(2º Semestre) Teoria Literária: Comentários sobre “O Aleph” e “A causa secreta”

Olá, alunos!

É neste post, que vocês devem colocar os seus comentários críticos acerca dos contos “O Aleph” e “A causa secreta”. Debateremos os textos a partir de seus comentários e de minhas inserções.

21 comentários sobre “(2º Semestre) Teoria Literária: Comentários sobre “O Aleph” e “A causa secreta”

  1. No conto “a causa secreta” de Machado de Assis há o narrador que Friedman denomina de Autor onisciente intruso, narrando da periferia dos acontecimentos e deixando subtendido percepções e julgamentos acerca dos fatos e das personagens, possibilitando inclusive a proximidade com os pensamentos dessas. Essa proximidade acontece ao mesmo passo que é mediada pelo narrador.
    “E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato… Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética.” Nesse trecho, ao descrever o sorriso de Fortunato e exatamente o que ele sentia, o narrador emite uma opinião que nos aproxima da mente da personagem, e nos indicia seus atos subsequentes. Com essa descrição, ele também leva o leitor a entender as ações e pensamentos das demais personagens da história.
    “Maria Luísa defendeu-se a medo […] e os dedos ainda trêmulos, tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três…” Esse trecho o narrador fala diretamente com o leitor, um clássico recurso machadiano capaz de nos inserirmos na obra.

    Sobre a personagem Fortunato, podem-se analisar os aspectos mentais e comportamentais que os norteiam para que a construção central e do clímax da história: tudo é contado para chegarmos à finalidade de suas ações sádicas, à totalidade. Fortunato, que num primeiro momento não aparenta ser o protagonista da ficção, revela-se essencial na construção da trama. É o encontro de Fortunato com Garcia, no inicio que nos revela um sutil comportamento diferenciado diante da peça teatral, posteriormente o desdém com o agradecimento daquele, e seu repentino interesse pela medicina, entre outros, tecem o imaginário do leitor, por meio dessas características psíquicas (pano de fundo deste conto), à respeito da sua personalidade.

    Curtir

  2. A Causa Secreta, de Machado de Assis, é um conto narrado em terceira pessoa, ou seja, o narrador não é uma das personagens da narrativa, ele apenas a narra. Entretanto, por conta do discurso indireto livre, o qual permite, numa mesma narrativa, a coexistência de narrador e personagem (e a mescla das falas destes), alguns momentos da narração parecem pensamentos das personagens, quase como um monólogo interior. Um exemplo disso é o trecho: “Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta.
    Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero.”; após o ponto e vírgula, a proximidade do narrador é tanta que há o questionamento se é realmente ele quem está narrando ou se é, de fato, um pensamento da personagem Fortunato.
    A narrativa é uma mescla de aproximação e distanciamento: ora há apenas uma narração de fatos [“Um dia, estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias em que ele conhecera o marido.”], ora há uma grande aproximação dos pensamentos das personagens (no trecho, trata-se de Garcia) [“A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios.”].
    Com essa onisciência intrusa seletiva, é possível o desenvolvimento das personagens; o próprio Fortunato é um exemplo disso, já que, num primeiro momento, o leitor não é capaz de identificar os traços marcantes de sua personalidade (como por exemplo o seu prazer em ver a dor alheia), que são revelados graças à aproximação do foco narrativo em seus pensamentos, o que também ocorre com Garcia e, em menor escala, com Maria Luísa.

    Curtir

  3. A Causa Secreta é um conto narrado em terceira pessoa, ou seja, o narrador não participa da história, apenas a narra. Os verbos utilizados estão predominantemente conjugados no pretérito, consequentemente quase todo o conto se trata de acontecimentos passados. Fato que casa muito bem com a introdução, pois na última linha do primeiro parágrafo é dito: “Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.” Ou seja, o tempo e o enredo estão diretamente conectados. Essa conexão facilita ao leitor a compreensão do porque a introdução é feita de forma direta e sem muita apresentação e conforme o conto se constrói o tempo decorre cada vez mais ao presente até que retornamos ao mesmo ponto (presente) onde a história começou (1º parágrafo). Além destes elementos, o narrador também utiliza do espaço para concretizar a história; Ele o descreve muito bem servindo-se de lugares como a Santa Casa, a praia, os becos, a praça da Constituição, o largo da Carioca, tornando visível assim, mesmo para quem não conhece, uma parte do Rio de Janeiro onde o conto se passa.
    A narrativa é mista em dois aspectos: Ora de uma forma distante, onde a cena é apenas narrada [“Um dia, estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias em que ele conhecera o marido.”]; Ora de uma forma bem próxima aos pensamentos de Garcia, onisciente, como no trecho [“A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios.”]; Narração esta tão próxima que permite ao leitor, e a quem narra, presumir o que o personagem, Garcia, sentirá após a descrição de seu pensamento. Em outras palavras: o narrador também se mostra intruso.
    Embora não tenhamos acesso às características físicas de Garcia, a narração nos dá diversas características emocionais da personagem; O que gera uma imagem nítida para o leitor, tão nítida a ponto de prevermos algumas ações feitas por ele, como se realmente o conhecêssemos. Em nenhum momento é mencionado um parente ou amigo de Garcia, porém é dito que ele costumava ir ao teatro sozinho, gerando um leve sentimento de solidão ao leitor. Garcia também é descrito como extremamente observador e curioso, vimos isso quando o narrador se aproxima da visão da personagem e mostra como ele observa as feições, falas, gestos e etc; O lado curioso se mostra muito pela presença de Fortunato, outra personagem do conto, que por sua vez é um cara de meia idade muito misterioso e imprevisível; posteriormente descobrimos seu lado sádico e como isso afeta a todos do conto, inclusive ao leitor. E por fim temos Maria Luísa, esposa de Fortunado, cuja descrição também está interligada com o marido, pois ele age de modo perturbador, negligente e apático; Consequentemente, Maria Luísa é descrita como insegura, trêmula, quieta, solitária e submissa a Fortunato.

    Curtir

  4. No conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, a narrativa ocorre em terceira pessoa, com o narrador sendo, segundo Friedman, onisciente intruso. Percebe-se que o conto traz uma análise psicológica dos personagens, mesmo que às vezes de uma maneira implícita, ou que só cheguemos a uma real conclusão no final do conto como no caso da personalidade de Fortunato. Por meio do discurso indireto livre e da observação direta o narrador reproduz as falas ditas dos personagens, e também as não ditas, como sentimentos e pensamentos, como se vê, por exemplo, na parte em que é narrado Fortunato cortando o rato em um de seus momentos mais sádicos: “E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama”. Por meio da mímese cria-se também uma aproximação e uma identificação entre o conto, o leitor e os personagens, perante, por exemplo, os locais onde as cenas se passam, sendo que todos são reais e também das emoções e ações dos personagens.

    Já no conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges, a narrativa ocorre em primeira pessoa, com um narrador-autor que é personagem e que expressa seus sentimentos em relação aos acontecimentos de sua vida pessoal, tentando retratar acontecimentos passados e buscando explicar da melhor forma possível o que ocorreu e como ele se sentiu e reagiu em relação aos fatos, como por exemplo, ao retratar seu sentimento por Beatriz ou seu espanto e confusão em relação ao Aleph. A narrativa toda de maneira geral traz o fantástico e o irônico nos acontecimentos e nas falas dos personagens, trazendo o que o narrador vê e identifica, por exemplo, em relação ao Carlos Argentino e a Beatriz como é evidente na fala “Beatriz era alta, frágil, ligeiramente inclinada; havia em seu andar (se for tolerável o oxímoro) uma como que graciosa lentidão, um princípio de êxtase; Carlos Argentino é rosado, robusto, encanecido, de traços finos”, e também não somente o que ele vê em relação à fisionomia dos personagens, mas em questões de personalidade e em questões psicológicas, como é possível identificar nos poemas de Carlos Argentino.

    Curtir

  5. O conto é narrado em terceira pessoa; a tipologia utilizada no início e no desenvolver da narrativa caracteriza-se predominantemente pela onisciência seletiva múltipla, uma vez que o narrador constrói diferentes perspectivas para cada personagem e descreve seus sentimentos.
    A narrativa se constrói em diferentes ângulos, ora distante da cena, ora próxima dos acontecimentos O que garante que o narrador decifra os sentimentos das personagens com grande certeza é justamente a aproximação narrador-personagem. Em primeiro momento, a narração favorece as interpretações, emoções, observações e experiências da personagem Garcia. O trecho que justifica tal afinidade por parte do narrador para com a personagem é: “A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo em que de curiosidade […]”
    O trecho oferece informações internas, capazes de serem descritas por alguém (no caso, o narrador) que tenha uma relação com a personagem. Portanto, tal análise também garante que o tipo de narrativa utilizada em situações de descrições internas pode ser classificado como narração onisciente intrusa.
    Em segundo momento, a narração volta-se para a personagem Fortunato, também utilizando momentos de distância e aproximação no decorrer das cenas. As combinações de fala do narrador e da personagem nos aproximam do monólogo interior, ou seja, descrições que não nos permite analisar se a passagem é um conjunto de características que compõe a personagem ou o pensamento da mesma. O trecho: “Foi nesse momento de Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero.” Exemplifica essa análise.
    Em situações menos ocorrentes, a análise mental também é notada em algumas passagens do conto, como: “No fim contou ele próprio a visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao contá-la. Não era o riso da dobrez. A dobrez é evasiva e oblíqua; o riso dele era jovial e franco.” Ou seja, há uma perspectiva do narrador sobre o sentimento da personagem Fortunato.

    Curtir

  6. A Causa Secreta

    O narrador onisciente relata em 3° pessoa os eventos que constroem a trama do conto a partir de flash-blacks. Delicadamente traçando o perfil psicológico das personagens com seu comportamento diante as situações que, cena a cena, tornam-se mais complexas.
    A cena inicial, descrita com silêncio, nos apresenta os personagens num ponto de vista intruso. Depois seguem flash-blacks que começam a melhor se fazer compreender os personagens, passando pela configuração de um triangulo amoroso (Fortunato/Maria Luísa/Garcia), a emblemática cena com a tortura do rato por Fortunato e a cena final no ápice da história com a morte de Maria Luísa, o sofrimento de Garcia e o sadismo doentio de Fortunato. Tudo descrito de um ponto póstumo aos fatos, com meticulosidade e frieza diante da história que chega a se aproximar a mente sádica do médico transpassando ao leitor algo muito próximo ao sentimento de Garcia para com o amigo, de profunda repulsa e fascinação.

    Fortunato é o personagem central melhor psicologicamente construído. Médico habilidoso, capaz de cometer bondades mesmo sendo um psicopata. O que vai sendo gradativamente mostrado em sua trajetória.
    O sadismo é descrito por Machado com duas faces, tal como Fortunato. A mesma frieza médica que o capacita para qualquer emergência a romper com o sofrimento alheio é a mesma frieza que o capacita para, com covardia, arrancar pata a pata de um rato e flamulá-lo em sua mutilação.
    Mesmo quando se descobre traído pelo seu amigo na ocasião do velório de sua esposa, põe-se a gozar do sofrimento que presencia de Garcia.
    Entretanto, ainda antes da perturbadora e conclusiva cena da tortura do rato, Fortunato já demonstrava sinais de apatia e insensibilidade que fazem jus ao caráter gradativo com a qual sua psicopatia é revelada. Como na cena em que Fortunato abandona o teatro mesmo antes do desfecho da peça, ataca cães de rua somente para se aprazer do choro dos animais ou quando humilha Gouvea, o homem que salvou, que deixa a casa de Fortunato sem saber bem o que sentir pelo seu salvador. Percebe-se a relevância cada vez maior de seus atos conforme a própria história se intrinca nos preparando para a construção do papel antagônico da personagem contrastando com sua atraente personalidade falsa de benfeitor.

    Só por curiosidade; “A Causa Secreta”, conto que retrata a história de um médico que possui dois lados contrastantes foi publicado em 1885, meses antes de “O Médico e o Monstro”, terror psicológico de R.L. Stevenson de 1886.

    Curtido por 1 pessoa

  7. O conto “O Aleph” é narrado em primeira pessoa, por um narrador-personagem. Apesar de ser o protagonista, é possível notar que ele dá um destaque à maneira com que observa os sentimentos e a postura de Carlos Daneri, constantemente dando suas opiniões nada favoráveis a respeito dele.
    O narrador nos aproxima de sua própria visão, usa tanto o sumário (quando fala de seu passado admirando de perto Beatriz e depois arranjando um modo de permanecer próximo da casa e de outras coisas que fazem lembrar dela) quanto a cena (ele interagindo com Carlos lendo o poema, inicialmente tímido) para descrever os acontecimentos.

    Como personagem, sabemos que o narrador fez de tudo para manter-se agarrado a lembrança de Beatriz, que não se importava muito com ele. Sua relação com Carlos Daneri é apenas para ter uma boa desculpa para estar naquela casa, seus incentivos também, já que nos pensamentos só critica a escrita pedante e exagerada dele. Acumula um desprezo cada vez maior por Carlos, e podemos ver que é frustrante para ele não poder falar o que pensa (pois perderia o acesso à casa dele) e também porque Carlos começa a acreditar e agir com ele como se fosse um grande escritor (querendo ser apresentado para outros de grande renome, e falando como o portador de uma obra magnífica).
    O narrador-personagem é humanizado por esse misto de orgulho de escritor e resiliência enquanto suporta seu fingimento, provavelmente os leitores da época se identificariam com ele ao lidar com outros usuários de exageros linguísticos.
    Ao fim do conto vemos que mesmo descobrindo a razão da aparente loucura de seu colega, e vendo que ele estava certíssimo a respeito do Aleph, ele prefere agir com um sutil desdém ao invés de admitir a grandeza do outro. Contribuindo para que Carlos duvide de si mesmo e provavelmente desanime ainda mais no seu trabalho, o que nos diz bastante sobre o caráter vingativo e ardiloso do narrador.

    Curtir

  8. Alunos: Amanda Cunha Pires
    Deivid Rocha
    Gabriel Diniz
    Mateus da Silva Figueira Galvão
    Victor Douglas Baraldi

    Baseados na tipologia de Norman Freidman com relação aos tipos de narradores, concluímos que há três tipos de narrador neste conto, todos heterodiegéticos, ou seja, o narrador não participa como personagem, mas apenas relata a história e sempre em terceira pessoa.
    Ao decorrer do conto podemos observar a variação de tipos de narrador conforme este se aproxima e se distancia das cenas e personagens ou quando opta por interferir na história ou não.
    No início do conto, se vê maior predominância do “narrador onisciente neutro”. “Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta.” “Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes.” Nestes trechos o narrador apenas descreve as cenas sem se aproximar de nenhum personagem ou exprimir opiniões que possam influenciar o leitor. Podemos ver como Machado mantém apenas uma visão de cima, mantendo-se em um discurso indireto, ou seja, não se aproxima de nenhuma personagem, como dito anteriormente, buscando descrever somente os movimentos e características físicas das personagens, no caso dos exemplos as características marcantes da figura de Fortunato.
    Ao decorrer do conto, existem pontos dos quais o narrador passa de “onisciente neutro”, a “onisciente seletivo múltiplo”. Este tipo de narrador nos fornece mais informações perdendo o foco da cena, e focando-se mais a determinado personagem. “”Castiga sem raiva”, pensou o médico, “pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem”.” (neste trecho o foco do narrador está sobre o Garcia.) “Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento. Olhou assombrado, mordendo os beiços. Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.” (já neste trecho foco do narrador está sobre o Fortunato.) Na maior parte do conto o narrador se mantém próximo ao Garcia, mas chegando a transitar por outras personagens, como no exemplo do Fortunato. Sendo assim vemos característica do narrador onisciente seletivo múltiplo, onde Machado “desliza” de um olhar de cima, para alcançar um olhar de fora sobre várias personagens, ou seja, ele sai do discurso direto, quando apenas descreve detalhes de uma cena, para mergulhar nos sentimentos e psique de suas personagens, se aproximando tanto ao ponto de quase se tornar a personagem em quem focou, como vemos nos exemplos, onde ele coloca precisamente os pensamentos que se passam na mente de Garcia e finalmente ao final quando revela os verdadeiros sentimentos e caráter de Fortunato ao se deparar com o sofrido velar de Garcia sobre Maria Luísa.
    Podemos ainda notar em certos trechos a presença do narrador “onisciente intruso”. “…e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.” “Dois dias depois, — exatamente o dia em que os vemos agora, — Garcia foi lá jantar.” “Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento.” Nestes trechos que destacamos, o narrador, onisciente intruso, procura fazer ligações entre diferentes momentos do livro, falando diretamente ao leitor, comentando os acontecimentos e freando a história. Também no último exemplo, vemos que ele, além de falar diretamente com o leitor ao usar o “note-se”, também exprime a sua própria opinião sobre a vaidade de Fortunato, que segundo Machado, é tão cativa de ressentimento como seriam o ciúme e a inveja.
    Mudando para uma visão menos técnica, podemos também nos focar nas personagens, em suas ações, personalidades e nuances, que são de suma importância para a construção da história.
    A começar por Garcia, à primeira impressão parece ser um homem ordinário, com anseios, aspirações, impressionável. “Garcia tinha-se formado em medicina…” “Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S. Januário…” “Na verdade, era uma boa estréia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou finalmente, daí a dias…” “Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava…” “Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido.”
    Porém ao o observarmos melhor podemos ver que é um homem demasiado curioso e observador. “No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo beco do Cotovelo…” “Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos.” “A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade;” “ Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi…”
    De Garcia podemos também notar seu amor platônico por Maria Luísa. Amor de início reprimido que mais tarde lhe ocasionaria sentimentos de cuidado e apreensão por Maria Luísa e por fim desespero. “E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo;” “Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.” “Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero.”
    Quanto a Gouveia, personagem evidentemente secundário, não há muito o que se falar sobre, apenas que se trata de homem ordinário e aparentemente idôneo.
    “— Conhecia-o antes? Perguntou Garcia.
    — Não, nunca o vi. Quem é?
    — É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouveia.”
    “— Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o convalescente.”
    Voltando a causa da apreensão de Garcia, Maria Luísa, vemos que esta, mulher jovem e pouco vivida, se sentia acuada diante de seu marido Fortunato, cuja personalidade grosseira e moral duvidosa lhe era evidente. Talvez característica intrínseca ou adquirida em reflexo a sua situação marital, sua submissão é evidente em vários momentos do texto, assim como seu sofrimento contido. “…e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor.” “…e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça.” “Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer.” “Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos…”
    Quanto a Fortunato, suplício de Maria Luísa, em vários trechos do conto aparenta ser homem de boas qualidades. Homem de boa índole, educado, prestativo, preocupado com o bem-estar do próximo, obstinado. “…e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens.” “…mas eu só vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras, roçando por ele, meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor trazê-lo.” “Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada…” “— Podia-se fazer alguma cousa; e para o senhor, que começa a clínica, acho que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.
    Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idéia tinha-se metido na cabeça ao outro, e não foi possível recuar mais.” “Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas.” “Fortunato recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perdê-la. Não poupou esforços, médicos, remédios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal.”
    Porém em outros trechos Fortunato começa a mostrar outros traços de personalidade não tão belos e que geram dúvidas às personagens e ao leitor, sobre sua moral. “Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido.” “A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios.” “Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho.” “O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo…”
    Ainda além, podemos, baseados nos sentimentos e reflexos de Maria Luísa em relação a Fortunato, questionar o que tanto em seu marido a afligia e até lhe gerava temor. “…e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor.” “Contou o caso da rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada. Insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração.” “…e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça.”
    Por fim Fortunato despido de engano ou farsa nos mostra sua verdadeira face. Um homem sádico, de desejos sórdidos. “Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer.” “ Garcia estacou horrorizado.
    — Mate-o logo! disse-lhe.
    — Já vai.
    E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer.” “Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata…”
    Seus desejos mórbidos são saciados até mesmo pelo sofrimento de sua esposa e de seu amigo. “Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.” “O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.”
    Em conclusão, podemos especular que o título do conto se refere ás segundas intenções, aos desejos ocultos de Fortunato. “…pensou o médico, “pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem”.”

    Curtir

  9. O conto “A Causa Secreta” trata-se de um romance Machadiano, desenvolvido a partir de um triângulo amoroso entre Garcia, Fortunato e Maria Luísa. Há nele aspectos importantes a comentar, tais como o narrador e as personagens.
    Quanto ao foco narrativo, podemos afirmar que ele é narrado em 3ª pessoa e também categorizar o narrador como onisciente intruso. Essa categoria é proposta por Friedman e segundo ele trata-se de “um narrador, um eu, que tudo segue, tudo sabe e tudo comenta, analisa e critica, sem nenhuma neutralidade” (CHIAPPINI, 2002 p.29). Essa categorização fica evidente nos trechos:“[…]Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará […]” (p.2) e “Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que seria parente ou amigo do ferido […] (p.2).
    Já quanto as personagens principais, que são três, há de um lado Fortunato uma figura cujo os olhos eram como “chapas de estanho, duras e frias” (p.4), de outro Maria Luisa, sua esposa, uma moça “esbelta airosa, de olhos meigos e submissos” (p.4) e Garcia um recém formado em medicina um tanto que sentimental que acaba por se apaixonar por Maria Luisa.
    A narrativa se constrói a partir das ações principalmente de Fortunato, uma figura tipica da sociedade burguesa da época que apresenta-se equilibrada de bons costumes, ética e moral inquestionáveis. Seu relacionamento com a esposa não era agradável “Garcia, à segunda vez que lá foi (a casa do casal), percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor” (p. 4). Ele era o tipo que compraz com o sofrimento alheio, um homem frio; essa característica podemos perceber no trecho final que diante da morte da esposa e da revelação do afeto de Garcia por ela “à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo a explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa” (p.8).

    Curtir

  10. No conto “A causa Secreta” de Machado de Assis, o narrador é onisciente intruso e seletivo múltiplo, também se mantem na 3ª pessoa.
    A relação do onisciente intruso é notável pela sua aproximação dos personagens Fortunato e Garcia… . “Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor
    moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.” aqui notamos a aproximação em relação a “As causas Secretas” momento sádico do Fortunato e da traição de Garcia com Fortunato e sua paixão pela esposa.
    A Narrativa ocorre nesse triangulo amoroso entre Garcia, Fortunato e Maria Luisa. Entretanto boa parte da narrativa permanece na visão de Garcia sobre inicialmente seu interesse com a bizarrice de Fortunato e em sequencia seu interesse por Maria Luisa, dando continuidade nesse intrigante e melancólico enredo.

    Curtir

  11. A Causa Secreta – Machado de Assis:
    O narrador se faz observador neutro se mantendo na descrição e evitando comentários dos pensamentos ou sentimentos das personagens, porém em dado momento se aproxima da visão de Garcia a ponto de fazer uso do discurso indireto livre. A partir da perspectiva de Garcia descreve Fortunato e Maria Luiza, passando a ser narrador onisciente seletivo, ainda fazendo uso dessa onisciência, no final, adere uma visão voltada para a perspectiva de Fortunato, logo no final do último parágrafo, no qual é possível notar a aproxima do narrador com a personagem pela clareza dada aos pensamentos da personagem.
    A personagem Maria Luiza apresenta formas planas, ou seja, se mantem sempre igual ao longo da narrativa, mas tem traços de personagem caricata por exemplo: seu jeito submisso e tímido remete ao estilo romântico da donzela dos romances. E é até por essas características que Garcia se encanta por ela.

    O Aleph – Jorge Luís Borges:
    O autor se faz narrador protagonista, o qual se restringe aos seus pensamentos, comentários, sentimentos e descrições. Temos a visão do Aleph, do Carlos Argentino e da Beatriz exclusivamente do autor, os únicos momentos em que temos Carlos como ele mesmo é no discurso livre, no restante são inferências do ponto de vista do narrador autor. Há em vários momentos o monólogo interior do narrador, principalmente na passagem em que ele reflete sobre a sanidade de Carlos Argentino.
    A personagem Beatriz é dada com menos importância, ficando em segundo plano, mas esse segundo plano é revelado de certa forma proposital, pois a personagem plana se mostra redonda quando é revelado seu possível caso com o primo-irmão. A personagem que mesmo morta causa grande sentimentos e pensamentos em Borges tem função fundamental em tornar o narrador autor uma personagem redonda.

    Curtir

  12. Em 3ª pessoa, o narrador do conto A Causa Secreta é onisciente. O narrador parece sempre estar perto de Garcia e duvida de Fortunato junto ao personagem, assim mostrando também ser um narrador seletivo. Resumidamente, o conto relata um triângulo amoroso que se envolve em torno do sadismo.
    “A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes.”
    Garcia, médico recém-formado, conhece Fortunato, homem frio e possuidor de uma grande compaixão em ajudar os doentes. Mostra-se que Fortunato busca prazer na desgraça alheia, chutando cachorros, torturando animais e fazendo experiências tenebrosas. O que incomodava sua mulher que depois acaba por ficar doente. Implicitamente o sadismo de Garcia também é revelado por se deixar apaixonar pela mulher de seu sócio/amigo apenas pela sua fragilidade devido a doença quem em seguida iria vir a matá-la.
    Após a morte de sua mulher, Fortunato pega Garcia no flagra beijando o corpo sem vida de sua mulher, o que entrega que ele estava apaixonado por ela esse tempo todo, sádico que és, Fortunato se aproveita da situação melancólica e a usa para saborear com prazer, devido seu gosto peculiar em gostar de ver o sofrimento de terceiros.
    “Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento. Olhou assombrado, mordendo os beiços. Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.”

    Curtir

  13. O conto “A causa secreta” traz três personagens principais, Garcia, Maria Luiza e Fortunato. Mas devido ao narrador onisciente seletivo só nos cabe saber os conflitos internos de Garcia, sem que assim possamos concluir se o amor de Garcia por Maria Luiza fora impedido por Fortunato ou não era correspondido. Em todo caso esta é apenas uma das questões que giram em torno do prazer secreto de Fortunado pela dor alheia, percebido aos poucos e de maneira crescente ao longo da historia, no começo quando só se mantem no espaço enquanto há dor, como no teatro ou com o paciente que fora atacado por capoeiras, depois ficando mais evidente quando tortura um rato numa cena dolorosa tanto para quem lê quando para o personagem Garcia que assiste e tem seus pensamentos expostos pelo narrador, e ao fim quando se delicia com a dor moral do médico mesmo esta sendo pela sua esposa. A causa secreta de Fortunato fica clara.

    Curtir

  14. No conto O Aleph de Jorge Luis Borges,podemos observar um narrador/autor personagem,que no caso é o próprio Jorge,o leitor fica bem próximo a perspectiva do autor já que é narrado em 1° pessoa,temos um sumário,que nos dá uma ideia do que acontece com cada personagem mais ou menos. Nesse conto conseguimos perceber que Jorge relata seus sentimentos,principalmente o desprezo por Carlos,que percebemos ser um chatão através dos olhos de Jorge,já com Beatriz ele é mais opaco,pois ele “esconde” seus sentimentos por ela. O conto em si é maravilhoso,nos fazendo imaginar como um homem,um ser totalmente limitado,consegue enxergar o infinito,o Aleph,e melhor ainda, descreve-lo.
    “…O que meus olhos viram foi simultâneo: o que transcreverei,sucessivo…Na parte inferior do degrau,a direita,vi uma pequena esfera furta-cor,de um fulgor quase intolerável. No início,julguei-a giratória; depois compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros,mas o espaço cósmico estava ali,sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a lamina do espelho,digamos) era infinitas coisas,porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o mar populoso,vi a alvorada e a tarde,vi as multidões da América,vi uma teia de aranha prateada no centro de uma negra piramide,vi um labirinto truncado(era Londres),vi intermináveis olhos imediatos perscrutando-se em mim como num espelho,vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu,[…]vi a circulação de meu sangue escuro,vi a engrenagem do amor e a transformação da morte,vi o Aleph,de todos os pontos,vi no Aleph a Terra, e na Terra outra vez o Alpeh e no Aleph a Terra,vi meu rosto e minhas vísceras,vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham visto aquele objeto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam mas que nenhum homem contemplou: o inconcebível universo…”

    Curtir

  15. O conto “A Causa Secreta”, de Machado de Assis, é um conto narrado em terceira pessoa, onde o narrador não participa da história, como exemplificado no trecho “Um dia, estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias em que ele conhecera o marido.”. Porém, em momentos, o narrador simula uma presença intrusiva, próxima da voz do protagonista da cena. Por exemplo, no trecho a seguir, onde ele toma os sentimentos de Fortunato: “E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato… Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética.”
    Trata-se, então, de uma narrativa distante com interferências diretas na história eventualmente.

    Curtir

  16. A Causa Secreta, de Machado de Assis
    O narrador é em 3ª pessoa, onisciente e intruso, pois ele conhece toda a história e os pensamentos dos personagens, como “[…] Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento. […]” (p. 8).
    O narrador traça o perfil psicológico de cada integrante do conto: Garcia, uma pessoa intrigada, recém formado em Medicina e sentimental, esconde sua paixão por Maria Luísa; Fortunato, uma pessoa calma, de “chapas de estanho, duras e frias” (p.4) e sua esposa Maria Luísa, uma pessoa tensa,“esbelta airosa, de olhos meigos e submissos” (p.4).
    A narrativa ocorre nesse triângulo amoroso. A crueldade de Fortunato em ver as pessoas sofrerem mostra todo o ceticismo de Machado para com a sociedade, esse era o segredo de Fortunato. Garcia escondia outro, o amor por Maria Luísa.

    Curtir

  17. A CAUSA SECRETA DE MACHADO DE ASSIS

    O Conto ‘’ A Causa Secreta ‘’ de Machado de Assis. Em 3º pessoa, o narrador onisciente tem uma notável característica psicológica em que se revela, fazendo o estudo do personagem Fortunato, o ápice do prazer que é conseguido na contemplação da desgraça alheia. O conto explica o verdadeiro sentido do termo ‘’sadismo’’, ou seja, satisfação ou prazer com a dor alheia. Conta à história de dois homens que, após salvarem a vida um do outro, passou um tempo, e se tornaram sócios. De pouco a pouco um deles demonstra uma tendência sádica, sem prazer em torturar animais, um fato que deixa sua esposa bem atordoada. Quando ela morre, o sádico, presencia o amigo beijar a testa da mulher e se derreter em choro, saboreando o momento de dor do amigo que lhe traia. A causa Secreta se trata de um conto naturalista, mesmo que a ambientação seja burguesa, o personagem parece ratos de laboratórios, uma analogia bem explorada pelo autor na cena mais forte do texto em que Fortunato tortura um rato, cortando as patas lentamente, onde o autor revela pela primeira vez todo o sadismo de Fortunato. Este escrúpulo, que gera o sofrimento do par, é a causa secreta do prazer de Fortunato e de sua atitude de manipulação de que o rato, no conto, é símbolo (Garcia, o protagonista, estaca perante a representação do horror. Fascinado perante o gesto frio de Fortunato, Garcia não faz sequer um gesto. Apenas contempla o sócio torturar lentamente um rato. Cortes meticulosos, pata a pata, precediam a queima do mesmo no fogo. O lento ritual prolongava o prazer. O narrador não subsome a cena em poucas palavras, mostrando-a por inteiro ao leitor).Assim, de um narrador onisciente, nos principia o relato de um triângulo amoroso, trama comum a diversas ficções machadianas, enriquecida aqui de uma novidade incomum nas demais, o sadismo. Em A Causa Secreta, Machado faz talvez um de seus melhores “desenhos psicológicos”. Revela-nos a personalidade de uma pessoa, capaz de realizar “boas ações” desde que estas lhe permitam o exercício de seu prazer.

    Curtir

  18. No conto “A Causa Secreta”, de Machado de Assis, o narrador utiliza a terceira pessoa pra descrever os acontecimentos, apesar de em certos momentos parecer referir-se diretamente ao leitor (característica comum nos textos machadianos). O narrador pode ser considerado como intruso e seletivo múltiplo, ou seja, há momentos em que se aproxima tanto das personagens, que descreve seus pensamentos e expressa sua opinião, selecionando o ângulo e a perspectiva pela qual quer que os fatos sejam narrados. O conto literalmente trata da “causa secreta” que as personagens possuem para agirem da maneira como agem, e vai revelando aos poucos o mistério de cada uma. A narrativa se desenvolve em torno de três personagens principais, Maria Luisa, Garcia e Fortunato. Trata-se de um triângulo amoroso entre os três, porém o narrador evidentemente seleciona apresentar a perspectiva de Garcia sobre Fortunato, um médico que sentia satisfação perante a dor alheia, e desde o começo do conto apresenta características de seu sadismo, mas só nos permite visualizar claramente sua real personalidade no cenário no final, quando o médico tortura um rato pelo simples prazer de vê-lo sofrer e logo após, quando, ao ver que seu amigo Garcia o traía – pois tinha sentimentos por sua esposa, Maria Luisa -, não sente raiva e sim prazer ao ver seu sofrimento com a morte da amada. Nesse conto incrivelmente curioso e misterioso, é possível envolver-se com a história, a partir da descrição das personagens e de como o narrador os envolve no cenário, cada lugar onde os coloca meticulosamente pensados para um desfecho final, deixando algumas características translúcidas e outras totalmente opacas, até o fim do texto, onde todas as causas secretas se encaixam e formam um melancólico fim, fazendo com que tudo tenha sentido.

    Curtir

  19. A causa secreta, um conto narrado em um espaço-temporal, o narrador está em 3º pessoa, ele apenas narra a história e seus acontecimentos, a linguagem se articula de modo a brincar com a imaginação do leitor.
    A narração Machadiana não acontece na época que os eventos ocorre, porque Machado sendo sabidamente o autor do conto, o que os faz saber que é ele o próprio narrador que a voz nos conta a história, exemplo “Com os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço”, isso é do Machado de Assis, na aquela época ela já quebrava essa questão de história linear, aqui ele traz o final para o começo, um discurso monológico com pouca recorrência do discurso direto.
    O narrador deixa escapar que é possível observar que a causa não é tão secreta assim, brincando e despertando a imaginação do leitor, em algumas passagens do conto, por exemplo: “A peça era um dramalhão, cosido a facadas”, que Fortunato redobrava sua atenção entre um personagem e outro, o leitor pode ir compondo a personalidade desse personagem, os pensamentos, prazeres, comportamento sádico de Fortunato, “Maria Luisa ficou desconsolada com a zombaria do marido”, “Fortunato ocupava-se nas horas vagas a rasgar e envenenar gatos e cães”
    Típico de Machado de Assis a questão da construção da ambiguidade em seus textos, contos, exemplo
    a constatação de Garcia de ser da “natureza do próprio homem” o cuidado e a bondade, sobre a santidade de Maria Luisa (morta por ser tísica) fonte de prazer para ambos, tanto para Garcia e principalmente para Fortunato. A amizade de Garcia (por interesse) com Fortunato, afim de manter Maria Luisa por perto.
    Esse conto é riquíssimo sobre critica dos aspectos morais, sociais, comportamentos humanos, virtudes e o narrador nos traz para julga-los com seus personagens muito bem construidos, seja em qual época este conto for lido, sempre nos trará esses questionamentos.

    Curtir

  20. Alunas: Raítsa Coimbra e Débora Cristina

    A partir de seu estilo particular, Machado de Assis nos apresenta três personagens no conto “A Causa Secreta” — Garcia, Fortunato e Maria Luiza —, narrado em 3ª pessoa, onisciente. Logo no começo da leitura, seguindo o caminho dos parágrafos, o leitor é envolvido pela sensação de estar sentado diante do narrador, como se estivesse realmente escutando a estória em uma conversa comum; mantendo um diálogo que permite com que participe do decorrer da trama.

    No conto, Garcia é observador, e sua participação é o que nos permite construir análises dos personagens, principalmente de Fortunato. É devido aos seus conflitos e sentimentos, que descobrimos, pouco a pouco, a base em que cada um se situa. Enquanto o decorrer da estória acontece, tomamos conhecimento da imensidão do misterioso Fortunato, torna-se perceptível que sua vontade de ajudar os enfermos está muito além da medicina. Para ele, o prazer não está em salvar uma vida, mas na dor que se estende durante os tratamentos.

    Nessa mesma linha, vemos Maria Luiza, que se mostra logo de cara ser uma mulher tensa, desconfiada e temerosa quanto ao marido. Num certo momento, ela fica gravemente doente e vem a falecer. E é na despedida de Garcia que temos a confirmação de seu amor pela esposa do amigo, quando ele a sela com um beijo de dor silenciosa. Fortunato assiste a tudo, satisfeito com o sofrimento, colocando em pauta mais uma vez os traços do seu psicológico. É reafirmado o que leitor sentiu na cena em que este, diante de Garcia, tortura um rato lenta e minuciosamente: aquela era a personalidade de uma pessoa disposta a construir-se de boas ações e pensamentos morais, desde que tenha passe livre para embebedar-se com seu sádico prazer.

    Curtir

  21. A CAUSA SECRETA
    Conto narrado em 3ª pessoa sem participação do narrador. O narrador descreve as personalidades, emoções, interpretações de ambos os personagens, uma mistura de sentimentos de amor, sadismo e satisfação, descrevendo os de forma explicita. Garcia um homem com boas intenções de um médico no começo de sua carreira, Maria Luísa, jovem casada com Fortunato, o conto parte a partir do cruzamento desses 3 personagens.
    O conto é marcado pela “curiosidade” de Garcia ao tentar entender a frieza de Fortunato, aproximando se dele e de sua esposa Maria Luísa, se estendendo a um caso amoroso ao fim. A partir de então Garcia descobre que Fortunato na verdade sente prazer pela dor alheia, ao ver a cena de seu amigo torturando um rato até a morte, lentamente, vendo em seu rosto serenidade de como alguém que contempla uma estatua divina.
    “Castiga sem raiva”. “Pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia pode lhe dar: é o segredo deste homem”.
    Após decifrar o segredo de Fortunato, Garcia que carregava dentro de si a paixão não declarada por Maria Luísa, acaba sendo desvendada por Fortunato. Maria Luisa morre e durante seu velório, Garcia a beija e a contempla, demonstrando seu amor e sofrimento que a tanto tempo estava guardado, Fortunato assiste tudo por de trás da porta, se deliciando com tamanho sofrimento de Garcia. O conto termina numa espécie de analogia entre o rato e Garcia, sofrimentos que revelam a causa secreta de Fortunato.

    Curtido por 1 pessoa

Deixar mensagem para Raítsa Coimbra Cancelar resposta