VI
O poeta moribundo
Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!…
Façam dela uma corda e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava…
O aroma dos currais, o bezerrinho
As aves que na sombra suspiravam
E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia…
Como o cisne de outrora… que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada…
Que noiva!… E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno
Se ali não há também amor de velha
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras…
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos!
Ora! e forcem um’alma qual a minha,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a missa!
1. O poema acima faz parte do livro Lira dos XX anos, de Álvares de Azevedo. A partir de uma leitura crítica desse texto e do capítulo “Álvares de Azevedo: Ariel ou Caliban”, de Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, explique a dicotomia Ariel e Caliban proposta no livro.
2. A partir de sua leitura do romance Iracema, explique o que Bosi propõe como MITO SACRIFICIAL. De que forma isso se relaciona com uma maneira de interpretar o Brasil, importante para o nacionalismo do período?
3. Estabeleça um comentário crítico sobre um dos poemas de Os escravos, de Castro Alves.