Olá, alunos de História, cultura e sociedade!
Segue abaixo o livro Casa grande e senzala. Leremos um dos capítulos para discutirmos como a academia tem olhado para a escravidão e para o lugar dos negros na formação social e cultural do Brasil.
Até amanhã!
Raul Corrêa de Macedo Neto
RA: 1 0 0 7 9 1 5 5
Letras UNITAU
No contexto de uma sociedade aristocrática, agrícola e patriarcal, o sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) na obra Casa Grande e Senzala elenca a importância do negro na formação social, econômica e política do país. Suas marcas de valores na cultura popular, nas características físicas e comportamentais do povo brasileiro superando a herança indígena e até mesmo portuguesa na maioria dos casos e rompe com o paradigma da estrutura piramidal entre distintas etnias na formação do Brasil.
Com o correr dos séculos, o contato entre brancos e negros não só foi conformando a geografia física e humana das Américas como se constituiu na primeira tomada de consciência da unidade do planeta.
O fim do século XX tem sido marcado pela rediscussão da participação e do direito da raça negra na conformação daquele novo mundo.
No Brasil, onde já em fins do século XVIII havia cerca de um milhão de brancos contra dois milhões de negros e pardos, estudos sobre a presença do negro na formação do “caráter nacional brasileiro” vêm sendo feitos desde meados do século XIX.
Verdade que a visão do negro na principal historiografia brasileira é até hoje trabalho de branco: são brancos Silvio Romero, Gilberto Freyre e Euclides da Cunha, para citar apenas alguns dos mais importantes estudiosos do assunto.
Gilberto Freyre preocupou-se com a influência do escravo negro nos meandros da vida sexual e de família do brasileiro.
Preocupou-se com o trânsito estabelecido entre a casa-grande e a senzala, viu a grande vantagem que é a mestiçagem, tirou daí a tese da atração natural (pura, por sadismo ou por masoquismo) e entre as raças negra e branca.
Não mostrou apenas o que há de harmonia nesse contato, mostrou também o que há de desarmônico, contraditório, antagônico e carnavalesco.
Gilberto Freyre teve, afinal, a coragem de apontar, na sociedade patriarcal brasileira, o convencionalismo social da superioridade da mulher branca, da inferioridade da preta e da preferência sexual pela mulata: “Branca para casar, mulata para f…, negra para trabalhar” diz ele, com todas as letras, e cita as taras de Nina Rodrigues e José Veríssimo:
“Entre nós, já vimos que Nina Rodrigues considerou a mulata um tipo anormal de superexcitada sexual; e até José Veríssimo, de ordinário tão sóbrio, escreveu da mestiça brasileira: ‘um dissolvente de nossa virilidade física e moral’.”
Afinal, como afirmou Friedrich Nietzsche, não há fatos eternos, como não há verdades absolutas. A verdade é um processo irreversível e constitui a liga entre o passado que explica o presente e condiciona o futuro.
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Como produção humana, a literatura veicula valores que nem sempre estão representados diretamente no texto, mas são transfigurados pela linguagem literária e podem até entrar em contradição com as convenções sociais e revelar o quanto a sociedade perverteu os valores humanos que ela própria criou.
Pobre Isaura! Sempre e em toda parte esta contínua importunação de senhores e de escravos, que não a deixam sossegar um só momento! Como não deveria viver aflito e atribulado aquele coração! Dentro de casa contava ele quatro inimigos, cada qual mais porfiado em roubar-lhe a paz da alma, a torturar-lhe o coração: três amantes, Leôncio, Belchior, e André, e uma êmula terrível e desapiedada, Rosa. Fácil lhe fora repelir as importunações e insolências dos escravos criados; mas que seria dela, quando viesse o senhor?
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. São Paulo: Ática, 1995.
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“A miscigenação é doce”. Eis aqui uma metáfora muito recorrente quando se trata de Gilberto Freyre na Academia. Este pernambucano revolucionou a interpretação sobre a sociedade brasileira nos anos 1930.
Além de romper com as interpretações positivistas, ele valorizou a presença das culturas afros no cotidiano brasileiro e imprimiu a marca do relativismo cultural em nossas Ciências Sociais.
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