-visão nasceu a partir de fundir o mundo dos nativos da costa leste sul-americana e a cultura cristã ocidental dos ibéricos, resultando uma terceira esfera cultural. Um desses resultados foi o auto de Anchieta, que estudou anos a fio a língua e cultura da nação tupi, elaborando uma gramática da língua tupi (ágrafa), poemetos e canções em tupi, assim também como peças teatrais nas três línguas: português, espanhol e tupi.
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    /// 2

    Havia alguns vocábulos e ideias que não faziam sentido aos indígenas, por não constarem nem no seu dicionário interno ou cultura. Palavras como “pecado” e “inferno” (no sentido cristão) eram desconhecidas pelos nativos americanos.

    O caso do auto anchietano é o do apassivamento do espectador, da imposição de uma fórmula de legitimação hierática do poder. O teatro colonial foi, em termos absolutos, uma ferramenta de aculturação.

    Bosi procura sondar, através da estrutura linguística e rítmica dos versos de Anchieta, um processo maior da história da cultura. Para o crítico, o trabalho fundamental do poeta Anchieta começaria em moldar, no interior dos códigos tupis, uma “forma bastante próxima das medidas trovadorescas em suas variantes populares ibéricas”. Examina, a partir daí, as dificuldades do sistema de correlações culturais nas aproximações dos jesuítas aos índios. Conceitos mais ou menos abstratos para os cristãos, como o “reino de Deus” ou o “demônio”, são os que exigem do poeta-missionário um esforço de penetração no imaginário do outro, e geram uma nova representação do sagrado que não é mais teologia cristã nem crença tupi: surgiria assim uma “terceira esfera simbólica, uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornou possível.”

    Alfredo Bosi enxerga as bases de uma nova historiografia na qual as expressões simbólicas se abrem para dimensões existenciais e culturais mais amplas.

    A relação entre literatura e sociedade não é mera dependência: é uma relação complexa, de dependência recíproca e interdependência dos fatores espirituais (ideológicos e estilísticos) e dos fatores materiais (estrutura social e econômica).

    “O Brasil nasceu sob signo barroco”, afirma o historiador Nicolau Sevcenko. “A fisionomia e alma brasileiras foram compostas por esse sopro místico. Ele não foi um estilo passageiro, mas a substância básica da síntese cultural do país.” Para Sevcenko, há marcas “latentemente barrocas” na identidade brasileira, no catolicismo popular em especial, como “extremos de fé, ilusão de grandeza, exaltação dos sentidos, êxtase de festa, pendor pelo monumental, convivência com disparidades e compulsão de esperança”.

    O nosso primeiro e decisivo estilo artístico e literário foi o Barroco. É contemporâneo dos alicerces mais antigos da sociedade e da cultura brasileira, ou seja, da formação da família patriarcal nos engenhos de cana de Pernambuco e da Bahia, da economia apoiada no tríptico monocultura—atifúndio-trabalho escravo, bem como dos primórdios da educação brasileira, nos colégios jesuíticos. Daí decorre sua importância, e, também, as projeções que esse período tem nos períodos subsequentes, até os nossos dias.

    Na permanente neblina ideológica brasileira, nossos comunistas são meio capitalistas, nossos capitalistas são meio socialistas, nosso racismo não é bem racismo, nossos corruptos são até pessoas boas, nossos doutores são iletrados, nossos iletrados são gênios, nossos brancos são meio negros e nossos negros são meio brancos, nossos bandidos são mocinhos, e os mocinhos, bandidos, nossa esquerda é claramente de direita, e a direita jura que é de esquerda, o mundo privado é estatizado e o Estado é privativo, nossos diminutivos e aumentativos são sempre afetuosos, e isso meio que desde sempre —até os integralistas eram só metade nazistas, nossos estalinistas foram legais, e, perto dos outros, os nossos ditadores foram quase meia boca.

    Pode-se dizer que o eixo principal da formação do Brasil moderno é a passagem da sociedade escravista e da herança colonial, com todo seu peso negativo, justo para uma sociedade urbana de classes. Para usar aqui uma expressão de Octavio Ianni, são as ‘metamorfoses do escravo’, muito bem resumidas, ao modo dialético, naquele samba de enredo da escola de samba Mangueira, em que o negro está “livre do açoite na senzala”, mas “preso na miséria da favela”, ou seja, não houve uma efetiva superação do atraso e do peso da herança colonial e escravista, apenas uma combinação diferente na relação entre arcaico e moderno no Brasil. Combinação complexa e contraditória, difícil de pensar, mas que está bem resumida na formulação de Roberto Schwarz: “a reprodução moderna do atraso”.

    Assombra uma frase de Millôr Fernandes. “O Brasil tem um enorme passado pela frente”. Aí pega fogo no museu, 200 anos de trabalho e boa parte dos 20 milhões de itens viram fumaça, literalmente —e parece que nem o passado, mais, nós temos.

    O presente é um cadafalso que se abre sob nossos pés todos os dias —só para descobrirmos que embaixo tem uma guilhotina e diante há um pelotão de fuzilamento. E então o passado arde em chamas.

    É como se, não bastasse a pilhagem das quadrilhas de terno ou fuzil, enormes traças metafísicas estivessem roendo o país. Como se em qualquer manhã dessas nós fôssemos acordar e perceber uma estranha poeira no chão. Então tocaremos a parede e compreenderemos que ela está se esfacelando.

    Todas as paredes. E também as árvores. E o coqueiro que dá coco. E as aves que aqui gorjeiam. E nossos rostos faceiros. E nossos corpos inzoneiros. E até o fim da tarde tudo terá virado pó. E o pó será levado pelo vento. E o Brasil nunca terá existido.

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  2. Raul Corrêa

    Letras / UNITAU

    RA: 1 0 0 7 9 1 5 5

    /// 1 (segundo ato)

    De acordo com Alfredo Bosi, a lírica-sacra de Anchieta pertence a um tempo histórico e psicológico particular, “o tempo da pessoa que escolhe aceitar ou recusar o amor de um Deus pessoal e entranhadamente humano.”

    O segundo ato traz a tradicional luta dos autos de moralidade entre o Bem e o Mal, sendo o Bem os ensinamentos dos padres e seus aliados e o Mal a cultura antiga defendida pelos inimigos dos padres – no caso, os índios tamoios, os pajés, velhos e velhas que não obedeciam aos padres, entre outros.

    Nesse ato entram três Diabos que querem destruir a aldeia: Guaixará, que é o rei, Aimbiré e Saravaia, seus servos.

    Anchieta caracterizou como diabos figuras históricas de chefes tamoios que eram guerreiros, mas que no teatro queriam destruir as aldeias, não belicamente, mas com pecados. Aqui entramos em contato com a “materialidade” dos vocábulos ‘diabos’ e ‘pecados’, para os cristãos, entrando em confronto com a cultura e religião indígena que parece não conhecia nem diabos tampouco pecados. A transformação dos chefes tamoios Aimbirê e Guaixará inimigos dos temiminó, habitantes da grande aldeia de São Lourenço, prováveis espectadores dessa peça, tem fins pedagógicos evidentes. Embora não houvesse diabos na cultura indígena, havia os temidos anhangás, espíritos maus que circulavam pela mata encarnados em animais ferozes e que eram o terror dos índios.

    Guaixará e Aimbirê se descrevem como animais da floresta: grande gavião, onça, morcego, jibóia, socó, sucuri, tamanduá; Aimbirê se apresenta como grande Tamoio e os dois se dizem os anhanga: ‘diabos’. Não seria por acaso, então, que Anchieta caracterizou essas personagens como animais ferozes das matas.

    Vê-se, então, que fazer uma arqueologia das palavras ditas recobertas com camadas de interferências daquilo que se gostaria que fosse dito pode revelar, ainda que com muitas lacunas, as implicâncias que os encontros entre língua e cultura autóctone e ensinamentos cristãos podem ter provocado. O que Anchieta pretendeu ao adaptar para diabo o vocábulo anhangá, certamente, foi aproveitar o temor que os índios tinham pelo anhangá, mantendo, portanto suas características de espíritos encarnados em feras da selva, para derrota-los em cena. Certamente, o efeito didático de derrotar em cena os anhangás, Aimbirê e Guaixará, para o espectador indígena, era bem mais interessante do que derrotar o diabo, que não fazia parte de sua cultura e de suas crenças.

    Ao colocar em cena essas personagens que são ao mesmo tempo chefes tamoios e diabos/anangás e derrota-los no final do ato, Anchieta ensina aos espectadores, sobretudo indígenas, que aqueles que se converterem ao cristianismo, viverem segundo a moral cristã, estarão protegidos não somente dos cruéis tamoios naquele aldeamento, como também dos diabos/anhangás.

    No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as últimas consequências. Essa violência sexual colonial é, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades […] através da qual, segundo Gilliam: “O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional; a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance”. […] São suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. Sabemos, também, que em todo esse contexto de conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor.

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  3. 1. Considerando o cenário da colonização e os interesses que rondavam a mesma o objetivo de catequização indígena era barrado por conta das crenças, católica a tupi, serem extremamente distintas. Os índios não poderiam conceber a ideia de um Deus que o catolicismo retratava e nem seus pecados ou o próprio inferno.
    Quando Bosi fala da crianção de uma 3ª esfera simbólica e ao analisar o 1º e 2º ato do Auto de São Lourenço, compreende-se a inteligência de Anchieta que, para atingir seu objetivo de catequização, cria a obra literária que estaria próxima da realidade do povo indígena, pois os nomes dos Deuses e de grandes guerreiros, os ritos e a cultura do índio está retratada na obra, contudo de uma maneira completamente endemoniada. É uma critica explícita à vida indígena, com o objetivo de fazê-los compreender que a maneira como viviam, aos olhos portugueses, estaria completamente errada e dessa maneira o objetivo jesuítico poderia ser alcançado.
    Sendo assim, a afirmação de que “a nova representação do sagrado não era nem a teologia cristã e nem a crença tupi”, é entendida como imparcial, pois fundiu-se ambas as crenças no Auto na visão portuguesa-colonialista criando uma terceira esfera simbólica para atingir o fim católico dos portugueses.

    2. Relacionando o conceito de mal para Anchieta e o texto de Bosi, é claramente possível enxergar a caracterização do mal a partir de toda cultura indígena. Começando pelo fato do nome dos demônios da obra terem todos nomes dos guerreiros indígenas que lutaram na resistência contra os portugueses e carregarem características animalescas em sua personalidade, que é muito comum na cultura indígena, pois eles atribuem a si mesmos as características que consideram boas dos animais, como força e sabedoria. Anchieta, em sua obra, quer convencer os indígenas dos “vícios”, considerado por ele, de sua cultura através da crença animista que, com sua descrição cheia de más intenções, como considerar a cobra ou gavião como animais perversos, cria a imagem do mal.
    Anchieta também traz em sua obra a demonização da bebida comum entre os índios, a pintura corporal e as danças que são todos elementos básicos do culto e da cultura indígena, os “demônios” instigavam a população a beber, se pintar e dançar e dessa maneira a ideia de que tudo isso era criado pelo mal era instalada ao povo indígena.
    A obra toda é baseada na questão colonizadora: a ideia de mal, do que é errado, do vício e do pecado. Para atingir seu objetivo de catequizar para colonizar Anchieta usou o que os índios conheciam, sua cultura e a vida que conheciam para fazer com que eles renegassem a própria crença.

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  4. 1. Em “Linguística e comunicação”, Roman Jacokbson diz que um ato comunicacional parte de um remetente, ao enviar uma mensagem, para um destinatário. Essa mensagem, por sua vez, necessita de um contexto que seja compreensível a quem se fala – verbal ou suscetível de verbalização, ou seja, “um código total ou parcialmente comum ao remetente e ao destinatário” (JAKOBSON, 2010, p. 123).

    José de Anchieta, enviado ao Brasil para cristianizar os índios das terras recém “descobertas”, aprendeu e catalogou a língua tupi não só para facilitar a compreensão da mensagem, como também para garantir o processo de aculturação daqueles povos. Por meio da função conativa da linguagem, diz Fiorin (2015, p. 20), é possível “influenciar e ser influenciado”, afinal. De acordo com Bosi (1994, p. 31)

    “o jesuíta aguilhoado pelas urgências da missão precisou mudar de código, não por motivos de mensagem, mas de destinatário. O novo público e, mais do que público, participante de um novo e singular teatro, requer uma linguagem que não pode absolutamente ser a do colonizador.”

    A concomitância, dessa forma, da língua tupi e do português na obra de Anchieta destinada aos indígenas não refere-se à estética literária ou ao desejo de estabelecer uma comunicação recíproca entre remetente e receptor. Sobre isso, Bosi ressalta que a obra do jesuíta cumpre função pedagógica ao “empregar ora o português, ora o tupi, conforme o interesse ou o grau de compreensão do público a doutrinar” (BOSI, 2017, p. 23). Ao conhecer a cultura do dominado é possível tomá-la para si, transformá-la e submetê-la.

    É concebível interpretar, portanto, considerando o segundo ato de “Auto de São Lourenço”, que a mitologia a que se refere Bosi é resultado da convergência de crenças, que – no caso das missões jesuíticas – são intencionalmente colocadas em contradição, por meio da linguagem, para o cumprimento do propósito colonizador. Esse processo caracteriza-se pela glorificação da teologia cristã ante a demonização das crenças indígenas.

    Guaixará, o rei dos diabos, diz que “valente é quem se embriaga e todo o cauim entorna, e à luta então se consagra”. E mais:

    “Quem bom costume é bailar!
    Adornar-se, andar pintado,
    tingir pernas, empenado
    fumar e curandeirar,
    andar de negro pintado.”

    Infere-se, a partir das passagens, que os costumes indígenas são sempre enaltecidos e incentivados pelos três demônios. A proteção da aldeia, por sua vez, cabe aos santos cristãos. O “martírio” de São Lourenço, narrado no primeiro ato, tem estreita relação aqui. No cristianismo, martiriza-se quem se sacrifica pela fé. Como descrito nos versos:

    “Se com ódio procurais
    tanto assim prejudicá-los,
    não vou eu abandoná-los.
    E a Deus erguerei meus ais
    para no transe ampará-los.

    Tanto confiaram em mim
    construindo esta capela,
    plantando o bem sobre ela,
    Não os deixarei assim
    sucumbir sem mais aquela.”

    Dessa forma, as figuras de São Sebastião e São Lourenço agem como o caminho da salvação daqueles povos, já que a condenação de Guaixará, Aimbirê e Saravaia é também a supressão das manifestações culturais indígenas.

    2. O mal era constituído por elementos que compunham as crenças e as manifestações culturais indígenas, caracterizadas pelo culto aos antepassados, pela antropofagia, pela poligamia, pela íntima relação com a natureza, etc. Para além da opressão necessária ao processo colonizador, essas práticas também eram condenáveis pela Igreja, que, durante a Inquisição nas Idades Média e Moderna, perseguiu qualquer atividade ligada ao misticismo, entre outros comportamentos considerados imorais – ou hereges.

    Nas cerimônias de cauinagens, por exemplo, elucida Bosi (1994, p. 69), era comum o conjuro de espíritos. A antropofagia, por sua vez, era praticada com o objetivo de absorver a alma dos inimigos e, dessa maneira, aumentar a força de quem o fizesse.

    Em “Auto de São Lourenço”, uma das formas de salientar o “mal” é animalizar os demônios. No cristianismo, a figura da serpente é comumente usada para esse fim. A corruptora de Eva, que sucumbiu ao fruto proibido.

    “GUAIXARÁ

    Sou Guaixará embriagado,
    sou boicininga, jaguar, antropófago, agressor,
    andirá-guaçu alado,
    sou demônio matador.

    […]

    AIMBIRÊ

    Sou jibóia, sou socó,
    o grande Aimbirê tamoio.
    Sucuri, gavião malhado,
    sou tamanduá desgrenhado,
    sou luminosos demônio.

    Como já explorado na primeira questão, esse processo de construção de um imaginário antitético – bom vs. mau, santos vs. demônios, teologia cristã vs. crença tupi – exigiu de Anchieta a criação de um sagrado mitológico, adaptado cultural e linguisticamente. Exemplifica Bosi (1994, p. 65)

    “Para qualificar esse [antropofagia] e outros rituais Anchieta forjou o termo angaipaba, composto, segundo a análise de Maria de Lourdes de Paula Martins, de ang (alma), aíb (má) e aba (sufixo nominal), algo que soava como coisas da alma perversa, com que o missionário reificava a noção de pecado tornando assim mais visível o objeto da sua execração.”

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  5. 1) A afirmação de Bosi diz respeito à terceira esfera simbólica resultante da fusão entre crenças católicas e tupis, criada por Anchieta a partir de seu objetivo de introdução da mensagem católica aos nativos por meio da utilização de palavras portuguesas com significados semelhantes a termos na língua tupi, produzindo textos nesse idioma, e também transformando os costumes indígenas à hábitos não aceitos pelo catolicismo.
    Por exemplo, quanto à esfera estrutural e a relação entre termos, utilizava-se “bispo” com o mesmo significado de “Pai Guaçu” – que já era do entendimento dos nativos – e a construção dos textos sagrados que Anchieta produzia era baseada em poemas, ou seja, as palavras eram tupis, mas o ritmo, os acentos e todo molde era português.
    Já em relação aos costumes, percebe-se a tentativa de catequização dos nativos no Auto de São Lourenço com a apresentação de hábitos indígenas – como a antropofagia e o consumo de caium – que são colocados e entendidos como vícios e pecados.
    A partir dessas afirmações, pode-se dizer que não somente foi criada uma terceira esfera simbólica, como também foi imposta por esse processo de aculturação presente na situação colonial.

    2) O mal era caracterizado por Anchieta como o que é oposto à ordem e algo ligado ao corpo, presentes na própria cultura indígena que abrangia a antropofagia, poligamia e embriaguez pelo caium – uma vez que “espírito” e “corpo” para os nativos não havia distinção – citadas por Alfredo Bosi em seu texto “Colônia, Culto e Cultura” como os “maus hábitos”.
    No Auto, além dessas características, existem as representações desse mal: os demônios. Essas figuras são descritas e reconhecidas como guerreiros animalescos, que também fazem parte da crença animista indígena, que é composta pela percepção das coisas na natureza, sendo algo positivo para eles. Os próprios nomes dos demônios retratados Auto são indígenas, sendo estes de chefes de rebeliões contra os portugueses, e assim percebe-se o objetivo de desconstrução do conceito dos nativos e criação, por meio do catolicismo, de um novo conceito de mal pautado em uma ideia construída a partir de seus “maus hábitos”, transformando-os em pecadores.

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  6. 1. Por conta da quase dificuldade de comunicação entre os jesuítas e os indígenas que aqui viviam, foi necessária a criação de, como diz Bosi, uma terceira forma de expressão religiosa, que seria o resultado da junção entre elementos da Igreja católica com elementos da crença tupi, facilitando a catequização dos índios. Na obra de Anchieta são apresentadas personagens com elementos de ambas as crenças, e, ao analisar o segundo ato, pode-se perceber que a cultura e a crença indígena são descritas como atos de pecado, e os índios precisam, portanto, de salvação, que seria provida pelos jesuítas. Essa 3ª esfera simbólica de que fala Bosi seria a maneira que os jesuítas encontraram de se “conectar” com os indígenas, que por sua vez não conseguiam entender os conceitos católicos de pecado, Deus, céu e inferno. Por meio dessa conexão entre as crenças, a catequização dos indígenas se tornaria mais fácil.

    2. O mal presente na obra de Anchieta era caracterizado pela própria cultura indígena e seus costumes. A começar pelos demônios, nomeados a partir de guerreiros indígenas que foram líderes da rebelião contra os portugueses. Esses demônios carregavam em seus títulos nomes de animais selvagens, atribuindo a eles características animalescas, demonizadas pelos católicos. Na obra também são mencionadas as formas de expressão cultural indígena, como as danças, as festas, as pinturas corporais, e a bebida caium. Todas essas formas de expressão ligadas ao corpo são demonizadas na obra de Anchieta, uma vez que todas elas são incitadas e influenciadas pelas personagens dos demônios. As descrições desses demônios têm como base as características não só animalescas, mas as de guerreiros indígenas, como se quisesse dizer que a forma de resistência e luta dos povos era uma influência demoníaca, um pecado a ser erradicado.

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  7. Questão 1: Ao evangelizar os indígenas, Anchieta moldou uma nova representação do Sagrado, introduzindo elementos da cultura Tupi à Religião Cristã, que deveria ser propagada com o intuito de torna-la mais assimilável aos grupos indígenas. No primeiro ato, a religião católica é apresentada como o único meio de redenção humana, em contrapartida, os elementos típicos da cultura indígena, como o exemplo da bebida e da pintura corporal, eram considerados vícios e pecados e portanto, deveriam ser combatidos.

    Questão 2: Para Anchieta, o mal estava personificado na figura de três demônios: Guaixará, o líder e seus criados, Aimbirê e Saravaia, que estão inseridos no contexto da aldeia indígena. No inicio do segundo, Guaixará diz:

    ” Para isso
    com os índios convivi
    Vêm os tais padres agora
    prá que duvidem de mim
    Lei de Deus que não vigora.”

    Isso revela uma visão que tenta associar a cultura indígena a uma figura maligna em decorrência da ausência do Deus católico no local e da considerada única forma de salvação. Algo similar ocorre no trecho do Peregrino da América, abordado no texto Colonia, Culto e Cultura, no qual o Peregrino relaciona os ritos africanos e a prática do Calundu à figura do demônio, revelando novamente a visão do colonizador que julga as práticas dos índios e negros, considerando-as erradas em relação à sua própria e tomando os pontos positivos dessas outras culturas como pecados.

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  8. 1. Com a leitura do segundo ato, é notável a relação com o modo de colonização feita pelos portugueses contra os índios, ao expor os deuses tupis como demônios ou seres corrompidos durante a catequização do povo indígena. E é essa nova categorização da apresentação do sagrado que Bosi se refere com a terceira esfera simbólica; a forma hibrida de se comunicar e catequizar usando simbologia do povo e todo um sentido religioso agregado, é a tomada da ideia dos guerreiros com seus espíritos animais e destorcer sua função cultural heróica. Sendo uma condição propiciada apenas pela colonização, uma vez que esse método de compreensão esta empregado especificamente para doutrinar como bem entende uma sociedade.

    2. Na escrita perspicaz de Anchieta se encontra sua categorização do mal, as manifestando através da cultura indígena, a apresentando como pecaminosa. Os índios acreditavam que o corpo e alma eram um só, se embriagavam, praticavam poligamia e cultuavam vários deuses, tudo isso era repudiado pelo catolicismo que logo na catequese tomou como tarefa “salvar essas almas da perdição” e pregar seus costumes, começando com a noção de pecado que não era vista na crença tupi, e era até então uma idéia apenas européia; no auto se faz presente essa forma de introduzir a cultura portuguesa com os demônios, que possuem nomes de rebeldes tupis alterando o que seus guerreiros significavam para o povo, apoiando a consolidação da catequese dos indígenas.

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  9. Questão 1: A terceira esfera simbólica a que Bosi se refere diz respeito à fusão da crença indígena e da teologia cristã atendendo às conveniências portuguesas! Dessa maneira a catequização dos indígenas seria feita mais facilmente, uma vez que seriam usados na evangelização elementos da fé nativa para persuadí -los a seguir um novo modo de vida!
    O sistema colonial, que teve como base a opressão e apropriação de nativos e negros, foi palco para repressão e inibição da cultura tupi. O discurso de salvação por meio do auto sacrifício foi amplamente proclamado e inserido no pensamento indígena. O medo, como instrumento de controle, serviu para compelir a liberdade e a cultura dos nativos.” Sempre uma cultura (ou um culto) vale -se da sua posição dominante para julgar a cultura ou o culto do outro.”

    Questão 2: A dominação ideológica portuguesa alterou a cultura indígena imprimindo neles uma nova identidade. Os portugueses, por meio da colonização, apropriaram -se de costumes, crenças e impuseram seu ponto de vista como o único certo. Tem -se como exemplo, o auto de São Lourenço que mostra as bebidas típicas dos indígenas e suas pinturas como vícios. Esse pensamento é baseado na crença européia de que o mal está ligado ao corpo e próximo também do animal.
    Os nomes dos demônios eram, na verdade, nomes de chefes indígenas das rebeliões contra os lusitanos. Muitos hábitos dos nativos foram demonizados e ,por assim entitulados, reprimidos.
    A dominação portuguesa não abriu espaço para a liberdade em nenhum aspecto, como se pode observar nas seguintes frases no livro do Bosi : “O olho do colonizador não perdoou, ou mal tolerou, a constituição dodiferente e sua sobrevivência!” ;”A colonização retarda, também no mundo dos símbolos, a democratização.”

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  10. 1. A partir da leitura do segundo ato da peça, comente a afirmação de Alfredo Bosi sobre a literatura de Anchieta.
    “A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi, mas uma terceira esfera simbólica, uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível.”
    (BOSI, Alfredo.” Anchieta ou as flechas opostas do sagrado”, in Dialética da colonização. São Paulo: Cia das Letras, 2010)
    O Portugueses, a exemplo dos povos de outrora (tal qual os romanos), sabiam que a colonização demandaria abordagens de todas as formas possíveis, e assim a imposição de uma Língua, de uma Religião e de uma Cultura eram alguns dos meios mais eficientes. Deve-se considerar que embora houvesse uma espécie de acordo e apoio mútuo entre a Coroa Portuguesa e a Igreja (Judaico-Cristã, Ocidental-Europeia), ambos possuíam interesses quase distintos, a primeira desejava principalmente o reconhecimento, a conquista, a exploração de terras e recursos, e a posterior dominação dos gentis, enquanto que a segunda, abalada por Calvino e Lutero, pretendia a reafirmação e a propagação da Fé Cristã. Soma-se a isso um contexto histórico-social em que predominavam a distância e o isolamento, o conceito errôneo de sociedade desenvolvida, baseada em moldes europeus, capitalista e, que, portanto, o que era diferente era subjugado e necessitava intervenção.
    Anchieta um homem religioso e ilustrado, preocupou-se e ocupou-se em estudar e aprender sobre a Língua e a Cultura dos gentis, alternando entre a imposição violenta do novo, e a amenização pelo uso ou transformação da Língua e Cultura gentis. Por exemplo, foi Anchieta quem organizou e transcreveu o que se considera ser a primeira Gramática Tupi, lembrando que os gentis eram ágrafos, isso foi um dos fatores decisivos para os propósitos do missionário. Importante ressaltar que o processo mais comum era traduzir de uma língua para outra e a utilização de exemplos pré-existente em ambas…porém, nesse caso especificamente, havia obstáculos inéditos a serem superados, pois, como os povos e culturas eram alheios, diferentes… por exemplo, os gentis eram politeístas, sua comunicação com o divino era direta, eles não sabiam o que era o pecado, o céu , o inferno e outros ritos…Era preciso antes de tudo, criar condições e inserir esses conceitos, permear e introduzir os gentis nessa ideologia cristã, um sincretismo somente permissível à época. Anchieta cria então uma terceira esfera simbólica, permeada pela Teologia cristã e a Mitologia Tupi. Percebe-se com isso e com os demais fatos envolvendo os portugueses, os missionários e os gentis, a relação de culto, cultus e cultura aos quais Alfredo Bosi se refere em seu texto “ Colônia, Culto e Cultura.

    2. Comente como o mal é considerado por Anchieta na peça. Considere em seu comentário as reflexões feitas a partir da leitura de “Colônia, culto e cultura”.
    A representação do mal corresponde a tudo que é contrário aos preceitos portugueses e cristãos ou que a esses causam temor. Nota-se que a escolha de nomes indígenas e de animais, utilização de referências ligadas ao corpo físico, aos ritos antropofágicos e de utilização de fumo e bebida. A existência de um DEUS trino e único, a dicotomia do bem e do mal, da salvação e da condenação, o temor e a devoção, o sofrimento e a purificação e outros preceitos e ritos… Anchieta em seu texto exemplifica e condena os vícios e enaltece o sagrado, na concepção judaico-cristã ocidental-europeia…também presentes no texto de Bosi citado anteriormente e ao longo da Dialética da Colonização
    Douglas de O. Fróes

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  11. 1. Para que a catequização dos índios se tornasse possível, o Padre Anchieta, no Auto de São Lourenço, funde a religião católica com as tradições indígenas, atribuindo aos personagens dos demônios na peça os costumes tupis, como a bebida e a pintura corporal, tratando-os como vícios e pecados, colocando, assim, a religião católica como o sagrado e a única maneira de redenção, criando, então, a terceira esfera simbólica da qual Bosi fala.

    2. No Auto de São Lourenço, os demônios são apresentados com nomes tupis e com costumes indígenas, numa tentativa de associar a figura indígena ao demonizado e ao animalesco, o que também pode ser visto no texto Peregrino da América de Colonia, Culto e Cultura de Alfredo Bosi, no qual os ritos africanos do Calundu são associados à figura demoníaca, novamente mostrando que, para a figura do colonizador, apenas a religião católica é o sagrado, tendo os costumes de outros povos como pecado.

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  12. Questão 1:
    Tendo em vista ,a situação colonial e todos os interesses que circulavam , juntamente com a catequização dos índios ,é possível dizer que a 3º esfera simbólica nada mais é do que uma fusão de crenças religiosas .Onde Anchieta usa o didatismo para relacionar e influenciar os índios ao catolicismo . Usando como argumento ,que os vícios como o consumo do cauim eram pecados,também utiliza a mistura da crença animista ,com uso de imagens de animais demonizados ,animais selvagens que tinham valor simbólicos para os guerreiros .ou seja usava das crenças indígenas para impor o catolicismo ,para além de catequizar-los também coloniza-los . Questão 2: Anchieta transmite e justifica-se a essência maligna de um Deus pagão ,atribuindo-lhe características visuais de impacto direto para os indígenas .caracterizando a própria cultura indígena como pecado ,e a criação de demônios ,que eram nomeados a partir de nomes de guerreiros que lideraram rebeliões contra os portugueses .Demônios no qual traziam consigo títulos em seus nomes , segundo alguns animais selvagens que eram vistos pelos católicos como criaturas demonizadas .Além da criação dos tais demônios ,a Obra de Anchieta critica a cultura dos indígenas , expondo as as danças ,festas, ,pinturas corporais e até mesmo algumas bebidas típicas ,como pecado ,pois nesses festejos os indígenas eram influenciados pelos demônios para cometerem pecados .

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  13. 1-)No segundo ato do “Auto de São Lourenço” a fusão das cultura indígena com a cristã gera a terceira esfera a qual Bosi se refere, pois se fazia necessária a adaptação da teologia cristã para a cultura indígena, para que assim se tornasse algo compreensível aos indígenas, com a finalidade de supostamente “salva-los”.
    Os principais aspectos que se usufruem é a associação e a transfiguração dos seres da crença cristã, como por exemplo os anjos e Santos, para a cultura indígena.Exemplo disso é a associação da Tupan-sy, mãe de Tupan Deus do trovão, à Nossa Senhora, fazendo assim um tributo a ela.E outro exemplo disso é a criação do Karaybebé, que seria o anjo na cultura cristã, para o entendimento dos índios sobre os mesmos.
    Lembrando que, assim como Bosi fala, essa esfera só foi possivel por conta da situação colonial, através de toda sua crueldade e afins.

    2-)O mal foi caracterizado por Anchieta por meio da vulgarização da cultura indígena e de seus costumes.Um dos costumes indígenas o qual é fortemente banalizado é a animalização, a descrição de sí mesmo como um animal, algo que os três diabos fazem quando se apresentam (Guaixará, Aimbirê e Saravaia), algo que guerreiros indígenas costumavam fazer.E além disso Vale ressaltar o fato que os três nomes anteriormente citados eram de indígenas os quais promoveram rebeliões contra os portugueses.
    Outro costume o qual é caracterizado como mal é os quais se referem ao corpo, ao prazer, exemplo disso é os três seres já citados incitarem os índios a apenas beberem (Cauim bebida tradicional indígena) e festejaram sem nenhuma preocupação.

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  14. 1 A “terceira esfera simbólica” referente às crenças do europeu colonizador e do nativo colonizado, de que fala Bosi, fica evidente nas obras de Anchieta: não há apenas uma ou outra fé, mas uma junção dessas. Visto que era necessário que houvesse a compreensão e clareza dos índios sobre os seus ensinamentos, Anchieta – para catequizar – utiliza-se de ambas as crenças e linguagens entre eles. Sendo o primeiro a aproximar-se dos nativos através do tupi.
    Aculturar também é sinônimo de traduzir (BOSI, Alfredo. ”Anchieta ou as flechas opostas do sagrado”, in Dialética da colonização. São Paulo: Cia das Letras, 2010) e o padre efetivava isso em suas alegorias para inserir a sua cultura na dos demais.
    Por meio de peças teatrais, recurso para ensinar e persuadir os indígenas, o padre apresenta o que se pode considerar um novo escopo linguístico e imaginário: com o sincretismo cultural, surge uma linguagem que não é nem Tupi, nem Portuguesa. Surge uma crença que, flexibilizada não se caracteriza como jesuíta ou ameríndia. Nesse processo, se concretiza um pensamento profano da cristandade que complementa a aculturação da crença tupi para, juntas, servirem de convencimento à conversão dos “selvagens”. No segundo ato de O Auto de São Vicente, o novo escopo aparece mediante o confronto de demônios e anjos e, além das citadas alusões culturais, que configuram o sincretismo, outros elementos, como danças, costumes, cenários são descritos para construção do imaginário indígena.

    2 Na peça, essas alusões culturais são postas em referência ao mau, tudo que é mau é alegorizado com as noções da crença tupi: a embriaguez com caium, o fumo, a antropofagia, a poligamia, entre outras. As crenças, ao mesmo passo que são quiméricas, cindem-se, chocam-se, numa tentativa de reforçar uma superioridade do Deus católico em detrimento do Deus Tupã. Isso se comprova na narrativa quando São Lourenço e São Sebastião representam o bem, enquanto aqueles que personificam o mau (a luxuria, o exagero, os desejos carnais, etc) são denominados de Guaxara, Aimbirê, Saravaia, Tataurana, Urubu entre outros nomes originados dos indígenas. Há também “a velha” personagem que faz alusão aos anciãos, símbolos importantes na cultura deles. Numa outra perspectiva Anchieta também relaciona os maus espíritos e demônios à guerra, marcando sua narrativa com todo o contexto histórico do período.
    Não obstante, com as reflexões feitas a cerca de Colônia, Culto e Cultura, O Auto de são Lourenço evidencia que o domínio do colo, da terra, desta que os índios ocupavam e os colonizadores apossaram-se, implica na dominação do Cultus, o espiritual, as crenças e culturas resultantes dessa terra. A obra do padre Anchieta revela de maneira clara, como a relação entre os colonos e os colonizados é marcada pela aculturação, pela imposição e pelo poder, mas que apesar da inferioridade e atrocidades as quais foram submetidos os ameríndios, resultaram na diversidade étnica e cultural que carregamos e -ainda- por essa resistimos.

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  15. 1) A terceira esfera simbólica descrita por Alfredo Bosi como uma “mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível” refere-se à criação literária feita por Anchieta pautada na Teologia Cristã e na Mitologia Tupi (processo esse que só é possível a partir da colonização, pois é ai que se dá o contato de duas culturas distintas), unidas através de um sincretismo religioso, que tinha por finalidade propagar a fé cristã, catequizando os índios por meio de um processo de aculturação. Tal processo é feito de maneira que se possa persuadir os índios, utilizando palavras portuguesas com significação semelhante à língua Tupi e também da transformando a mentalidade indígena em relação a seus costumes e crenças, de modo que ao retratar hábitos e costumes não aceitos pela religião católica se utilizem nomes e referências da cultura indígena.

    2) O mal é considerado por Anchieta tudo aquilo que contrário a fé católica e a seus ensinamentos. No decorrer do texto percebe-se que a antropofagia, a poligamia e todos os vícios ligados a carne são vistos como algo totalmente errado e pecaminoso, sendo considerados “maus hábitos” como é retratado por Bosi, mas para os índios além de algo cultural não é algo de fácil compreensão já que para eles a alma e o corpo são uma só coisa.
    Além da caracterização do mal por meio dos hábitos, gostos e crenças, o mal é representado por meio da personificação de demônios, que num diálogo muitas vezes com ideias indiretas e satíricas, se remetem a nomes, gostos e culturas próprios da cultura indígena somente para denigrir, pois não são aceitos pela religião católica.

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  16. 1 – Bosi afirma que a 3° esfera se dá na fusão do cristianismo com o indígena, onde se cria uma “nova” cultura, qual só é possível nessa situação colonial. Pois Anchieta afim de catequizar os indígenas cria uma representação didática na linguagem Tupi sobre o Sagrado, com base em sua vivência com os indígenas e todo conhecimento cristão.
    Essa foi a forma que os europeus encontraram de se comunicar com os indígenas e fazer essa aculturação.

    2- No Auto de São Lourenço o mal é representado por Anchieta como tudo aquilo que é contra as ideologias cristãs, os vícios, o pecado, o prazer carnal, as festas. O que para os indígenas não faz sentido, pois são crenças e costumes de sua cultura.
    Então Anchieta usa os nomes indígenas como demônios estrategicamente para que eles entendam e associem seus costumes como algo que não os levariam a salvação e fazendo com que eles neguem suas próprias crenças e os induzam a crer no cristianismo.

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  17. “(Eram três diabos que querem destruir a aldeia com pecados, aos quais resistem São
    Lourenço, São Sebastião e o Anjo da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os tentadores
    cujos nomes são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados)”

    1) A fusão do personagem mitológico ‘Diabo’ e a caracterização do mesmo com nomes indígenas, já relata a nova representação do sagrado relatada por Alfredo Bosi.
    Anchieta relaciona o mal com rituais indígenas com o objetivo de fazer com que os índios PARASSEM de praticar sua própria cultura, com a visão de que era errado e passassem e notar que o ‘bom’ era o catolicismo que os portugueses trouxeram da Europa.
    Essa fusão de culturas, a relação do mal com a cultura indígena é a terceira esfera simbólica. Não é representada pelo catolicismo nem pela cultura dos catequizados. É um “em cima do muro”, uma mistura dos dois para facilitar a aculturação dos índios.

    2) No processo de catequização/aculturação dos índios, o ensinamento de bem e mal (Deus e Diabo) para a facilidade de entendimento dos catequizados, foi relacionado o mal com a sua própria cultura. Assim, Anchieta relatou em suas peças personagens maléficos mostrando que tudo aquilo que faziam: fumar, dançar, beber etc. era errado, era ‘mal’.
    Então, a catequização/aculturação se concretiza com o índio acreditando que tudo o que fazia antes da colonização era obra do Diabo, e o que é certo, o que é bom, é tudo aquilo que Anchieta prega, a religião importada de Portugal.

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  18. 1. O comentário de Alfredo Bosi sobre a criação de uma terceira esfera simbólica presente no Auto Representado Na Festa De São Lourenço referencia a estrategia usada por José de Anchieta para doutrinar os indígenas por meio da escrita.
    Usando de nomes populares da cultura indígena e personificando negativamente, ou, diabolicamente elementos característicos de tal cultura, Anchieta retrata uma cena onde se mostra possível a catequização dos índios sem uma doutrina explicitamente teológica ou tupi, mas baseada em ambas, criando uma mitologia com elementos de ambas doutrinas, porém com caráter e intenção evangelista. Essa terceira esfera só se faz possível no meio colonial, como diz Bosi, porque é conveniente para evangelização dos índios, demonizando suas essenciais e santificando a imagem da igreja católica.

    2. O mal na peça de Anchieta é considerado tudo aquilo representativo da cultura indígena. Usando e abusando de elementos presentes nas tradições tupi como as bebidas típicas, as pinturas corporais, as danças e até mesmo os nomes dos demônios, que são de índios reais, guerreiros, Anchieta transforma aquilo que é prática em um ultraje, algo completamente secular e infame. Essa estratégia é entendida como um modo de colonizar o índio, distorcendo todas as práticas habituais e costumeiras da cultura em maldição, ou como disse Bosi em seu livro, “os maus hábitos”. A obra flerta com os conceitos apresentados por Bosi. Em sua totalidade, é um ato de colonização dos índios, catequizando-os, adulterando sua cultura após conquistar sua terra colo.

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  19. 1) Auto é uma composição teatral da literatura dramática. Com linguagem simples, os autos, em sua maioria, têm intenção moralizadora. Suas personagens simbolizam geralmente as virtudes, os pecados, ou representam anjos, demônios e santos; Como por exemplo: Auto da Barca do Inferno. José de Anchieta foi um padre jesuíta responsável não só pelo Auto Representado na Festa de São Lourenço, como também pela primeira gramática da língua tupi. Com o intuito de “salvar” as almas encontradas na Ilha de Vera Cruz, Anchieta se aproximou demais da cultura tupi-guarani a ponto de proteger as pessoas que aqui havia, a mando da Coroa. José sabia que o único jeito de convertê-los ao cristianismo era mostrando o porquê a crença indígena estava impregnada de pecado e libertinagem aos olhos da religião católica. Alfredo Bosi afirma que essa aproximação de José de Anchieta à cultura tupi-guarani deu origem a uma terceira esfera simbólica. De fato, o Auto escrito pelo padre evidência vários elementos católicos e elementos da cultura indígena que, juntos e adaptados, possibilitam que Anchieta alcance seu objetivo.
    2) O mal representado no Auto está escancaradamente ligado a todos elementos da cultura indígena. Os nomes dados aos demônios da peça, por exemplo, são nomes de heróis indígenas que lutaram na resistência contra os portugueses. A base da crença tupi era tudo aquilo que eles podiam enxergar, diferente da crença do divino, ou seja, animais fortes, velozes, sábios eram venerados pelos indígenas (como o gavião, a águia, etc). Anchieta utiliza desse elemento para demonizar o culto e a cultura tupi-guarani. Os principais materiais culturais também são representados com uma conotação demonizada, uma vez que a bebida cuim e as tintas utilizadas para pintar a pele são meios de ir para o inferno, de acordo com a história do Auto. Por fim temos a representação da Velha, figura muito importante na cultura indígena, que possuía tal audácia a ponto de superar a “maldade” dos demônios. Todos esses aspectos casam com as definições dadas por Bosi, afinal Portugal estava tomando as terras dos indígenas, colonização. E tomando também sua cultura, fazendo-a se destruir de dentro para fora.

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  20. 1- Anchieta mixa as duas crenças, colocando nomes indígenas a demônios e utilizando a história de São Lourenço e São Sebastião e a nomenclatura “Anjo”, do cristianismo. Há também a utilização de indígenas, ditas como imorais, como a bebida “cauim”, ou o simbolismo da velha que fala com Guaixará, que mostra uma sabedoria, que nem o diabo será capaz de derrubar. Padre Anchieta faz tudo isso afim de conseguir, pelo menos minimamente, uma conciliação com a Teologia Cristã e a Crença Tupi (como Bosi denomina). Tendo em mente o contexto em que o Auto de São Lourenço foi escrito, temos a visão que a mixagem de duas culturas tão díspares, formando uma terceira (e nova) esfera simbólica, foi a ferramenta que Anchieta encontrou para o processo da catequização indígena.

    2- O mal que vemos no Auto, são todas características culturais indígenas, descritas como imorais e incitadas pelo Diabo, como suas bebidas típicas. Anchieta utiliza a fé católica, como o bem e as crenças indígenas, como o mal, para poder exercer uma relação de poder para com os indígenas (colonos), assim, impondo sua própria cultura e religiosidade para eles. Com isso, os indígenas deixaram sua cultura rica e própria, para serem dominados por uma cultura eurocêntrica imposta, aculturando-os e ainda, tiveram seu colo (terra) tirado de si.

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  21. 1) A afirmação de Bosi nos mostra sobre a terceira esfera simbólica que decorre da crença tupi e da crença católica, a partir disso o objetivo era incluir o catolicismo nos nativos por meio das palavras Portuguesas que tinha significados semelhantes aos termos da língua Tupi, transformando os costumes e culturas Indígenas à hábitos não aceitos pela igreja.
    A tentativa de catequização dos Indígenas no Auto de São Lourenço percebe-se com a apresentação dos hábitos dos nativos, como o consumo de Caium, Que para a igreja é entendido como um pecado, um vício.
    Essa terceira esfera simbólica, foi criada apenas pelo processo de aculturação que é presente na situação colonial.

    2) Considerando as reflexões feitas a partir da leitura de “Colônia, culto e cultura”, é possivel ver a caracterização do mal a partir da cultura indígena. Tudo começa com o fato do nome dos demônios da Obra possuírem o nome dos guerreiros indígenas que lutaram contra a “colonização” dos Portugueses.
    Em sua Obra, Anchieta tem o intuito de tentar convencer os nativos de seus problemas, a sua cultura vem atraves do aminismo, ou seja, da visão do mundo e com a sua descrição com más intenções,
    A Obra se baseia na colonização do que é precado, vício, da ideia de mal, para atingir o objetivo de catequizar e colonizar os nativos indígenas e Anchieta usufrui da cultura e da própria vida, para que os nativos renegassem a própria crença.

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  22. 1.) Essa “terceira esfera simbólica” que Bosi afirma é proveniente da mistura de culturas oriundas do processo colonizador, que se deu através do contato entre os portugueses e os índios. Com o intuito de cristianizar a sociedade indígena, foi preciso que o convívio entre os diferentes povos fosse facilitado. A língua é o principal meio de interação, portanto, a fusão desta contribuiu para formar essa terceira esfera inovadora. Anchieta desfruta desse meio em sua obra utilizando nomes indígenas para representar os demônios e os santos para representar a intenção “salvadora” dos portugueses de convertê-los e salvá-los.
    Anchieta procura, através de sua obra teatral, elaborar formas, símbolos, diálogos, entonações, caracterizações, etc.. para que a mensagem de cristianização seja compreendida pelo índio, já que as tribos desconheciam a mistificação, o “irreal”, o “invisível.” Bosi, em poucas palavras, sintetiza tal exemplificação no seguinte trecho: “Aculturar também é sinônimo de traduzir.” (BOSI, Alfredo)
    Ou seja, essas formas de representações, o modo de se interpretar a cultura alheia, a maneira como foi o contato entre os diferentes povos e o produto final dessa miscigenação contribuíram para a criação da terceira esfera simbólica.

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    2.) Toda a construção da obra foi produzida de maneira a criticar os costumes indígenas, caracterizando-os, no teatro, por figuras diabólicas cujos nomes representavam o índio guerreiro (Ambirê, Guaixará e Saraiva). Considerando que a cultura indígena se baseava em representações naturais, Anchieta adaptou em sua obra, a figura de deuses indígenas com características animalescas de forma a ridicularizá-los por tal crença, inferiorizando-os de tal maneira a condicioná-los a acreditarem em representações religiosas cristãs “reais” e humanas. É possível notar essa caracterização a partir do trecho do Auto: “AIMBIRÊ: – Aqui vou com minhas garras, meus longos dedos, meus dentes.”.
    Diante das definições de Colo, Culto e Cultura referidos pelo autor Bosi, podemos considerar que a forma de dominação do portugueses sobre os índios, impondo-lhes crenças jamais antes conhecidas pelos nativos e contrárias às verdades cristãs, foi aculturada. Ou seja, além dos portugueses dominarem a terra colo, também dominaram a cultura nativa.

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  23. 1) Alfredo Bosi, afirma existir uma relação do mal com a cultura indígena, nomeadas como A terceira esfera simbólica.
    Anchieta teve como uma de suas metas aprender a língua Tupi e com isso ele pôde mostrar em sua obra o quanto a cultura indígena é na verdade vista como a própria prática do mal. Lembrando que os portugueses utilizam o catolicismo como estratégia para reverter a visão dos indígenas, fazendo-os ver que o certo se torna errado perante a visão do catolicismo imposto e tudo isso para melhor abranger a aculturação.

    2) Em sua obra, Anchieta utiliza da catequização para transparecer aos índios que seus costumes como o dançar, beber e fumar, são espelhados por demônios, fazendo-os acreditar que todas as suas ações praticadas conrespondem as mesmas dos demônios.
    No caso, depois de tantas amostras por meio da catequização e por meio das obras de Anchieta, foi de grande entendimento por parte dos indígenas que o certo para eles é o errado, então modificaram suas visões e tiveram por fim a visão imposta pelo catolicismo.

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  24. 1- Anchieta precisava de uma forma de chegar ate os índios para que “compreendessem” a fé cristã, e é dai que se cria essa esfera simbólica, pois Anchieta fazia uma fusão entre a língua portuguesa e representações Tupis, utilizando nomes de seus deuses com significado do catolicismo, como por exemplo, Tupansy, mae de Tupá, era representada como Nossa Senhora, ou Anbanga, espirito errante, era o Demonio. Todo esse processo de aculturação feito por Anchieta criou isso que Bosi chama de Mitologia Paralela, o intuito de propagar o cristianismo aos indígenas.

    2- Para Anchieta, o mal era tudo aquilo que ia contra a fé cristã, ou seja, tudo o que os Tupis faziam(antropofagia, poligamia, etc). A ligação entre carne e natureza era muito forte para os índios, então não foi uma coisa fácil de se desconstruir, por isso as personificações do “mal” de Anchieta estava sempre ligada a cultura indígena, pois estas não eram aceitas pela fé cristã.

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  25. 1 – “Nova representação do sagrado”, “terceira esfera simbólica”, “mitologia paralela”. Alfredo Bosi lança mão desses três termos para indicar o que Anchieta faz ao longo do “Auto de São Lourenço”: metáforas tupis para elementos da fé cristã, para que assim fosse possível a compreensão da mensagem proposta pelos colonizadores, já que muito provavelmente os indígenas não entenderiam o que é “pecado”, “inferno” e “Deus” (é por isso que houve, nesse momento, um processo de aculturação: os colonizadores tiveram que absorver elementos da cultura indígena para, assim, impor a sua própria cultura). Isso já é explicitado no momento de apresentação das personagens, uma vez que os “diabos” têm nomes provenientes do tupi (Guaixará, Aimbirê e Saravaia, por exemplo); além dos nomes, os rituais indígenas também são ligados à imagem dos diabos, como o consumo de caium e a antropofagia, que são colocados como pecados dos índios. Assim sendo, essa representação dos “pecados” indígenas, e também dos anjos como salvadores e coisas boas, nada mais é do que a terceira esfera simbólica (a mistura de elementos tupis e cristãos) que Bosi afirma só ser possível na situação colonial, já que era algo conveniente no período por se tratar do momento de catequização do povo indígena por parte dos jesuítas, catequização, essa, ocorrida de forma imposta.

    2 – No Auto, é explícita a crença de Anchieta no mal como equivalente a cultura indígena. Nomes dados às personagens, críticas aos ritos e hábitos indígenas e “A Velha”: todos elementos utilizados para convencer os índios de que a sua cultura era o pecado puro, e que a alternativa para a “salvação” era a nova cultura trazida pelos portugueses. Ou seja, como se não bastasse a tomada do colo (a terra propriamente dita, segundo Bosi) por parte dos colonizadores, eles também queriam tomar a cultura do povo indígena, destruindo-a gradativamente e de forma didática, como por exemplo, com o uso dos autos propostos pelos jesuítas.

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  26. Vemos pela afirmação de Alfredo Bosi, a terceira esfera simbólica que ocorre no Auto, representado na Festa de São Lourenço, o método que Jose de Anchieta utilizou para doutrinar os indígenas foi a criação literária que surge pelo choque entre as culturas; Teologia Cristã e a Mitologia Tupi. Essa criação foi utilizada pelos colonizadores, para obter a compreensão das palavras e metáforas usadas pelos índios, porque eles não compreenderiam os termos de doutrinação como “inferno, pecado e Deus” e para dominação da Tribo é necessário o poder sob a linguá e então eles absorvem/aprendem e impõem a sua cultura por meio de relacionar “Caium” (Bebida Tupi) ao pecado e o vicio, e os nomes utilizados para representação do “inferno” (GUAIXARÁ, AIMBIRÊ, SARAVAIA) são derivados também da cultura Tupi. Fica perceptível que a terceira esfera surge por meio da catequização e aculturação no processo colonial.

    2) Fica nítido a compreensão de que o “mal” representado no Auto de São Lourenço está diretamente ligado a cultura indígena, seus métodos culturais são contrários e repugnantes para fé cristã. Anchieta representa a cultura indígena como o próprio mal, caracterizando-os como os propagadores do pecado por meio dos nomes que foram utilizados pelos guerreiros lideraram rebeliões contra os portugueses e pelo consumo do Caium. A partir de tal ideia ele acaba com os conceitos nativos indígenas por meio da fé cristã e o catolicismo e emprega o conceito de “pecadores”.

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  27. 1. À medida que os jesuítas se interessavam em catequizar os indígenas, encontravam alguns empecilhos, o maior deles se relacionava à língua, já que algumas palavras necessárias para impor conceitos cristãos de salvação e religião simplesmente não existiam no idioma tupi, portanto não se podia traduzir. Através disso, Anchieta utiliza-se da aculturação linguística, criando autos e representações teatrais com o objetivo de induzir os indígenas ao ideal de pecado e salvação, para facilitar o processo de conversão. Bosi cita a criação de uma terceira esfera paralela com a fusão da teologia cristã e a crença tupi. Essa terceira esfera só pôde ser criada através da situação colonial em que viviam, caracterizada pelo século da Renascença e da Reforma, que procurava apagar os vestígios animistas, pelo temor do cristianismo à rituais mágicos (acreditavam que esse tipo de ritual estava ligado à demonização e possessão externa). A situação colonial de um povo colonizador (os portugueses, propriamente cristãos e vindos com a missão de evangelizar) e colonizado (o indígena e suas crenças tupis) tornou possível que essa terceira esfera paralela fosse criada, misturando características do cristianismo com a crença tupi, tudo com o objetivo de facilitar a conversão do indígena.
    .
    2. Anchieta refere-se ao mal como tudo que fosse visto aos olhos do cristianismo como “maus hábitos”, desde vícios como a bebida, o fumo, festas e até formas de expressão como a pintura corporal e a antropofagia, pois acreditava que seus ritos e costumes estavam relacionados a demonização. Através da leitura de “Colo, Culto e Cultura”, podemos observar a partir da posição em que se encontravam – de colonizadores -, os missionários estabeleceram relações de poder, dominando não só a terra colo, mas também aculturando os nativos de modo a obriga-los a pensar que aquilo que os atava a seus ancestrais e garantia sua identidade dentro do grupo, era o que os afastava de Deus e da salvação. Considerando o comentário de Bosi “[…] o método mais eficaz não tardou a ser descoberto, generalizar o medo, o horror, já tão vivo no índio, aos espíritos malignos, e estendê-lo a todas as entidades que se manifestassem nos transes. Enfim, diabolizar toda cerimônia que abrisse caminho para a volta dos mortos.” percebemos que Anchieta utilizou-se de seus conhecimentos eruditos para impôr o sentimento de culpa e pecado, inclusive quando deu nomes indígenas aos demônios do auto, reforçando o sentido do “mal”.

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  28. 1) A afirmação de Bosi fala sobre a terceira esfera simbólica, que seria resultado da junção entre a igreja católica, com a crença túpi, e com isso facilitando a catequização dos índios. No Auto de São Lourenço, os personagens com elementos de ambas as crenças e, o segundo ato percebemos que a crença indígena é descrita como atos de pecado, e os índios precisam da catequização dos jesuítas como forma de salvação.
    Essas representações, o modo de interpretar a outra cultura, a relação do mal com a cultura indígena é a terceira esfera simbólica, ela não é representada no catolicismo.
    2) É possível enxergar a caracterização do mal a partir de toda a cultura indígena, pelo fato do nome dos demônios terem nomes de guerreiros indígenas que lutaram contra os portugueses e tinham características animalescas em sua personalidade.
    Em sua obra, Anchieta traz a demonização da bebida comum entre os índios, a pintura do corpo e as danças característica da cultura indígena e dessa maneira a ideia de que tudo de mal era dedicado ao povo indígena,
    Para Anchieta o mal era o oposto à ordem e algo ligado ao corpo, presentes na cultura indígena que tinha a embriaguez pelo caium, poligamia e antropofagia, uma vez que “espírito” e “corpo” para os nativos não havia distinção, Bosi escreveu essa citação em seu texto “Colônia, Culto e Cultura” como os maus hábitos.

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  29. 1) A partir da leitura do Auto de São Vicente é possível reconhecer características de textos literários que fizeram parte de um processo de dominação cultural. Os padres e jesuítas que eram encarregados dessa função utilizavam a literatura como instrumento para a catequização dos nativos. Bosi em sua análise da literatura de Anchieta afirma que “[…] a nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi, mas uma terceira esfera simbólica, uma espécie de mitologia paralela que só a situação brasileira tornara possível.” (BOSI, 1996, p. 65). Essa terceira esfera simbólica apontada pelo autor trata-se de um novo ideal, no ato podemos destacar a idealização de criaturas demoníacas com nomes de deuses, frente a criaturas sagradas para o cristianismo, criada como um recurso para obter êxito na manipulação da crença dos indígenas.

    2) Havia na cultura indígena diversos rituais como danças, adornos, fumo, pinturas corporais, embriaguez, transes entre outros para simbolizar a comunhão com as entidades divinas da cultura tupi Anchieta usa do medo que os índios tinham dos maus espíritos para demonizar os seus rituais e define como obra do diabo (do mal) todos os ritos indígena.

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  30. 1-)Nesta afirmação de Bosi podemos relatar a forma na qual os portugueses e jesuitas encontraram de colonizar e catequizar os índios, desmistificando toda a cultura e religião dos índios, impondo suas crenças, costumes e religião católica, cria se a terceira esfera desse modo de doutrinação, cultura, e religiosidade, em um intermédio entre a cultura tupi e a a igreja católica . Anchieta usa das crenças e mitos indígenas uma linguagem de um lado perverso, errado e pecador, como por exemplo os diabos terem nomes indígenas. Esta era uma forma de trazer a religião católica como redentora, salvando os de todo o “mal” pelo intermédio da literatura colonial.

    2-)Todas as crenças, praticas, e cultos indígenas são transformados por Anchieta em sua peça em maldade, obscuridade. Há a necessidade de convencimento na colonização e cristianização para com os índios, de que a religião católica e seus costumes são salvadores, ele usa de toda ingenuidade dos índios tornando sua cultura maligna. Tudo que era sagrado, torna se pecaminoso. O ato de se embebedar, se pintar, cultuar mais de um Deus, havia todo um significado por trás, os portugueses na tentativa da brusca colonização impuseram seus costumes e ideologias, tornando tudo o que era contrario a seus preceitos como forma do “mal”. Como exemplo o nome dos diabos na peça, Guaixará, Aimbirê e Saravaia, ligando toda linguagem indígena em demoníaca.

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  31. AMANDA CUNHA PIRES

    RA: 10029581
    QUESTÃO1:
    Os Autos eram feitos para serem interpretados(são peças de teatro), pirque era muito dificilpara os freis,para os missionários da época catequizarem os índios, porque os índios eram panteístas então qualquer Deus que lhes fosse apresentado eles incluiriam nos Deuses que eles já acreditavam; por isso que o Bosi fala que era uma terceira teologia, pois não era possível para os índios desacreditarem do que eles já conheciam, desfazer da cultura deles para acreditar somente na cristã; mas com a convivência que eles tinham com os padres e o que eles aprendiam com esses Autos e a evangelização, também já não era mais a crença Tupi intacta, então criava- se a terceira mitologia, que não era possível acontecer na Europa, porque estava tudo dominado pela religião católica e nem na colônia antes de virar colônia, por isso que virou essa terceira.
    Quando lemos o texto “Anchieta ou as flechas do sagrado” já logo vemos que bem no início do texto já se pode notar essa terceira representação que Bosi fala, mostrando como manifesta- se também na língua, porque embora o assunto que anchieta trata seja a crença do colonizador, ele utiliza a língua do colonizado.
    Um dos trechos do Auto em que Bosi fala explícitamente desse “método”, de terceira mitologia criado, diz que era preciso circunscrevero lugar do mal, cercá-lo, vencê- lo e sotopô- lo às hastes do Bem.
    Exemplar, a fala de Guaixará (rei dos diabos), no auto intitulado Na festa de São Lourenço.
    O nome Guaixará se deve ao fato de assim chamar- se o herói tamoio do Cabo Frio que atacou por duas vezes os lusos sediados em São Sebastião do Rio de Janeiro (1566) e em São Lourenço (1567), e outro chefe tamoio, Aimbirê, aparecerá chamado como Diabo.
    Trecho:
    Molestam- me os virtuosos
    ireitando- me muitíssimo
    os seus novos hábitos
    Quem os terá trazido
    Para prejudicar nossa terra?

    Eu somente
    Nesta aldeia estou
    como seu guardião,
    fazendo- a seguir as minhas leis
    Daqui vou longe
    Visitar outras aldeias

    Quem sou eu?
    Eu sou conceituado,
    Sou o diabão assado,
    Guaixará chamado
    por aí afamado.

    Meu sistema é agradável.
    Não quero que seja constrangido,
    nem abolido
    Pretendo
    alvoroçar as tabas todas.

    Boa causa é beber
    até vomita causim.
    Isso é apreciadíasimo.
    Isso se recomenda,
    Isso é admirável!

    São aqui conceituados os moçaracas
    beberrões
    Quem bebe até esgotar- se o cauim,
    esse é valente,
    ansioso por lutar.

    É bom dançar,
    adonar- se, tingir – se de vermelho,
    empenar o corpo, pintar as pernas, fazer- se negro, fumar,
    Curandeirar…

    De enfurecer- se; andar matando,
    Comer um ao outro, prender tapuias,
    amacumbar- se, ser desonesto,
    espião adúltero,
    não quero que o gentio deixe.

    Para isso
    Convivo com os índios,
    Induzindo- os a creditarem em mim.
    Vêm inutilmente afastar- me
    os tais padres agora,
    Apregoando a lei de Deus.

    Para representar mais uma vez a terceira esfera simbólica trago também mais um exemplodo segundo da peça: Auto apresentado na festa de São Lourenço do também tratado em questão, José de Anchieta.
    SEGUNDO ATO:
    GUAIXARÁ:
    Tem confiança, te rogo,
    que horror lhes vou inspirar

    Quem como eu nas Terras existe
    que até Deus desafiou?

    AIMBIRÊ:
    Por isso Deus te expulsou,
    e do inferno o fogo triste
    para sempre te abrasou.

    Eu lembro de outra batalha
    em que Guaixará entrou.
    Muito povo te apoiou,
    e, inda que lhes desses forças,
    na fuga se debandou.

    Não eram muito cristãos.
    Contudo nada ficou
    da força que te inspirou,
    pois veio Sebastião,
    na força fogo ateou.

    GUAIXARÁ:
    Por certo aqueles cristãos
    tão rebeldes não seriam.
    Mas esses que aqui estão
    desprezam a devoção e a Deus não reverenciam.

    Vai ver como em nossos laços
    caem, logo estes malvados!
    De nossosdons confiados,
    as almas cederam passo
    para andar do nosso lado.

    Os peesonagens estão em todos os pontos citando o que eles gostam; fumar, beber até cair, brigar, dançar, comer uns aos outros, ser desonesto, entre outros.
    E os personagens são representados como Diabo, sendo assim, tudo que o Diabo gosta, é aquilo que deve ser evitado.
    Bosi fala que Anchieta peecisava delimitar para os índios o que era considerado mal, porque para eles o conceito bem versus mal, não existia da mesma forma que existia para os europeus, então Anchieta teve que ser bem explícito a ponto da personagem falar:
    “…eu soh o diabão assado…”e ir dizendo todas as coisas das quais ele gosta, assim gicava mais fácil para os índios associarem aquelas atitudes com uma figura diabólica, absolutamente composta somente pelo mal, que deveria ser evitada.
    Então quando os personagens dizem tudo que dizem eles estão cumprindo o papel de “circunscrever o mal” quw Bosi menciona.

    RESPOSTA 2:
    Na peça de Anchieta considera o mal vomo tudo que não vem da crença Tupi e portanto em sua peça coloca oa personagens como Diabos e esses Diabos falam durante a peça todas as coisas que são consideradas por Anchieta como os males; fumar, beber, dançar entre outros. E Anchieta ainda coloca o nome dos diabos da peça, com nomes tupis.
    Bosi em “Colônia, culto e cultura”, fala sobre(usando agora minhas próprias palavras, pelo que eu entendi que Bosi disse), desaculturamento que as tribos indígenas tiveram durante todo o processo de colonização. Sobre como os “educadores” da época faziam manobras para fundir culturas que não eram deles.

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  32. 1- “A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi, mas uma terceira esfera simbólica, uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível.”

    O sucesso na manipulação dos nativos veio, também, por intermédio do novo ideal que, para Bosi, tratava-se de uma esfera simbólica. No ato, podemos perceber a utilização das crenças e mitos indígenas para favorecer especificamente a religião católica, onde, por exemplo, há nomes tupis sendo usados para representarem demônios. Tudo num único intuito de desmistificar toda a cultura e religião dos índios até que, consequentemente, o catolicismo é posto como força de redenção e salvação de todo o mal existente.

    2- Anchieta construiu o mal de sua peça utilizando tudo aquilo que representa a cultura indígena. A partir de elementos presentes nas tradições – tal como as pinturas corporais, as bebidas, danças, etc. -, ele modificou o que era puro até que se tornasse um ultraje. Dessa forma, usando de toda a ingenuidade presente nos índios, ele faz daquela cultura um ato maligno. Condenou os rituais como poços de maldade e usou nomes tupis para menosprezar e demonizar as crenças indígenas. A distorção dessas práticas habituais – de acordo com Bosi, “os maus hábitos” – serviu para colonizar os índios e catequizá-los após terem conquistado sua terra.

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  33. 1) O termo usado por Bosi, “terceira esfera simbólica”, representa uma junção das crenças cristãs e tupis, e uma evolução delas. Esse processo só foi possível em um período colonial, pois reuniu a cultura do colonizador e a cultura do colonizado para criar uma terceira cultura, na qual a cultura colonizadora usa os elementos da cultura colonizada de maneira destorcida para implementar a visão do colonizador de certo e errado, de bem e mal. Porém isso só se faz possível num ambiente de recente colonização, no qual as duas primeiras esferas se unem para criar uma terceira esfera com elementos das duas anteriores, mas ainda assim com certas particularidades desenvolvidas durante o processo colonial.

    2) Anchieta usa da cultura do colonizado para poder se fazer entender, com isso ele utiliza da crença tupi para aculturar os índios, porém nesse momento ele constrói uma ideia de bem e mal voltada para as representações indígenas de sagrado para serem o mal. Logo passa a ideia de que tudo que vem da natureza ou da ancestralidade tupi é maligno, desde os costumes de vestimentas, até a figura dos idosos, na peça representada por uma velha que nega o mal, mas acaba cometendo-o. A velha é a personificação teatral do próprio índio, que passa a negar os males de sua crença, mas ainda assim os comete por “força de habito”.

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  34. 1) A afirmação de Bosi quanto a “terceira esfera simbólica” é procedente do processo colonizador, a partir do momento que os portugueses entraram em contato com os índios e tentaram incluir o catolicismo na crença tupi. Sabendo-se a importância da língua, os portugueses utilizaram palavras semelhantes as da língua tupi para alcançar seus objetivos de catequização.
    Na obra de Anchieta fica evidente que o autor utiliza nomes indígenas fazer representações daquilo que é desprovido de graça, e de santos para representar a salvação quanto a conversão que os portugueses queriam aplicar nos indígenas.
    Portanto, todo esse processo colonizador, o contato de culturas e povos diferentes gerando assim a miscigenação é o que contribuiu para a criação dessa terceira esfera que Bosi cita.

    2) Os personagens indígenas foram representados na obra como figuras diabólicas. Este fato, de certa forma, soa como uma crítica feita aos costumes indígenas, uma forma sutil (ou não) de dizer que seus costumes eram errados, diabólicos, que o fato de suas crenças serem baseadas em elementos naturais as mesmas seriam motivo de banalização e ridicularização.
    De acordo com Bosi, fica evidente que os portugueses dominaram não somente a terra, mas também dominaram a cultura, quando quiserem implementar seus costumes e crenças, quais os índios não tinham o menor conhecimento.

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  35. 1) O termo usado por Bosi, “terceira esfera simbólica”, representa uma junção das crenças cristãs e tupis, e uma evolução delas. Esse processo só foi possível em um período colonial, pois reuniu a cultura do colonizador e a cultura do colonizado para criar uma terceira cultura, na qual a cultura colonizadora usa os elementos da cultura colonizada de maneira destorcida para implementar a visão do colonizador de certo e errado, de bem e mal. Porém isso só se faz possível num ambiente de recente colonização, no qual as duas primeiras esferas se unem para criar uma terceira esfera com elementos das duas anteriores, mas ainda assim com certas particularidades desenvolvidas durante o processo colonial.

    2) Anchieta usa da cultura do colonizado para poder se fazer entender, com isso ele utiliza da crença tupi para aculturar os índios, porém nesse momento ele constrói uma ideia de bem e mal voltada para as representações indígenas de sagrado para serem o mal. Logo passa a ideia de que tudo que vem da natureza ou da ancestralidade tupi é maligno, desde os costumes de vestimentas, até a figura dos idosos, na peça representada por uma velha que nega o mal, mas acaba cometendo-o. A velha é a personificação teatral do próprio índio, que passa a negar os males de sua crença, mas ainda assim os comete por “força de habito”.

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  36. 1- A “terceira esfera” é a mescla de figuras da crença cristã com o culto Tupi, feita por Anchieta de maneira inteligente e funcional, pois assim se faria entender muito mais facilmente. Por exemplo, ligar a imagem de Deus com Tupã (que os indígenas já temiam e respeitavam de certa forma) era um método mais simples de “apresentar” o Deus que queria, mais eficaz que introduzir a novidade do zero.
    Antes de tudo é importante lembrar que essa mescla foi uma imposição violenta, cheia de julgamento e elitismo da parte colonizadora. O cultus do índio era visto como inferior, errado, “pecador” e seus habitantes como tolos que estavam ali para ser salvos pelos bons padres.
    Bosi diz que essa mistura só foi possível na situação colonial porque só seria “entendida” exatamente por quem estava lá participando. O diabo Guaixará não é realmente um diabo presente na mitologia cristã, mas também não é o chefe tamoio que teve o nome usado como “inspiração”. Ele é a mistura entre os dois, feito para doutrinar os índios e dar uma imagem para que conseguissem materializar a mensagem do colonizador em algo que eles já conhecem.

    2- O mal era basicamente o que não é cristão: a cultura indígena. Em especial a parte que resistia às imposições colonizadoras, o opositor e o mal viram sinônimos.
    O colonizador vira os índios como sem religião, e mesmo depois de conhecerem suas práticas (que eram a seu modo religiosas), as trataram como coisas indesejáveis e ruins. A diferença de valores é gritante, enquanto Anchieta e a fé cristã cultuavam o “espírito” rejeitando o corpóreo, os nativos não faziam essa diferença, vendo como sagrado muito do que seria considerado profano aos olhos europeus.
    Assim que o consumo de cauim, as danças, tudo o que causava o medo e estranheza aos europeus, o sagrado feminino das anciãs e mesmo os próprios líderes indígenas eram representados como a maldade em benefício do culto colonizador.

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  37. Questão 1- A partir da leitura do 2º ato do da peça, comente a afirmação de Alfredo Bosi sobre a literatura de Anchieta. “A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi, mas uma terceira esfera simbólica, uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível.”
    O conceito da literatura de Anchieta foi escrito com a principal finalidade de explicar aos índios o conceito de pecado católico, porém utilizava em sua estruturação as entidades católicas e indígenas para se fazer entender. Dizer que essa nova representação era uma terceira esfera simbólica deve-se ao fato de que a forma de escrever histórias desenvolvida por Anchieta foi feita de maneira a encontrar um “meio do caminho” entre a religião tupi e o catolicismo, era uma mistura da crença animista indígena com as imagens animalizadas do demônio, ele utilizava santos católicos como os justiceiros/o lado do bem e os demônios indígenas (que possuíam o nome de chefes das rebeliões indígenas) para explicara ideia do pecado/do mal. Com esse tipo de associação foi sendo realizada a catequização e moralização dos índios, mostraram a eles quem seriam os certos e os errados, inseriram na história a maioria das tradições indígenas como a bebida, o fumo, as celebrações, a dança, a pintura corporal, as curandeiras, tudo como pecado, tudo era errado, tudo isso merecia condenação divina.

    Questão 2- Comente como o mal era caracterizado por Anchieta, considere em seu comentário as reflexões feitas a partir da leitura de “Colônia, culto e cultura”.
    Concebido por Anchieta, a caracterização do mal cristão era representada por tudo aquilo que para os índios era rotina e criatividade. Ele mostra-os que toda a vida que conheciam e estavam acostumados seria errada e profana, e que isto deveria ser mudado imediatamente. Tento imaginar como foi para que a população indígena brasileira concebesse o real sentido do pecado que tentava ser explicado a eles, porque o que simplesmente acontecia era a demonização das suas músicas, suas danças, seus rituais, bebida e seu fumo. Tudo aquilo que não fazia parte do cristianismo seria errado, desde a religião tupi e até mesmo à figura do guerreiro indígena, que acaba por ser comparada à do demônio, fortalecendo a ideia de certo e errado dentro das tradições indígenas.

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  38. A religião católica era oposta as crenças indígenas, deste modo ouve a necessidade de se criar uma terceira esfera segundo Bosi, essa terceira esfera foi imposta por meio da catequização unindo elementos da religião indígena e elementos da religião católica, afim de ajustar a comunicação entre os portugueses e os índios, os índios não entendiam os conceitos da religião católica, sendo ela considerada como única em termos de redenção humana, já a religião dos índios era considerada uma forma de pecado para a igreja.

    A obra de Anchieta mostra como foi criada a ideologia indígena referente a algo ruim, consumido pelo pecado e contra as ideias da igreja católica. Desta maneira Anchieta caracteriza demônios animalescos, referindo-se ao mal expresso segundo ele na cultura indígena. Esses demônios que cita Anchieta tinham nomes de líderes indígenas que lutaram contra os portugueses. Deste modo a desconstrução da cultura e da religião indígena foi nesta época o princípio para que todos os costumes desses povos fossem perdidos por causa da colonização e da imposição de costumes dos portugueses.

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  39. Sobre a terceira esfera era que Anchieta de forma inteligente e funcional utilizou em seus teatros uma linguagem que se aproximava da lingua Tupi e usou dos recursos disponíveis em sua época para
    alcançar os fins que sua missão requeria, a educação moral e a fé cristã de
    seu espectador, que falava sobre o bem e o mal, pecado e perdão, mundano e sagrado, separação de corpo e alma, Consequentemente, a absorção da ideologia eurocêntrica, que vai tachar de demoníacos elementos típicos da cultura indígena que ameaçam o colonizador: a violência, a antropofagia, as cauinadas .

    2. Sobre o mal considerado por Anchieta ele fez listas de tribos indígenas que são influenciadas por demonios, que eram inimigas dos índios, Os nomes dos vilões Guaixará e de Aimbirê) . Os ajudantes dos demônios são identificados como animais perigosos, nojentos, peçonhentos, ele dirigia à platéia oq se deve oq não se deve fazer por amor e por temor a Deus e como devem buscar a proteção de São Lourenço e São Sebastiao.

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  40. 1. Apesar de ter sido de extrema importância Anchieta ter aprendido e registrado a linguagem usada pelos índios, o fez com a intenção de se aproximar dos índios para catequiza-los, usando assim, a cultura indígena como um mecanismo contra ela mesma. Assim, acredito que quando Bosi refere-se a uma terceira esfera mitológica criada paralela ao cristianismo e as crenças Tupi, é sobre o contato antagônico que a peça ” Auto de São Lourenço” faz ao usar o tupi para trazer costumes indígenas como algo a ser salvado pelo cristianismo.

    2. No “Auto de São Lourenço” percebemos o foco narrativo voltado para os demônios, trazidos como personificações dos costumes indígenas na tentativa de afastar os índios de sua cultura através do medo pelo inferno, mesmo que esse temor coubesse melhor à cultura europeia já que os indígenas não separam a alma do corpo. Além disso, os jesuítas, trouxeram figuras importantes da cultura indígena como “o mal”, usando nomes de guerreiros para chamar aos diabos e a figura da velha, ligando os anciões ao demônio numa tentativa de fazê-los menos significativos à tribo. Apesar de a peça ter sido representada no meio do século XVI ainda se vê praticas semelhantes sendo praticada pelas Igrejas, na intenção de converter e manter seus fieis.

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  41. 1. Alfredo Bosi ao afirmar que a nova representação se tratava de uma terceira esfera, problematiza a catequização indígena feita pelos jesuítas.
    Para que os jesuítas obtivessem êxito nessa catequização dos nativos, tinham que ter estratégias para que entendessem o real sentido do catolicismo, com isso criaram uma nova esfera, que foi a fusão da teologia cristã com a crença Tupi.
    Anchieta usava da linguagem para a aculturação linguística, além de fundir os deuses católicos com os indígenas com a finalidade de representar certas crenças que, para os índios, seria difícil de entendeter, isso se seu com adaptação da teologia cristã na crença Tupi, criando assim, um novo elemento mítico capaz de aderir essa junção de culturas e significados.

    2.
    Anchieta, ao tentar catequizar os índios, não conseguia, muitas vezes, atrubuir sentido a algumas crenças cristãs. Com isso, criava novo sentido para essas crenças, como por exemplo, o pecado. Os índios não tinham ideia do que era o ato de pecar, então, Anchieta para explicar isso criou uma nova palavra com sentidos da linguagem Tupi, “Angatuba”, que significava “coisas da alma”.
    A ideia do mal representada por Anchieta, era passado para os índios, como nuitas práticas do seu cotidiano, como a antropofagização, as danças, as pinturas, a poligamia, as bebidas e os fumos e isso era demonizado pela cultura cristã.
    No auto de São Lourenço, Anchieta especifica todo esse mal através de um personagem indígena, Anhanga- Demônio e sua legião de espíritos malignos. Esse personagem era demonizado em sua peça, com a intenção de converter o nativo às ideias católicas.

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  42. 1. A afirmação de Bosi perante o segundo ato de o “Auto de São Lourenço” frisa que o encontro da fé indígena com a fé cristã fez com que surgisse uma mistura teológica destas duas crenças. Apesar de, a todo momento, a ameaça à cultura índigena ser explícita, como no trecho em que São Sebastião prega “…censuras em cada taba, disso não os livrarás”, a peça apresenta uma terceira esfera, que visa fundir as duas crenças.

    2. O mal, a principio, é visto como tudo aquilo que é contrário à cultura cristã. Logo no início, os diálogos entre Guaixará e seus companheiros mostram seres que se sentem superiores e arrogantes, em trechos como “Esta virtude estrangeira Me irrita sobremaneira.” e “… Só eu permaneço nesta aldeia como chefe e guardião”, induzindo o leitor a criar uma imagem negativa sobre os índios da peça. Bosi, em seu texto, comenta que Anhanga-Demônio (demônio índigena) fora colocado como algo “mal” pelos cristãos da peça, afim de catequisar os índios para a crença cristã.

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  43. 1) Para Bosi, a aculturação linguística evidenciada na obra de Anchieta demonstra que as formas somadas as métricas europeias são tentativas de inserir a mensagem católica mesmo em um contexto tão adverso.
    O autor exemplifica com a palavra pecado: como utilizar de um termo que os indígenas desconheciam o seu significado e de sua relevância espiritual? Portanto, Anchieta busca por significados nas duas línguas para buscar uma nova representação do sagrado em que não apresente explicitamente nem a teologia cristã nem as tupis.
    Nesse caso, a vida simbólica dos tupis e o catolicismo português deram origem a um sincretismo religioso abre espaço para uma terceira esfera simbólica que permite a fusão de nomes indígenas com evocação à Nossa Senhora em um mesmo texto. Personagens, essencialmente tupis, buscam pela salvação monoteísta por meio de rituais remodelados pela cristandade como a música e a dança. Com santos, imagens, os objetos sacramentais são considerados alegóricas com a finalidade de proporcionar identificação da população, no entanto, a linguagem simbólica é diferenciada para remeter aos propósitos de conversão e batismo dos índios.
    Segundo Bosi, a formação colonial pode ser compreendida, primeiramente, pelo significado de sua palavra: colo que significa tomar, cultivar, dominar a terra e de sua derivação cultus que específica que além, de posse da terra, é essencial cultivar o pensamento que, nesse caso, está intrinsicamente ligado ao processo religioso. Anchieta apreende o tupi e molda a forma/conteúdo literário a essa situação colonial.
    2) Para tanto, os poemas religiosos de Anchieta e os contos religiosos indígenas são manifestações totalmente distintas e o encontro das duas ocasiona uma transformação dualista que modificam a realidade e suas representações. Desse modo, a vida espiritual indígena também precisava ser dominada e as crenças espirituais negadas. O elo de destruição descoberto pelos jesuítas é o medo. É por esse sentimento que os bens materiais e culturais são apropriados – usados e abusados – pelo processo colonial. Para os tupis, por exemplo, o trovão era considerado uma manifestação divina e foi transformado em medo. Os rituais, carregados de significados, foram considerados como espirito maligno pelos jesuítas. Por isso, o Diabo foi escolhido e caracterizado como animal por Anchieta para simbolizar o Mal- Animal subversivo, ingrato e traidor.
    O autor explica que há um conflito entre o pensamento arcaico europeu e a vivência do Mundo Novo que, fundamentalmente, pela religião caracterizam a identidade de um povo. E a necessidade europeia de se manter enraizada no passado permeiam a transmissão de seus valores passadas de geração em geração para entrever as esperanças do futuro. Desse modo, Bosi sintetiza que: […] a ação reinstaura e dialetiza as três ordens: do cultivo, do culto e da cultura [..]

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  44. Gabriel Ferreira Diniz
    Segundo semestre ; Noturno ; 2018
    Universidade de Taubaté

    Questão 1- A partir da leitura do 2º ato do da peça, comente a afirmação de Alfredo Bosi sobre a literatura de Anchieta. “A nova representação do sagrado assim produzida já não era nem a teologia cristã nem a crença tupi, mas uma terceira esfera simbólica, uma espécie de mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível.”

    A produção literária de Anchieta é estruturada e dividida de acordo com o público para o qual ela remete:
    A) Os contos de conversão para os Indígenas .
    B) As peças de reforço moral para os Colonos .
    C) A poesia lírica para os Jesuítas .
    A obra ” flechas opostas ” , sendo assim , denuncia um fenômeno de interação social que resulta pela tensão criada entre duas culturas e não só a sobreposição a outra , evidenciando o desejo de transpor através da mensagem católica o desejo de universalizar a fé cristã , colocando deus como salvador do universo .

    Questão 2- Comente como o mal era caracterizado por Anchieta, considere em seu comentário as reflexões feitas a partir da leitura de “Colônia, culto e cultura”.

    O mal é considerado por Anchieta na peça através de Guaixará ( rei dos diabos ) , Aimbirê e Saravaia ( criados de Guaixará ) . Personificações e alusões ao mal , realizam – se como objeto e dão forma ao pecado , ao profano , ao infiel , ao herege , enfim , ao inimigo . Demonizar o desconhecido , justificativa encontrada pelos católicos e por qualquer um ou seita que queira fundamentar os próprios dogmas , conservando suas ideias , dando força e voz ao próprio discurso .

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  45. 1. Bosi afirma, em determinado momento, “aculturar também é sinônimo de traduzir”. A sentença está ilustrada nos poemas escritos por Anchieta, que apesar da sintaxe em tupi, seguem a métrica portuguesa. Portanto, “traduzir” a mensagem católica para o tupi não significa um trabalho literal e vocabular. A tradução requer o esforço de fundir a cultura dominante à dominada, imprimir a fusão nas duas línguas e por fim descobrir algum tipo de homologia. Ou seja, noções imagéticas do catolicismo urgiam encontrar correspondentes tupis, embora nem sempre possíveis ou precisos, como nenhuma tradução os são. Daí, pois, a afirmação de que o sagrado tornara-se uma “mitologia paralela”.

    No segundo ato do “Auto de São Lourenço”, Anchieta caracteriza a mencionada fusão, desenhando a peça recheada de vocábulos indígenas retratando o diabo. Daí a importância da literatura para o processo de colonização. A peça escrita por Anchieta foi uma via para isso. Pois não houvesse o esforço da tradução, o processo de colonização não poderia ser jamais “eficiente”.

    2. O mal representado por Anchieta está estampado nas práticas e costumes indígenas. Não havia significado a palavra “pecado” ou “inferno”, então a maneira encontrada para representar o profano era associá-lo às práticas corporais – já que para os nativos, tampouco havia sentido a distinção corpo-alma. As danças, pinturas, embriaguez e celebrações indígenas eram caracterizadas como o tal pecado, o profano, o desvirtuado, o mal.

    O mesmo procedimento é encontrado no texto “Compêndio Narrativo do Peregrino da América”, de Nuno Marques Pereira, citado por Bosi em “Colônia, Culto e Cultura”. Nesse texto, a figura africana do Calundu é a representação do demônio. O paralelo, então, se traça pela semelhança na insistência em equiparar a prática nativa (sejam elas indígenas ou negras) à condição de animalesca, selvagem, demoníaca e diabólica.

    Importante destacar, para fins explicativos, que a ideia de colonização não se limita a um tipo de conquista. É impossível descolar a área geográfica da cultura ali estabelecida. Portanto, colonizar vai além de conquistar fisicamente a terra em si – o processo também implica em uma árdua atividade de modificar as crenças predominantes daquele pedaço físico de terreno. Tanto o “Auto de São Lourenço” quando o “Peregrino da América” estampam, cada qual com seu alvo, o objetivo de identificar as práticas pré-existentes como pecaminosas, ao passo que a proposta de salvação seja, impreterivelmente, a figura bondosa da crença judaico-cristã humanizada.

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  46. Victor Douglas Baraldi – RA: 10056756

    1. Quando os portugueses lançaram mão deste território que viria a se chamar Brasil, se depararam com a realidade dos índios, realidade essa, estranha aos colonizadores. Estranha por sua aparência, corpos nus e pintados, língua, costumes e cultura estranha. Nisto encontraram uma grande barreira ante suas ambições de conquistar e dominar este território e por conseguinte seus nativos. Para este fim, entre outros, escolheram por cristianiza-los. Civilizar para subjulgar, o índio, selvagem ao olho português. Dizendo os catequizadores seu objetivo ser um ou outro, para aquele serviu. Diante do desafio de catequizar um povo de cultura tão diferente da sua, os catequizadores optaram por aprender as línguas e cultura nativas, para se fazer entender e melhor convencer. Por esse motivo é que Bosi afirma que a obra de Anchieta figura uma nova representação do sagrado, não abrangendo apenas a teologia cristã ou a crença tupi, mas uma mescla, com intenção de causar certa empatia e facilitar a conversão do índio, que só foi possível pela situação colonial. Mitologia paralela visto que novas figuras foram inseridas de momento na crença cristã, a exemplo de Guaixará que foi expulso do céu pelo próprio Deus, e de Aimbirê e Saravaia que se tornaram algozes a mando do anjo de Deus.

    “AIMBIRÊ
    Por isso Deus te expulsou,
    e do inferno o fogo triste
    para sempre te abrasou.

    […]

    ANJO
    Aimbirê!
    Estou chamando você.
    Apressa-te ! Corre! Já!

    AIMBIRÊ
    Aqui estou! Pronto! O que há!
    Será que vai me pender
    de novo este passarão?

    ANJO
    Reservei-te uma surpresa:
    tenho dois imperadores
    para dar-te como presa.
    De Lourenço, em chama acesa,
    foram ele os matadores.

    […]

    AIMBIRÊ
    Pronto! Pronto!
    Sejam tais ordens cumpridas!
    Reunirei meus demônios.
    Saravaia, deixa os sonhos,
    traz-me de boa bebida
    que temos planos medonhos!

    […]

    AIMBIRÊ
    É o anjo que em nossa mão
    põe duas presas bem raras.”

    2. O Brasil juntamente com seus nativos compunham a colônia, terra e povo sujeito ao colonizador, aquele que vem para lavrar, solo e povo que não seus. Podemos aí notar a raíz das palavras colônia e colonizador. Lavrar o povo, uma vez que o colono vem impor suas leis e cultura em geral, como visto na obra de Anchieta, onde por meio da catequese o colono vem impor suas crenças, maneiras e valores, considerados por este de maior virtude. Sendo a cultura do lavrador mais virtuosa e correta a seus proprios olhos, fica à cultura indígena a visão do errado, do desvirtuoso, do mal em si. Mas não apenas por ser cultura alheia, mas também porque representava tudo o que a igreja condenava. Seja o culto aos guerreiros antepassados, a antropofagia, a poligamia, os vícios ou a pintura dos corpos nus, tudo isso erra visto como corrupção aos olhos da igreja e algo de que deveriam se arrempender e negar em prol de se converterem a fé cristã. Tudo isto é explicito na obra de Anchieta que caracteriza o “mal”, sendo tudo o que era intrínseco da vida indígena.

    “GUAIXARÁ
    Esta virtude estrangeira
    Me irrita sobremaneira.
    Quem a teria trazido,
    com seus hábitos polidos
    estragando a terra inteira?

    […]

    Meu sistema é o bem viver.
    Que não seja constrangido
    o prazer, nem abolido.
    Quero as tabas acender
    com meu fogo preferido

    Boa medida é beber
    cauim até vomitar.
    Isto é jeito de gozar
    a vida, e se recomenda
    a quem queira aproveitar.

    A moçada beberrona
    trago bem conceituada.
    Valente é quem se embriaga
    e todo o cauim entorna,
    e à luta então se consagra.

    Quem bom costume é bailar!
    Adornar-se, andar pintado,
    tingir pernas, empenado
    fumar e curandeirar,
    andar de negro pintado.

    Andar matando de fúria,
    amancebar-se, comer
    um ao outro, e ainda ser
    espião, prender Tapuia,
    desonesto a honra perder.

    Para isso
    com os índios convivi.
    Vêm os tais padres agora
    com regras fora de hora
    prá que duvidem de mim.
    Lei de Deus que não vigora.”

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