Um comentário sobre “Pai contra mãe

  1. Raul Corrêa de Macedo Neto

    RA: 1 0 0 7 9 1 5 5

    Letras UNITAU

    O VENTRÍLOQUO DO OLHAR: SERGIO BIANCHI E A VOZ OBSCENA

    Nos contos do Machado de Assis, a gente vê que as coisas não são exatamente como foram ensinadas para a gente.
    Sérgio Bianchi, cineasta

    Bianchi, 68, é o diretor de “A Causa Secreta” (1994), “Cronicamente Inviável” (2000) e “Quanto Vale ou É Por Quilo?”, (2005), entre outros. Mais que um enredo propriamente dito, trazem um espetáculo de horrores do cotidiano brasileiro: violência, ódio entre as classes, corrupção, racismo. Assim, Machado sugeriu uma possibilidade de deslocamento no tempo e espaço de uma estrutura social, que o diretor captou, deu forma e consistência na sua arte cinematográfica um século depois.

    Dirigido por Sergio Bianchi, o drama nacional faz uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. No século XVII um capitão-do-mato captura uma escrava fugitiva, que está grávida e após entregá-la ao seu dono e receber sua recompensa, a escrava sofre um aborto. Voltando para os dias atuais, uma ONG implanta o projeto de Informática na periferia em uma comunidade carente, mas Arminda, que trabalha no projeto, descobre que os computadores comprados foram superfaturados e, por isso, precisa ser morta.

    No conto machadiano, ambientado em meados da década de 1850, Cândido Neves, um capitão-do-mato, vê a decadência de sua atividade cada vez mais iminente, com pedidos de captura de escravos cada vez mais escassos e as recompensas mais modestas. Vivendo de favores em uma habitação com sua mulher, Clara, com quem há pouco tivera um filho, e com a tia desta, Mônica, a pobreza cada vez mais aguda desta família obriga Candinho a um ato extremo: o de deixar seu filho na Roda dos Enjeitados da cidade a mando dos pedidos da insistente tia. A salvação deste pai vem por intermédio da escrava fugida e grávida Arminda, que, ao ser recuperada para seu senhor por Candinho, garante a este pai a permanência de seu filho junto ao seio da família, já que os ingressos provenientes do trabalho afastariam, mesmo que provisoriamente, a ideia da adoção. Assim, na luta que dá nome ao título do conto, a derrota da mãe escrava restaura ao pai capitão-do-mato a paz e manutenção de sua família. Dessa forma, perversamente, o sistema escravista de coerção de liberdade para alguns, permite a felicidade de outros, que se beneficiam e dele tiram seu sustento.

    No filme de Bianchi, as contradições existentes em uma sociedade datada de há quase dois séculos são reencenadas no Brasil do século XXI, numa tentativa de mostrar a continuidade da submissão através da permanência de outras escravidões no cenário nacional. A primeira ação dos realizadores para conseguir tal paralelo foi transpor as personagens do conto de Machado para exemplos atuais de uma metrópole como São Paulo, com a conservação, de modo geral, das características das personagens machadianas: a Arminda, outrora escrava em fuga, agora é uma líder comunitária negra; Clarinha, a mulher do capitão-do-mato, é revivida na figura de uma ingênua moça da periferia com aspirações ao sucesso midiático; a “tia Mônica” de Bianchi é uma empregada doméstica que sonha em ocupar o cargo da patroa e em troca descontar-lhe os anos de humilhação, e o herói do conto, Candinho, agora trabalha como lixeiro que, por imposições do meio e da tia autoritária, acaba recorrendo à prática ilegal de matador de aluguel para sustentar a família.

    A contradição, emblema máximo do final do conto de Machado de Assis, faz-se presente no filme a partir do fato de que pode haver lucro em cima da miséria e dos despossuídos. Assim, enquanto que em “Pai contra mãe” o futuro de uma criança junto à sua família é garantido pela captura de uma mãe escrava e o consequente aborto do filho que carrega, em Quanto vale ou é por quilo? o insólito reside na possibilidade de lucro e sobrevivência de diversas ONGs em cima do “mal” que deveriam combater, a pobreza.

    Pode-se dizer que Sérgio Bianchi elege um tipo de leitura na obra machadiana e faz dela um meio de “reler” as contradições, os mecanismos de empenho, dominação e exploração que permeiam as relações de nossa sociedade contemporânea. Os seus filmes, na singularidade de sua estética e consistência artística, têm autonomia e se apresentam como uma das vertentes mais criativas e expressivas do cinema brasileiro moderno. Mas vê-los também por meio desse diálogo estabelecido com a obra de Machado é uma maneira de buscar algumas linhas temáticas e formais inspiradas pela literatura, que são trabalhadas e desenvolvidas em seus filmes. Uma delas, sem dúvida, é a permanência de traços absorvidos pela nossa sociedade escravista, que ainda não se apagaram; ao contrário, ganharam expressões próprias, num processo perverso de metamorfoses flagradas em seus filmes. Familiarizados no convívio cotidiano, esses ecos dos porões da escravidão estão incorporados ao corpo social como a sombra do passado que a luz do seu cinema quer ressaltar.

    É esse o vínculo principal que liga o conto “Pai contra mãe”, publicado por Machado em 1905, ao filme Quanto vale ou é por quilo?. Como o passado ainda vive no presente é um caminho de leitura para o filme, que, ainda, realça, no seu diálogo profundo com a obra, aspectos da literatura de Machado do ponto de vista da sua escritura e da crítica social.

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